3 de dezembro de 2009


Quando não se tem mais a esperança de que um dia a educação vai ganhar e a gentileza se tornar matriarca das ações humanas, você pode sempre que possível recorrer por alguns minutos de extrema sublimidade à notas musicais que possivelmente farão da sua vida algo com sentido.
Leila Lopes talvez não soubesse disso, mas provavelmente se você estiver lendo essas linhas já terá andado meio caminho para poder entender o quanto sua alma necessita de momentos como esse.
Mas muitas vezes o cansaço te consome um pouco mais. Nuances calamitosas dentro de um pedaço do seu homúnculo de Penfield, deixam borrar a imagem devastadora de uma alma pintada sem cores. Que possivelmente explodirão dentro de um caleidoscópio cheio de sabores distorcidos. Sendo assim as confusões mentais são de proporções tão grandes quanto aquele famoso navio do Leonardo de Caprio (ou melhor, do iceberg que bateu no navio.....). Mas na maioria das vezes algumas notas chamam atenção para o simples fato de que sim você está vivo e pode transmutar toda a merda que te cerca por luzes reluzentes e cheias de almas.
Isso vai acontecer muitas vezes enquanto você estiver ouvindo o disco de estréia do TEMPER TRAP, CONDITIONS. A banda australiana composta por: Dougy Mandagi, Jonathon Aherne, Lorenzo Sillitto e Toby Dundas, começaram de uma maneira nada convencional. Sweet Disposition foi a marca registrada de uma das melhores trilhas sonoras desse ano (500 Days Of Summer), e lançou a banda como promissora e frequentadora das nem sempre corretas listas de promessas no mundo da música. O que não se esperava, é que a banda não é nem de longe uma música apenas. Todo o disco de estréia é sensacional e funciona como cura tridimensional em vários vértices........
Começando com LOVE LOST. O teclado de introdução tem notas que calam a intenção de não prestar atenção na banda. E nem mesmo as guitarras coldplayanas mostram fraqueza de caráter para a canção. Já de cara a voz marcante de Dougy Mandagi que oscila entre a delicadeza e a melancolia, mostra um contraponto bem formado com as sobreposições das guitarras. Poderia até ser lado B de qualquer single de uma banda mais romântica, mas a força da sutileza dessa música já te arrebata para dentro de um turbilhão de notas delicadas.
Turbilhão pronto, apenas resta seguir com a corrente em REST. Mais rápida que a abertura e de bateria quebrada com uma linha de baixo pulsante, a canção é feita em moldes radioheadianos ramônicos aonde surgem guitarras descompassadas com se fossem um coração em arritmia. A parada súbita da canção apenas dá uma cor a mais para esse caldeirão de movimentos em forma de onda sonora.
Existem músicas que nascem clássicas desde o tempo em que elas ainda são um esboço rabiscado dentro de um papel branco em cima de uma mesa, apenas figurando em uma teoria Sartriana. SWEET DISPOSITION é assim, com suas guitarras subliminares. As mensagens escondidas dentro dessa canção são as mais marcantes dentro do disco todo. Inicialmente parece apenas um borrão de tinta, começando a tomar forma conforme a letra vai se tornando cada vez mais veloz.
Mais uma vez marcada por uma linha de baixo sensacional e a bateria mostrando que nem sempre uma canção que faz você ter sensações tão grandiosas precisa ser pesada. É possível sim sentir toda a urgência de vida pintada naquela folha em branco do início e ao mesmo tempo poder balançar o fêmur. Afinal de contas nada como um movimento dentro de uma tela em branco para você perceber que a sua vida pode te fazer dançar e se emocionar ao mesmo tempo. Escute, feche os olhos e pinte a tela...........









DOWN RIVER parece querer diminuir o ritmo em seu início com violão. Mas nem de longe isso se faz verdade, com a bateria descompassada entrando em ação. Vocais duplicados e backing vocals encaixados dentro uma música que mostra o ritmo incessante de viver. Os vil metais adicionados dentro do refrão são apenas um detalhe menor, mas são eles que fazem você entender do que a vida é feita. Mais violões serão iniciados em SOLDIER ON e a música parece querer se arrastar por entre seus ouvidos. Rastejando pela sua nuca e lentamente colocando seu canal auditivo em xeque-mate, essa canção parece pedir comtemplação. É necessário não ouvi-la com pressa e deixar a música se fazer no tempo dela, afinal de contas existem coisas na vida que a ventania intempestiva não tem o direito de desmoronar. Nem que para isso seja necessário manter seu coração perto do chão.......
FADER é um pop rock com as melhores intenções possíveis. Guitarras simétricas e batidas corretas com direito aos famosos "u-hus" no refrão. Muito da parte pop dos anos 80 pode-se ouvir por entre as notas, mas não há necessidade de maledicências em formato de críticas intelectualmente exacerbadas. Muitas vezes as melhores canções são aquelas mais simples que apenas te abrem um sorriso no rosto.



FOOLS tem começo de batida eletrônica que imediatamente vai te lembrar uma balada do New Order e o refrão pode fazer você confundir a voz do vocalista com um dos irmãos Gibb. Os vocais duplicados são apenas uma menor nuance, que faz com que a imagem de lagos lotados de peixes coloridos que coreografam um balé contra as ondas formadas por ventos vindos do norte na superfície da água se mostrem dentro da sua imaginação. Caminhar nas nuvens provavelmente deve ter essa trilha sonora. RESURRECTION leva você para um funk lisérgico marcado por marteladas torianas do baixo. Canções com finalidades épicas tem a tendência a se tornarem pedaços de space rock chato, mas a nervosa calmaria marcada dentro dessa música mostra que não é necessário se tornar chato para se tornar épico.
SCIENCE OF FEAR é mais New Order ainda. Feita para ser tocada ao vivo em qualquer palco pequeno aonde o som das caixas provavelmente vão te fazer sentir os ouvidos dormentes depois do fim do show. O Temper Trap é uma banda que poderia em qualquer momento optar pelo caminho de transformar as canções em hits com guitarras dissonantes e batidas pleonásmicas, mas o caminho seguido nessa canção não é o do digerível nem do suporte pop fácil. A música tem a tendência de andar por entre as linhas que beiram o abismo e que em qualquer momento despencariam para algo mais seguro. Ela não cai e assim seu fôlego permanece em suspensão.



Na linha de bandas como Foals, DRUM SONG termina com o disco em ritmo de tribologia. Poucas bandas atualmente colocam uma música instrumental como fim de trabalho, talvez por acharem que isso mostraria uma falta de canções, mas a banda se segura bem com batidas que chamam chuva.
Conditions mostra em sua música final aquilo que parece ser a tônica desse disco todo, uma celebração da capacidade de entender que se pode ver a vida por entre notas musicais e ainda por cima fazer dela um lugar muito belo para se viver. Ouvir Temper Trap é uma das maneiras de sentir teu sangue pulsar por entre as artérias e saber que sim vale muito à pena estar vivo.