27 de maio de 2010


Como dizia minha avó:
Gosto não se discute, afinal de contas apreciar música não é uma fórmula matemática que abriga certezas e constantes desmonianas. Encaixar sua alma com um conjunto de notas tão viscerais e poderosas quanto uma tragédia de Sófocles é de uma emoção só sentida dentro da célula mais interna. Mas isso é escolha...
Muito menos pela qualidade musical, que não importa aos ventrículos, mas sim pois o despertar de paixões não se traduz em concretismos de plantão. Mas em formas inusitadas e memoráveis de deslocamento de sentimentos. Gostar de uma banda ou uma canção é padecer de lógica, não existe a mínima condição de racionalizar o gosto. Caso isso fosse possível, o erudito e o popular não teriam separações didáticas. Tudo seria a mesma coisa e todo mundo gostaria das mesmas canções.
A magia da música é essa capacidade de heterogênia concreta, lava descendente e feiticeira. Uma magia inexplicável que acorda lágrimas, sorrisos e lápides.

Por ser siamês das paixões desenfreadas, o gosto não contém imparcialidade. Claves de sol dispostas diferentemente, gostos diferentes. E isso pode causar uma confusão mental que beira à estafa em mentes em formação. Pessoas que ao comprarem um novo modelo de tocador de mp3 (por favor a fábrica do modelo mais vendido, se quiser anunciar nesse espaço entre em contato!!!!), ficam perdidas.
Afinal de contas o mundo está ficando menor e as opções de escolhas cada vez maiores, então imagine os seres humanos que ainda estão se adaptando à vida na Terra e suas confusões cotidianas, terem à disposição tamanha quantidade de escolhas. Pode causar uma certa ansiedade controlável, afinal de contas escolher uma canção é saber que sua vida se moverá por entre as notas e isso é uma coisa séria.

É aí que se encaixa as pessoas formadoras de opiniões. Cadeias helicoidais genéticas que tem uma capacidade de síntese tamanha que fazem com que nós mortais, possamos saber quem são as bandas que por um acaso poderíamos nos identificar ou não. Não são empaladores medievais de gosto, mas sim uma pequena luz que alumia um túnel cheio de gavetas sonoras. A existência dessas pessoas é primordial ao meu ver, para que as canções sejam cada vez mais conhecidas. E é exatamente aí que vejo seu melhor papel.
Sim, o senhor mesmo estando em patamares acima da média é um desses seres. E digo isso apenas analisando suas conquistas profissionais dentro desse mundo ilogicamente musical, pois já trabalhou com grupos que levaram com eles multidões enfurecidas de amor e paixão. Caso dos Mamonas Assassinas, Los Hermanos e aquela menina de difícil acesso chamada Ana Júlia e agora com todas as bandas desse novo rock. Todos os casos, levando o ponto de vista comercial são bem sucedidos exemplos que contaram com suor e trabalho da sua parte como também à dos músicos envolvidos.
Essas bandas e a sua conduta como produtor das mesmas fez com que as pessoas se identificassem e formassem uma opinião sobre elas, seja uma boa ou ruim. Mas sempre formando idéias e gostos.
Então sim, o senhor é um formador de opinião musical. Pessoas das mais diferentes classes fazem filas enormes e vão aos shows dessas bandas porque se identificaram com elas, pois amam cada nota e cada palavra que sai dos instrumentos. E não se engane quando lhe digo, que sim elas são apaixonadas por esses grupos, porque a música é assim de se entregar.

Pois então sabendo de nossa condição (sim eu me incluo nessa categoria de traficantes de informação), temos que entender nossos direitos e deveres. E um desses deveres é antes de mais nada respeitar as posições contrárias sem as maledicências de palavras como BURRO por exemplo.
Mas isso é educação básica capítulo um.
Educação é uma forma de evolução, e a frase que diz: "Artista que disponibiliza música de graça na web é burro e desvaloriza seu trabalho", é passível de não apenas um ponto de vista.

