25 de maio de 2010

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GD 41 O CANARINHO DA ILHA

Uma das únicas memórias emotivas boas que tenho é a relacionada à um tio que morreu no início da década passada. Descendente de italianos da gema, cresceu e morreu no interior paulista. Dele foi herdado além de várias lições sobre honestidade e honra, um eterno amor por futebol.
A única coisa que Seu Romeu não conseguiu fazer foi transformar o sobrinho em palmeirense conduzido por uma paixão de alma incessante e pulsada arterialmente. Quando do dia de sua morte, quebrei meu juramento de nunca entrar em velórios. No mesmo dia em que durante eternas horas meu coração se esvaziava de lembranças conduzidas por lágrimas hidroeletrizadas.
Nessa quarta feira de cinzas longe do reinado de Momo, entendi o significado da expressão chorar até ficar oco. Ao final do dia me sentia tão vazio que não havia sequer uma linha de tristeza que sustentasse a alma......
Mas uma das lembranças mais fortes desse exemplo divino de vida que cruzou meu karma, era sua devoção pela seleção brasileira de 1982, Copa da Espanha.
Meu tio costumava encher os olhos d'agua quando relembrava da escalação: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Edinho, Falcão, Júnior, Toninho Cerezo, Sócrates, