Segundos discos são quase areia movediça.Alguns tem a capacidade de fazer uma banda decolar de vez (Queens Of The Stone Age, Arctic Monkeys), outra vezes a depressão é tão grande que nada consegue fazer o ouvinte se desvencilhar da idéia de suicídio cultural que passa por todos os nervos auditivos. De uma maneira sádica de ser, o segundo disco traça uma linha entre a beira do precipício e o completo e eterno paraíso discotecário.
As grandes sacadas dos segundos trabalhos de qualquer boa banda, são em sua maioria marcados pela despretensão. Nada de muitos floreios pavonísticos ou complexas armações floreadas pelo alfabeto do Deleuze. Bons álbuns muitas vezes não necessitam de nada além de três acordes (Ramones), ou três mosqueteiros (Nirvana/Nevermind).
Quando nasceu o primogênito do Vampire Weekend no ano de 2008, o que chamava atenção eram a falta de distorções, as viajens afro incandescentes de ritmos e a desconexão em relação ao que o chamado pop oferecia. Foi genial, suingado e punkeado como deveria ser qualquer bom movimento de pernas descoladas pelo ar.
Mas depois da bonanza de músicas o que fazer??????
A resposta parece colidir com a idéia de que quanto menos se inventa, melhor as coisas fluem. E quando se ouve CONTRA de início ao fim das notas de rodapé, você pode até imaginar uma mera continuação. Como se você estivesse assistindo qualquer Jogos Mortais 23 ou mais um filme de Harry Potter, onde a mago mirim não é capaz de dar uns amassos bem dados na Hermonie e continua cada vez mais dependente da varinha. Mas não se engane em momento algum.
Não é uma mera sequência, é uma continuação bem trabalhada, mesmo sendo talvez o disco mais desprentesioso lançado nesses últimos tempos.
A banda parece muito a vontade nessa ilha de ritmos caribenhos e africanos cada vez mais retorcidos dentro de sintetizadores que falam uma língua analógica coerente. A calmaria vampiresca se torna quase que feita de matéria palpável dentro do disco, mesmo tendo apenas um pouco mais de 30 minutos.
Essa paz de espírito desenhado em ondas dentro de qualquer resort praiano fica muito óbvio em HORCHATA a música que abre a bolacha. Todo mundo já ouviu a desmedida lentidão seguida de toques que parecem ter saído de algum disco do Jimmy Cliff. Você pode até admitir que é um lugar comum e seguro e que a música jamais vai pegar como Mansard Roof por exemplo. Mas quem é que quer salvar o mundo do rock pela enésima vez???????
As arrumações eletrônicas lúdicas de WHITE SKY são loopings que desabrocham em tomadas elétricas. Ritmo marcado pelo refrão em forma de falsete em uma música que tem tudo para ser hit em pista de dança de festa de duendes. Se o Natal não tivesse acabado poderia até ser trilha sonora da fábrica do senhor Noel.
HOLIDAY com a sua letra pueril ameaça fazer o disco entrar nos trilhos. Com os riffs marcados como em A-Punk, a música é de chacoalhar a cabeça com movimentos involuntários insônes. Mas não é por isso que seu nariz vai torcer, na verdade provavelmente suas pernas entrarão em transe de protetor solar movendo-se em direções que configuram uma espécie de dança desconexa. É música de sorrir, vai me dizer que precisa de mais alguma coisa?????
A disritmia sonora que segue a entrada de CALIFORNIA ENGLISH, como se fosse uma gravação dentro de uma sala abafada denuncia a completa paixão da banda pelo dub. Mas não espere uma canção que leva o ritmo as últimas consequências. Se o título da música fosse Chimbinha English poderia até gerar mais empatia em nossos corações tropicais, devido a tamanha lembrança que você vai ter ao ouvir essa canção. Nem os violinos vão te fazer esquecer as mexidas mastodônticas de cabeça da Joelma. Som rápido com uma inervação de bateria que provavelmente remete à epilepsia, perfazendo uma letra quase que falada e por pouco sem tradução.
Tivesse mais um minuto seria insuportável, mas nesse caso é apenas um clique de mesmice.
