19 de março de 2010

Você abre seus olhos e está dentro de uma nuvem de poeira, onde as únicas coisas que você consegue diferenciar são luzes em tons azulados, cercadas de sombras esverdeadas e tons de um arroxeado brilhante. Todos os reflexos das luzes colidem em sua retina, fazendo com que seu cérebro demore um pouco mais para inverter as imagens da maneira correta. Você enxerga seu pulso saltar por entre as veias de seu pescoço, sentindo cada milímetro de sangue percorrendo os vasos. O chão embaixo de seus pés se desconecta das raízes mais profundas do terreno sedimentado, lentamente se transforma em uma esteira com a consistência de gelatina e você sente seus pés desequilibrarem em direção à um tombo iminente e perigoso. Nesse momento a poeira se dissipa e ao longe você enxerga um vulto entrando por entre as luzes. Ela usa patins azulados com dois foguetes, um para cada calçado. Nas mãos um laço onde um míssil terra-ar é domado, como se ela fosse capaz de parar o tempo ao seu redor e fazer com que as leis da física não importassem nesse planeta. Se aproxima de você que nesse momento é invadido por tremores epiléticos de alta voltagem, descolando cada osso do seu corpo da pele.
Ela sorri, amarra suas mãos ao míssil. Você sem reação e impotente diante daquela figura com cabelos cacheados e vermelhos. Um beijo demorado ela lhe oferece. Sem mais ação seu corpo é entregue a sensações que percorrem sua medula com intensidade e velocidade de átomos se partindo. Quando todas as reações iônicas em sua pele se derretem ela solta a corda e você é lançado junto com o míssil que explode liberando oxigênio líquido bivolt. Quando seu corpo cai por terra ela sorri. Do chão brotam sintetizadores que lhe mostram a língua. Você abre os olhos mais uma vez........

Quando você dá por si, acabou de escutar a música de abertura do mais novo disco da banda GOLDFRAPP (HEAD FIRST), a poderosa em qualquer pista intergalática ROCKET.
Will Gregory e Allison Goldfrapp formam esse dueto que definitivamente sempre soube como juntar batidas poderosas e encarnações dançantes de alta volatilidade. Nesse disco ainda contam com as participações dos músicos e produtores Pascal Gabriel e Richard X, que provavelmente tem uma grande "culpa" no ritmo desse novo registro.
BELIEVER entrega desde o começo a que se propõe a banda. Embalar a voz cada vez mais cativante de Allison em músicas que falam de romance, amor e vida vivida envolta em sons que usam ao máximo os sintetizadores e máquinas. Mas não pense por um minuto qualquer que dentro desse disco serão encontrados viagens psicodélicas unidas com o pop (isso você pode encontrar no novo disco do Jónsi). A intenção é colocar você para dançar envolto em relâmpagos e isso o disco consegue desde a segunda canção.









2010 parece ser o ano em que todas as décadas passadas estão voltando, trombando e concebendo uma outra coisa. E essa canção com a cara da pista de dança do Studio 54 se ele ainda estivesse em pleno funcionamento é assim, um refrão plocquiniano com abuso de sintetizadores fáceis. Nem mesmo a repetição ao extremo do refrão faz com que se perca a levada da música, simples como respirar mas mágica do mesmo jeito.
ALIVE anda uma década para trás e as notas de uma guitarra espacial somada as viradas de bateria que são o deleite para Olivia Newton John, fazem com que seus pés demonstrem a ansiedade de não querer mais ficarem no mesmo lugar. E a voz de Allison é algo que dá arrepios até nos mais devotos votos de castidade do planeta.









DREAMING tem toda uma aura funk soul brother irressistível. Mais uma vez a voz se impõe com força de meteroro prestes a colidir com seu corpo indefeso. O disco ainda está na década de oitenta e essa canção lembra coisas de bandas como o Pet Shop Boys ou o Erasure. O fato da canção ser um pouco mais cadênciada não impede que as levadas maquinárias sejam gratuitas, mas sim trazem um pouco mais de complexidade certeira. Mas o que importa é a diversão.......
O pianinho de HEAD FIRST daria orgulho ao ABBA e uma conotação feita por um dos sintetizadores entre as frases da canção, foi tirada das baladas amorosamente melosas das bandas de um hit só dos anos passados. Se a música anterior era uma diminuição do ritmo do disco, essa canção definitivamente faz tudo ir mais devagar.
Tomou uma balinha???
Agora é a hora da água........
Não tomou????
Então nesse momento é a hora da dança da vassoura, prepare-se para ficar com aquela menina que você há tempos está querendo. A trilha sonora vai garantir momentos onde provavelmente apenas existirão apenas vocês dois e o mundo vai girar devagar.........

HUNT vem à seguir e se você está procurando mais diversão terá que esperar mais um pouco. Nesses quatro minutos e trinta e quatro segundos, a voz de Allison sussurra histórias de amor com estranhos acordes. Ambiental demais com uma cadência de mistura muito maior, o que faz com que essa música mesmo sendo bela canção seja menos dançante. mas o que ela perde em diversão, ganha em nuances em viagens que vão desde Kraftwerk até a mais pop das bandas atuais. O vocal em névoa dessa canção faz uma trilha para os ecos no final de casa frase, escute então de olhos fechados e volte a escutá-la quando sair o remix. Esse sim nasceu para ser mexido e remexido.
SHY AND HARM volta a dar sinais de que o pessoal vai cair na pista novamente. As bandas de pop rock indie que procuram uma boa canção para fazer uma cover, podem escolher sem medo a sétima canção de Head First. Redondinha como toda a canção pop deve ser, mas com o ritmo hipnótico dos sintetizadores e as viradas no refrão, é uma aula de como se faz uma canção pop com o cérebro. E eu não ia falar de novo mas............essa voz da Allison!!!!!!!!!









Potente como um labirinto tecnológico onde as cores se confundem com as máquinas fazendo com todas elas envolvam em seus braços os mais incrédulos humanos. I WANNA LIVE se fosse lançada em 1981 ou 89, entraria facilmente nas listas das melhores músicas do ano. E isso não quer dizer que o som é datado, mesmo deixando a impressão de que o Goldfrapp inova sem tentar chegar a lugares muito diferentes. O som poderia também se encaixar em qualquer disco da banda anterior à Head First, mas não joga contra o time.....









VOICETHING encerra o disco com início mais pesado. A introdução lisérgica e segura faz com que sua audição se vire para prestar atenção aos teclados de filmes de ficção científica dessa canção. Com citações à Bjork muito sutis e experimentações, é a música mais difícil do disco e comparativamente falando se encaixa no mesmo filão de Siberian Breaks do MGMT. Canção um pouco mais longa onde as experimentações são a tônica, o que pode ser um tiro certeiro dentro da água ou uma viagem musical mais agradável. O fato da música não ter doze minutos, faz com que ela seja apenas descartável.

HEAD FIRST não é nem vai ser o melhor disco do ano. Muito menos levou a música eletrônica à um novo patamar de maestria, mesmo porque os mais ranzinzas vão achar que o disco é bom até Alive e depois cai na armadilha das citações e movimentos contrários. Mas já é um bom remédio em uma tarde cinza daquelas que você está parado no trânsito, de saco cheio de seu chefe e do apressadinho que não para de buzinar na sua traseira. Ligue Goldfrapp bem alto e espere.......
Um minuto e meio depois as portas dos carros se abrirão e as pessoas começaram a dançar na avenida enquanto foguetes supersônicos deixam no ar uma trilha de ácido ligados em alegria e sorrisos........