Primeiro porque a invenção do não pagamento ao trabalho do artista já existia desde os tempos aureos dos vinis. Atire o primeiro rolo quem nunca gravou uma fita cassete, pois afinal de contas elas eram os arquivos P2P da época de nossos pais. Se a pessoa não tinha dinheiro para comprar os discos que raramente tinham valores acessíveis na época, era só comprar uma das maravilhas com rolos magnéticos e apertar a tecla REC. De programas de rádio até discos completos era possível ter toda a informação, principalmente para quem morava longe dos grandes centros e não tinha oportunidade quase nenhuma de conseguir uma cópia daquele disco que mudaria sua vida, mas fazia isso na forma de fita cassete.
A tecnologia não criou o problema, ela apenas aumentou a dimensão de tudo. Com a diminuição do mundo e o aumento da capacidade de possui-lo dentro de um HD, é óbvio que a natureza curiosa das pessoas iriam leva-las à procurar por coisas gratuitas, aconteceu com a pornografia e com a música. Ambas drogas de fácil adicção em cérebros acetilcolinizados.

Mas entendo que o ponto de vista comercial colocado por sua pessoa é importante, afinal de contas é seu trabalho. Gasta-se tempo e ferramentas para que se coloque a máquina sonora em estado de vapor ruidoso e veloz, pois dessa engenhosa roldana é que provém seu sustento. Sua comida é comprada através desse seu ganha pão. E lutar pelos seus direitos é um direito seu e jamais poderá ser retirado. Entretanto não é possível ficar impassível à evolução das coisas e a teoria genética já diz que a adaptação ao meio decide quem fica e quem vai. E não vejo em uma frase que proclama o adjetivo da falta de inteligência, um sinal de cultura.

Existem perdas e sim pessoas que tem nas canções sua sobrevida nesse mundo deixaram de ter um pedaço de seu filão, mas ao olhar para a cena toda é possível ver que esses mesmos artistas que disponibilizam músicas gratuitas, não são desprovidos de cérebro.
Não sei se a banda Arctic Monkeys (para citar um exemplo recente) é uma daquelas que o senhor considera importante, mas eles fazem um grande sucesso comercial então usando a lógica de que coisas boa é aquela que vende, eles são fantásticos.
Antes mesmo de tornarem-se multiplatinados em vendas, todas suas canções estavam colocadas gratuitamente na internet, inclusive versões não gravadas e raridades.
Isso apenas fez com que se tornassem muito mais do que apenas uma banda que estava começando. Mas não atenha-se à esse exemplo apenas, vamos mais longe.....
Existem milhares de bandas que disponibilizam seu conteúdo gratuitamente, mobilizando ouvidos atentos de pessoas que buscam qualidade e a resposta não é outra a não ser identificação e procura por mais. Assim os músicos que liberam suas músicas constroem uma base de fãs sólida, que lotam shows e traficam mais e mais essas informações fazendo com que muito mais gente possa saber que aquela nota é capaz de transformar almas e emocionar. Cria-se uma identificação de marca d'água na alma.

Isso não deve ser o que move um artista?????
Formar uma rede de conexões intrínsecas e duradouras com seres humanos que são tocadas pela sua arte. Criar transcedência para poder tirar as pessoas de uma inércia intelectual que permite apenas uma visão.
Mas hoje em dia, um ponto de vista refratário não é mais possível, não em um mundo que clama por soluções conjuntas.
Não se pode olhar iniciativas como as da gravadora Trama, que disponibiliza todo seu acervo para download gratuito como burrice. Há menos de dois meses fomos surpreendidos com a notícia de que os criadores do formato mp3, já estão trabalhando em um outro tipo de formato que tornará o simples arquivo de música como obsoleto. Com uma capacidade de armazenagem tamanha que toda uma história sobre uma banda poderá ser contada, atualizada e moldada. 32 "gigawatts" de informação latente e precisa, onde não existirão mais fronteiras. Não são as pessoas que são burras meu caro senhor leitor, as pessoas não gostam de procurar saídas.

