31 de março de 2010

GD 33 REALIDADE VIRTUAL QUE SANGRA

Ontem enquanto passava meus olhos pelos vazamentos de disco do dia, minha vizinhança predial passava por estranhas reações. Em momentos que pareciam pequenas ejaculações de emoções exacerbadas as pessoas gritavam e vibravam.
John Holmes não despertava esse tipo de excitação, muito menos a montagem gráfica peniana de Mark Wahlberg em Booggie Nights. Mesmo não tomando conhecimento durante os primeiros minutos, as manifestações eram de tamanha amplitude que me chamaram à atenção.
Nessas horas a sua timeline ajuda a entender o tópico em questão do momento, sem ter que usar o Google ou qualquer tipo de buscador de fino faro. E cheguei a conclusão que os gritos se tratavam de manifestações relacionadas ao famoso reality show global que tinha seu episódio final marcado para essa terça feira, dia 30 de março.

Não acreditava, na verdade não queria acreditar. Imaginei estar dentro de um pesadelo midiático de proporções paranormais. Olhei pela janela esperando encontrar a face de um dos cavaleiros do apocalipse, montado em seu cavalo negro cuspindo labaredas que queimariam os esqueletos dos não marcados com a marca d'água do Senhor (já imaginei inclusive que Cleycianne estaria salva).
Mas não, o céu continuava avermelhado de poluição e mais nada. Sem cavalos, sem raios e sem o monstro do espaguete.
Não cabe aqui discutir se a atração televisiva tem ou não relevância. Ela não tem, isso é fato. A importância do reality para a evolução cultural brasileira é igual à uma música do Carlinhos Brown, ou seja, nenhuma. Nem adianta ficar fazendo fóruns de discussão sobre o que significa a vitoria do rapaz que ganhou ou se o homossexual que perdeu. Mas uma coisa é necessário se entender.......

Foram mais de 127 milhões de votos. A população do Brasil é de aproximadamente 190 milhões. Então isso dá aproximadamente um voto e meio para cada habitante. Não que cada brasileiro tenha votado na decisão de quem sairia de uma casa mais rico do que a pessoa que estava votando. Mas foi quase isso, menos a Debora Secco que votou a quantia de R$1.500,00 em mensagens de celular.
Então sim pode-se dizer que o programa exibido ontem é além de campeão de audiência, uma referência do que o povo brasileiro assiste, se mobiliza e torce na televisão. Mas com essa grande parcela da população participando, pode-se afirmar que realmente a voz do povo é a voz de Deus?????????????
Procurei então saber o que havia acontecido dentro do programa, já que não assisto regularmente. Liguei para amigos e amigas que assistem, procurei na internet. Para minha não surpresa os adjetivos, que mais foram ouvidos e lidos foram os recorrentes:
baixaria;
brigas;
homofobia;
mais brigas;
mulheres quase sempre semi nuas;
sexo oral;
mais baixaria.

Não que me espante o brasileiro médio gostar de tomar conta da vida alheia, por isso a explicação da grande audiência. E se você acha que o povo tem mais o que fazer convido você à passar uma semana, como morador regular na cidade onde nasci, Jaú. Você vai ver como o brasileiro pode ser......
Mas esse não é o caso, o que me preocupava é saber que um programa com esses tipos de adjetivos conseguia mobilizar uma tamanha quantidade de pessoas.
Pensei então que o vencedor pudesse ser uma pessoas que se destacou da medíocridade geral. Um bravo guerreiro que pode despontar altas quantidades de sabedoria, amor e educação elevada. Uma alma iluminada no meio de mares banhados de lama intelectual. Passei então a procurar saber quem era e o que fez o rapaz que já começava com um nome promissor: DOURADO.
Mas minhas esperanças foram por terra quando os adjetivos foram ainda piores. Verdades ou não, isso não interessa. A individualidade de cada um já tem esse nome porque é de direito. Saber se a pessoa é ruim ou não, é artigo de discussão em mesa de bar, para deixar o pessoal da bossa nova bravo. O que importa nisso tudo é o seguinte:

Como é possível em um país que brada aos sete ventos, cinco campeonatos mundiais de futebol, o berço do pai da aviação, lar de um super herói chamado Ayton Senna, dentre outras mil és tú Brasil a pátria mais amada. Somos formadores da elegância na música do mundo, temos a tropicália admirada por todos os yankes indies, o samba é inspiração para muitos artistas estrangeiros. Nação soberana e emergente.......
Como é possível em um país que é tudo isso, o programa de maior relevância nesse país ser um apanhado de tudo que é mais desprezível dentro do ser humano???????
Porque os brasileiros se mobilizaram tanto, discutem tanto e votam tanto por uma atração televisa que pelo que eu entendi, mostra apenas o lado pior do ser humano nu e cru(el).
Mas a argumentação é que programas como esse são espelho do que acontece, é a realidade. Acho que na verdade a realidade é que o povo não tem causa para lutar ou seguir. Esse entorpecimento causado pelos bolsas famílias diários que recebemos pela mídia e governo, faz com que o povo não tenha mais espelhos. A carência de ideias e objetivos da população faz com que as televisões distribuam um ópio para que as pessoas lutem. Imagine um palco com enormes proporções, onde as cordas que controlam as marioentes são feitas de folhas de papoulas asiáticas onde descargas elétricas de ópio neuronal fazem com que esses soldados vestidos de verde amarelo marchem em direção ao tudo de LCD com quinze conexões em estéreo.
Não existe possibilidade dos brasileiros irem até Brasília explodir o congresso ou tirar as crianças que estão se acabando no crack das ruas. Elas então entorpecidas com o ópio, que revela a face humana mais imbecilizada. Assim votam em realitys shows, fazem piquetes em frente ao fórum.
O brasileiro não vê os políticos serem condenados, mas viram Alexandre Nardoni ser preso, assim como viram o Rocky Balboa brasileiro ganhar a votação. Cédulas preenchidas com a vontade do povo, para o povo. Na cocaína televisiva a população vê os resultados dos seus atos, enxerga a tetraplégica andar e ser feliz, não sabendo que na realidade um tetráplégico muitas vezes anda com um cano enfiado dentro de seu pênis para poder urinar involuntarimanente.

Existe uma grande inversão de valores quando o programa de televisão, revela isso. Há algo de estranho no reino da Dinamarca, quando a peça televisa que tem maior audiência na TV, prima pelo espetáculo escatológico da genética humana. E então fica uma pergunta...........

Porque a população que participa de um programa que pode ser definido como show de horrores televisivos se espanta com um pai jogando uma criança de cima de um prédio??????
Não deveria causar a comoção que causou, afinal de contas o programa de maior audiência na televisão é um amontoado de partes terríveis do ser humano também, e nem por isso deixou de ser seguido por milhões de pessoas.
Não estou dizendo aqui que a morte de uma criança não deve ser um fato tenebroso, mas porque também não a morte de toda uma sociedade?????

Também acho que daqui a duas semanas ninguém mais lembrar de nada disso e que as pessoas logo irão achar alguma coisa mais interessante para tomar conta. Provavelmente Debora irá gastar mais algum dinheiro mandando mensagens de texto para suas amigas.....
Mas quem é que vai preencher esse vazio que a sociedade brasileira está fazendo nascer dentro do peito. Como é que se pode dormir sossegado sabendo que a sociedade que vai votar para presidente esse ano, prefere um programa como um reality show desses???????
Não adianta dizer que é distração barata porque não me convence, é preciso entender que enquanto andarmos como gado enfiado em trincheiras que obrigatoriamente levarão ao matadouro, iremos viver cegos. Dizer que assistir ao reality show é passatempo vazio é a mesma coisa que olhar as crianças fumando crack em Brasília e falar que é um pequeno problema.
A sociedade está se transformando no espelho do que vê na TV, ou a TV está se transformando na sociedade que a vê???????
Talvez apenas quando novamente Paulo Coelho for usado como referência literária dentro da boca de um jornalista de renome, em um programa que mostre um pai que assassinou a filha e se redimiu pelas mãos de um Big Brother de Orwell, saberemos em que ponto essa sociedade está.

OBSCRUEL: agradecimentos à Tatiana de Melo Xavier pelos neurônios......