Se existe um pecado mortal nesse disco do VW é a música TAXI CAB. A melodia que é uma das mais doces e tranquilas que a banda já fez não derrapa apenas nos cravos e violoncelos. Depois de duas músicas em ritmo de cem metros rasos, você apenas quer que a inércia violenta continue e você despenque ladeira abaixo sendo levado pelas canções de bater o pé. Mas o corte seco que a música faz pode ser curva perigosa de bocejo.
Se você gostar de canções mais lentas aonde a frase de abertura é "I´m sentimental", então essa é a sua canção..........
Passando a metade do disco temos a música em forma de trem antigo RUN. Tem uma estranheza de bateria que lembra Strokes no refrão, com um aglomerado de notas eletrônicas e uma linha de baixo que finalmente aparece no disco. Para quem estava acostumando já com a genética rítmica afro-caribenha esse turbilhão oitentista chega até causar estranheza, mas esse disco do Vampire não está aí para explicar e sim para complicar..........
O que nos leva para uma das mais legais músicas de 2010 (e me perdoem a frase mãe Diná), COUSINS. Introduções com riffs de guitarras grudentos são a especialidade da banda, e isso é cirurgicamente preciso nessa música. Você vai se sentir dentro de um saloon hiperbárico e psicodélico. Tudo era meio cinza dentro de Contra até então, com algumas nuances de cores. Mas essa música é uma explosão tamanha de ritmos e refrões grudentos que é praticamente uma sessão de reike dos infernos. Não existe a menor possibilidade de ficar parado, mesmo porque os sons que permeiam a membrana do seu cérebro nesse momento vão explodir em aneurisma sonoro que provavelmente ao invés de te deixar com um hemi corpo funcionando apenas, vão fazer com que cada célula do seu corpo adquira vida própria e saia sorrindo e pulando por todos os tecidos vivos do teu corpo.
Você ainda vai estar feito bobo quando os primeiros acordes de GIVING UP THE GUN começarem. E o ritmo tirado do Duran Duran ou daquela música do Adam And The Ants (Stand And Deliver), vai fazer você pensar que está ouvindo uma disco de uma banda diferente. Deliberadamente feita para as pistas com paradas estratégicas na melodia e uma profusão de sons graves com guitarras que lembram um certo peso. É o VW mostrando que nem só de uma mistura onde vão licores brancos, safari, 40 ml de sumo de maracujá e tutti fruti batido no shaker se faz um segundo disco. Vai um New Order aí?????
DIPLOMAT'S SON volta a quase que uma mesma ladainha de ritmos caribenhos mesclados com mais e mais sintetizadores extravagantes. O fantasma chimbístico volta assombrar Contra com uma vontade de se tornar de carne e osso equivalente a fúria dos 300 de Esparta. Não chega a ser tão ruim porque a música tem um ritmo de fim de tarde bêbada de margueritas. Mas não será jamais a décima maravilha do mundo. A mudança de andamento estranha no final traz mais uma complicação, como se o Super Furry Animals encontrasse uma banda da América Central. Mais sombras dubísticas ecoam, mas por pouco tempo.
I THINK UR A CONTRA parece título de música de delator da Frente Sandinista de Liberação Nacional. Começa de maneira completamente calma como se estivesse querendo tocar a linha de início de Horchata, mas de maneira a evidenciar o final da festa. Tudo vai indo lentamente, desde a percussão tribal até as cordas dedilhadas com precisão de procissão católica apostólica. Não empolga nem deixa a impressão de que você está de alma lavada, mas sim uma nuvem de pacificação quase que religiosa permeia toda a faixa.
Contra é um disco de momentos. Vão existir horas de sorrisos largos outras de completa perplexibilidade com a linha reta que a banda seguiu em relação ao primeiro (e infinitamente melhor) disco. Mas o disco não é de maneira nenhuma descartável muito menos um horror em forma de notas. Escute cada faixa especificamente com o seu humor do dia e assim as coisas ficam menos cinzentas. O único problema é que gostar de Contra vai fazer você ter que dar o braço a torcer para o Calypso.
Mas vai me dizer que o Chimbinha não é o mago do ritmo (hahaha) ???????