Mas graças ao deus Darwin existem cerebrais lutadores que mostram a cada dia que sim é possível uma revolução em direção certeira. Empresas que tratam seus artistas como um todo, oferecendo soluções de manutenção de carreira inteligentes e sagazes. Onde não se vende apenas uma caixa de plástico com onze ou treze músicas, mas sim pacotes com camisetas, colantes, livretos e até saquinhos de compras de papel por preços acessíveis. Camisetas são tão importantes quanto seu disco, passam uma mensagem de que você acredita nas palavras estampadas em seu peito, pois afinal de contas o símbolo da banda é sempre colocado ao lado do ventrículo. O Record Day Store é outra prova que lançando-se mão de alternativas pode-se fazer o moinho da vida girar e sair de uma crise mais forte. Procure os projetos com as bandas que trabalham com a empresa Phonobase e veja quantas saídas inteligentes que não utilizam-se apenas das vendas de discos podem ser feitas.

E não é para isso que serve a crise???? Para achar uma saída????

"Porque caímos no poço meu filho Bruce???"

Porque ater-se ao fato de que com o download gratuito aconteceram 25% de perdas , quando também representaram 75% em aumento de exposição de artistas que jamais seriam ouvidos se dependessem do esquema antigo de gravadoras. Dados expostos em um estudo da Universidade da Pensilvânia em 2009, feitos por Joel Waldfogel e Rafael Rob mostram isso. E como divulgadores de informação temos a obrigação de admirar esse fato e continuar na busca de músicas que façam as pessoas sairem desse estado de leishimaniose cerebral que elas se encontram.

E não apenas buscar, mas traficar essa informação para que elas cheguem ao máximo de ouvidos possíveis. Mudar a forma do mundo, sem ofensas e buscando alternativas é nossa obrigação. Nem que ela comece dentro de sua casa, mas sempre em direção da mudança. Fomos agraciados por uma força maior, não podemos fugir dela. Seria covarde e sem vida achar por um minuto sequer, que nós como humanos não temos a capacidade de emocionar outras pessoas através do repasse de notas que mudam vidas e fazem com que a miserabilidade terrena seja passageira.
Me recuso terminantemente em aceitar essa pequenez de pensamento. Se a felicidade é uma arma morna, temos a obrigação de dispara-la.

E também não é preciso entender a teoria para saber se uma música pode ou não ser boa. Se o gosto é independente e toca o íntimo das pessoas o que é preciso ter é um coração batendo dentro do peito e vida. Não posso aceitar que 99% das pessoas que lidam com a informação musical não saibam do que estão falando. Posso muito bem não gostar de banda x, k ou y, mas como achar que pessoas como André Forastieri, André Barsinski, Paulo Martins, Álvaro Pereira, Lucio Ribeiro, o pessoal do Urbanaque, Rock In Press, Bloddy Pop, Pop Mata, Disco Pops, que escreviam na revista Bizz, Noize, Rolling Stone, Bilboard, Rock Em Geral, Revista Bula, Senhor F, Pílula Pop, Move That Jukebox, Marcelo Costa e seu Scream & Yell (isso apenas para citar alguns nomes, pois existem milhares se não milhões), que possuem uma sensibilidade pra poder traduzir em palavras notas de música que passam pelo mais profundo âmago de suas almas e deixam que essas palavras cheguem em nossas retinas sejam ignorantes. Como consumidor de música gratuita e comprada, me sinto ofendido quando o senhor diz que tudo o que se lê sobre isso é escrito por pessoas que não sabem nada. A lógica mostra que então as pessoas que consomem a informação também não possuem cérebro, afinal de contas recebem informações mal escritas.
Então tenho que discordar, pois sou egocêntrico e chato, mas não burro. Eu poderia me encaixar nessa categoria se não enxergasse a evolução das coisas. Poderia vestir a carapuça com as orelhas se por acaso, não pudesse ver que tudo se converge para uma única fonte onde pessoas de todas as partes do mundo são capazes de descobrir coisas novas e passa-las adiante. Sem fronteiras e sem amarras ao estatuto comercial das grandes gravadoras. Negar que o mundo anda para frente (sem esquecer o passado edificante), isso sim seria sinal de ignorância. A vontade de mudar o mundo é divina e não burra.....

