10 de dezembro de 2009


Existe uma categoria de sons que eu costumo chamar de sons equivalentes. Nem sei ao certo se essa denominação existe de verdade. Mas apenas sei que muitas vezes as surpresas são empacotadas em embrulhos que se parecem com aquele em que estava o presente do ano passado. E nessas horas as aparências enganam muito.......
Nas primeiras notas do disco de estréia da banda australiana PHILADELPHIA GRAND JURY, você vai ter essa sensação.
Dupla de amigos de infância que vivem brigando, Berkfinger e MC Bad Genius acabam todas as discussões fazendo músicas. E nesse caldeirão de influências que os caras mostram desde os primeiros acordes do disco HOPE IS FOR HOPERS, vai fazer você ter certeza que está diante de um dos discos mais bacanas de 2009.
Uma vez eu escutei um dos meus heróis da marvel dizer que não interessava se a banda parecia uma outra, o importante era que o som da banda citasse a referência mas não fosse uma mera cópia. E é exatamente isso que você vai escutar do PGJ, milhares de sons com influências variadas. Mas nada é de graça e pode ter certeza que a sua diversão está garantida.
O disco é rápido, não demora nem 40 minutos para você escutar toda a bolacha. Pode até parecer diversão sem conteúdo, dessas que se esquece depois de dois minutos longe. Poderia até ser o carrinho de trombada do rock, mas sempre achei que música boa era aquela sem fescuras teóricas e com punch suficiente para deslocar o ar dos seus ouvidos. Pois então pode se preparar.........

The Hives???
Não é apenas a canção inicial READY TO ROLL. De duração punk (1:53), com uma pegada pesada incluindo aí os vocais arranhando a faringe. Toda baseada em Stooges e Ramones com uma função única de divertir e mais nada. Suja, simples e pronta para despertar sensações dançantes com cabeças em balanço constante.
THE GOOD NEWS não tem nada, mas absolutamente nada a ver com a pegada da canção inicial. Pianos em inércia e refrão pegajoso mais do que assoviável, fazem com que o disco passe do punk para o pop iê-iê-iê em fração de segundos. Letra divertidíssima e leve como toda boa canção pop deve ser, faz com que a bateria ritmada apenas seja mais uma forma de fazer você mexer seu fêmur constantemente.
A cafajestada corre solta em WHEN YOUR BOYFRIEND COMES BACK TO TOWN. Fala sobre ser o outro em um triângulo amoroso. Com sonoridade pixieniana e um suingue que lembra muito as boas coisas inspiradas no funk dos anos 70. Malemolência cheia de terceiras intenções.









Toda banda de rock tem que ter uma baladinha que se preze. Pois então WET WINTER HOLLIDAY é ideal, com suas nuances de chobidubá e letra que fala sobre o cheiro de garota. Bateria eletrônica marcando o passo desde o início, com uma lentidão propositalmente rápida faz com que essa música seja apenas uma parada estratégica para as pancadas que virão à seguir.
Um ukelê solta as primeiras notas dentro de I´M GONNA KILL YOU. Mais uma vez Pixies e um direto de esquerda que vai te deslocar o pescoço. Rápida como todo bom rock de arrasto deve ser, com solo marcante e apenas a lembrança de que toda boa música tem que ser no ritmo do 1,2,3,4.
E o deslocamento de ar continua com FOOT IN MY MOUTH. Frases cheias de repiques na bateria e uma guitarra em nervosismo constante. Mais uma vez a letra calhorda mostra que a diversão sempre foi a mola propulsora dos australianos. E a simplicidade de tons e cores mostra que não é necessário sabores metálicos de longa duração para se ter uma música que seja explosiva.









Com o refrão homenageando Summer Love do filme Grease, PHILLIPS´S NOT IN LOVE WITH YOU traz uma tonalidade um pouco mais calma. Cadência necessária para contar a história da canção, o que faz que ela seja mais atraente aos ouvidos mesmo dando a impressão de ter saído de algum filme para adolescentes nos anos 50 ou 80.
O pop com cerebelo bem postado volta a marcar presença em GROWING UP ALONE, que consegue conciliar bem a tendência em ser meio Beach Boys meio Beatles. Mais um refrão grudento e linha mais simples não fazem com que a música seja descartável. Sensacional trilha sonora para se dirigir em qualquer dia da semana.
As melhores músicas são sempre aquelas que não tem pretensão nenhuma de serem levadas à sério. GOING TO THE CASSINO (TOMORROW NIGHT) é assim. Descaradamente suja e despretenciosa é de fácil digestão pelos seus ouvidos acostumados com as maluquices de Tom Yorke, mas sem deixar de lado todas as mudanças de andamento que a guitarra coloca explodindo em sons mais tribais possíveis antes de mais um refrão que nem de longe vai deixar sua cabeça tão cedo.
NO YOU DON´T tem uma cara de Rolling Stones que é quase um disparate. Os vocais duplicados dão um clima Devo para a canção que é marcada pela linha de baixo pesado com guitarras distorcidas e embebecidas em litros de bebida alcoólica de qualquer tipo. Rápida e certeira com a tendência de te fazer dançar por mais um minuto e trinta segundos.
O blues aparece em THE NEW NEIL YOUNG, colocando a canção mais longa do disco (4:o1) como uma homenagem ao avô do grunge. Levada garageira em peso com todas as paradas estratégicas em Seatlle. Com a nítida alusão à Daniel Johnston esse som serve para acender um cigarro e pedir uma cerveja bem gelada.
Como em todo o disco I DON´T WANT TO PARTY (PARTY), tem uma diversão embutida sem precedentes (Jesus is in my kitchen but the devil is in my mind.....). Clamando por amores com riffs irresistíveis e uma bateria que vai soar como uma ordem para se jogar dentro de qualquer balada indie que se preze. É tudo muito simples e sem pretensão de soar inteligente e, graças à Deus, assumidamente divertido.









Hope Is For Hopers é um disco que não se deve levar à sério. Mas é exatamente nessa atitude que ele se mostra mais forte, pelo simples fato de divertir e mais nada. Afinal de contas o rock realmente é para isso mesmo.
Pílulas homeopáticas atômicas cheias de vibrações dançantes.............