24 de março de 2010



Não se pode acusar a banda Franz Ferdinand de não ser democrática. O quarteto da Glasgow conseguiu divertir todas as faixas etárias, sejam elas formadas por pré adolescentes e suas franjas estilo fresnianas ou distintos senhores de cabelos brancos e suas camisetas do rock inglês.
Havia ontem no Via Funchal uma mistura heterogênia etária, que fazia tempo que esse aspergiano não presenciava. Obviamente por ser o primeiro show do ano, os ataques de ansiedade foram devidamente registrados pelo cérebro, mas como todo bom macaco velho as coisas correram bem. Casa lotada e platéia ganha, não poderia dar errado, não é verdade????

Sim e não.

Mesmo tendo espaço suficiente para a locomação dos transeuntes (bêbados ou não), pelo menos no fundo da casa e com o bar servindo intermitantemente as pessoas que tentavam fugir do calor, que já havia há tempos ganho a batalha contra o ar condicionado do Via Funchal. Mesmo ficando a dúvida se a aparelhagem estava ligada ou se não deu conta do recado, a abertura das saídas de emergência conseguiu trazer um certo frescor dentro dos corpos que suavam em bicas (mesmo parados).
O show da banda começando obviamente com um atraso justificável, fez uma abertura não tão diferente do realizado ano passado na The Week. Bite Hard, uma das melhores músicas do disco Tonight (3º da banda) já mostrou o que seriam as próximas duas horas. A pista da casa saltando e cantando todas as letras da banda. Com direito à Alex Kapranos elogiando o coro.


E por falar em Kapranos, mesmo visivelmente abatido por algum tipo de gripe ou algo do gênero (fato que ele explicou logo no começo do show), como sempre foi a mola propulsora no quesito elevar a temperatura e conduzir uma legião de fãs que estavam na fila do Via Funchal desde às duas horas da tarde. Toneladas de carisma por entre coriza e uma banda que estava tocando muito mais pesado do que no show do ano passado. Aliás essa é uma diferença entre as duas apresentações realizadas aqui em SP. Ano passado o clima de garagem dentro da The Week, criado pela banda e também pelo fato do show ser "fechado", deixou tudo mais solto.
Ontem as guitarras estavam mais altas e mais pesadas, prova disso foi o duelo feito por Kapranos e Nicolas McCarthy. A produção também ajuda, afinal de contas o telão localizado atrás da banda tratava de manter a hipnose através de imagens com cores de ácido e várias animações. Para as crianças presentes (sim haviam várias, no sentido literal da palavra) foi uma experiência ímpar de números primos.
O show segue, as pessoas cada vez mais suadas e minha claustrofobia cada vez mais aguda.

Matinée, Tell Her Tonight e Know You Girls trataram de deixar a platéia no ponto onde a banda queria, mesmo não se esforçando muito, afinal de contas a partida estava ganha desde o começo.
Mas não se pode negar um minuto sequer que o FF, sim, deixa uma boa parte de suor, alma e ventrículos no palco. Seja nos sorrisos e conversas com o público ou mesmo na competência de sobra dos músicos. Os solos de percussão dos quatro são uma prova disso, criando um ritmo tribal de dança da febre. A mesma que queimava Kapranos e que foi espalhada devidamente quando This Fire e seus solos assolaram os corpos trôpegos e dançantes das quase 6.000 pessoas que estavam no caldeirão Funchal nessa terça.



Sempre implico um pouco com a platéia dos shows em SP, seja pelo fato de todo mundo achar que vai para uma balada e não para assistir à um show de rock ou porque todo mundo fica mais preocupado em twittar do que ouvir as músicas. Mas Do You Want mostrou uma das facetas mais bacanas do público ribeirinho de concreto do Rio Tietê, a entrega. As frases de ordem de Kapranos ("esse é meu camarada" e "é isso aí mano") foram detalhes bem colocados.
Cantando em uníssono cada palavra, o público repassava sua alma aos magos da Escócia deixando uma tonelada de suor no meio do caminho. O calor não importava, muito menos a cara de bravo do Forastieri. Pessoas em uma mesma imensa onda de energia cataclísmica que passava agora a hipnotizar a banda............
Mudanças no set list em relação ao show de 2009 foram bem vindas. A adição de Shopping For Blood e as músicas mais antigas como Take Me Out foram executadas com maestria.

E mesmo assim havia algo de estranho no reino da Dinamarca.......
Quando a banda deu tons Joy Divisionianos à famosa cover de All My Friends do LCD Soundsystem, duas coisas ficaram claras:

a) quem escuta emocore não sabe quem é James Murphy.

b) a banda ou já apresentava sinais de cansaço ou a burocracia havia tomado conta......

Não há como negar que o FF é uma banda muito boa, que o show é divertido, feito para se dissolver em epilepsia dançante e que é sim uma experiência muito contagiante. Mas ontem a banda foi democraticamente burocrática. Nada de novo no front ou mesmo algo que pudesse dar a mesma sensação sentida quando o refrão de Creep do Radiohead (e você da patrulha indie ideológica, não venha me dizer que são duas bandas diferentes pois eu sei disso), explodiu contra nosso peito no show de 2009 no Brasil. Mesmo empolgando, a banda apresentou um mais do mesmo bacana, talvez ocasionado pelo estado de Kapranos (que depois do show twittou uma mensagem bonita ao público agradecendo por faze-lo sentir-se vivo).
Para quem assistiu pela primeira vez foi uma catarse boa, mas quem viu a segunda, a impressão de não haviam alarmes e surpresas ficou muito forte.


Restava então entender o que a banda significou nessa noite de terça feira. E isso foi feito por um personagem de coturnos, cabelos tingidos de vermelho e presos em um rabo de cavalo diminuto que praticamente não balançava nem mesmo com as idas e vindas do corpo, envolto em uma camiseta de David Bowie antiga. Possuindo já suas balzaquianas marcas encravadas no rosto, dançava frenéticamente posicionando seus braços nas laterais e com movimentos curtos ia à frente e voltava como uma marcha cambaleante onde o que apenas importava era a dança. Uma tábua dura e compacta feita de movimentos cheios de inércia. Não se importava com mais nada, apenas com as frases e com os sons que saiam dos gigantes monitores tomados e sublimados pelo suor e fúria de vozes.
O som do Franz Ferdinand significa isso: diversão em amplitude total de movimento, sendo você criança fresniana ou balzaquiano frenético e dançante. Talvez isso explique porque mesmo em um show médio, a entrega é total e completa.