Não senhor Bonadio eles sabem muito bem do que estão falando. Estão falando de vida e isso é concreto. Tão certo quanto a conta de Caetano Velloso, essas pessoas tem uma função importante e tanto quanto o senhor batalham dia a dia para poderem se sutentar em um mundo incerto. Muitas vezes não ganham nada, mas jamais deixaram de amar cada pedaço de uma canção e tentar mostrar isso às massas. E isso transcende qualquer noção podre e recalcada de mercado.
E são essas pessoas que mostram a importância de bandas que apesar de não venderem quantidades enormes de discos, como as franjas platinadas atuais, são mais importantes do que números e cifras.

Bandas que abriram um caminho à ferro e fogo e nunca foram reconhecidas devidamente, como por exemplo os Ramones. Uma banda que nunca vendeu quase nada em comparação aos seus contemporâneos, mas pavimentou uma estrada que hoje é traçada por tudo o que se ouve no rock atualmente. Riffs de guitarras cortantes das bandas passam obrigatoriamente pelos iniciais 1,2,3,4 que eles deixaram para trás. Em cada lugar que tocaram uma semente de evolução foi plantada e assim novas pessoas puderam entender que uma nota pode mudar uma vida e assim formaram mais bandas. Como uma banda dessas não pode ser primordial???

Como não entender que o movimento iniciado pelo Velvet Underground foi um dos pilares que ajudaram à formar o que mais adiante fosse chamado de punk. E como não juntar isso à bandas anteriores como por exemplo os Sonics. E não foi só na música.
Em uma entrevista feita para o Museu Público de Nova Yorke, Lou Reed dissecou a importância que Andy Warhol teve como mentor da banda, não apenas cuidou deles mas também trouxe a roupagem pop à capa do disco inicial. E não podemos esquecer que todas as bandas de rock coloridas (que ao seu ver irão longe), tem em sua caracterização todas as sementes plantadas por aquela lata de sopa. A new wave que também é referência ao modo de se vestir desses grupos não é nada mais do que a exacerbação da cultura pop criada pelo mentor do Velvet Underground.
Mas não vamos misturar as coisas, afinal de contas o disco inicial do VU foi escolhido pelo Guardian (que é inglês e não se encaixa na afirmação dos 99% da imprensa nacional), como o que mais mudou a música.

Estariam todos então burros??????

Não lhe serve o exemplo gringo, vamos de um nacional então:

Cartola nunca ficou milionário com música nem vendeu milhões de cópias e inclusive foi "resgatado" por Sérgio Porto de um trabalho como lavador de carros. Eram outros tempos, afinal de contas usava-se a música como ferramenta de sobrevivência primal (muitos são os relatos de sambas vendidos por uma ninharia, apenas para que se pudesse ter o pão à mesa), mas então onde se encaixa a lógica de que quem não vende não presta???
Foi Cartola menos importante por não estar no Top 10 da MTV?????
Será que a internet não ajudou a disseminar seus sambas e fez com que uma geração muitos anos depois fosse iluminada por suas palavras????

Vejo sim uma cegueira nessa maneira de atacar verbalmente às pessoas. Um ódio dissimulado em uma forma de pleonasmo na argumentação de que a indústria está sofrendo. Não meu querido senhor Bonadio, não somos burros. Capazes de diferenciar o que tem boa qualidade e má talvez, mas jamais seremos desprovidos de massa cinzenta. A capacidade de querer que as músicas tenham mais qualidade, passa pelo movimento da informação livre de amarras.
Esse é o nosso Helter Skelter, nossa missão. Não atacar pessoas que lutam com a alma, com palavras que revelam mais despreparo emocional do que inteligência artificial.
Talvez não eu, mas um cara que foi mais famoso que Jesus Cristo (essa medida de sucesso está boa????) posso ser mais claro:

"Eu espero que um dia você junte-se a nós, assim o mundo pode se tornar um...."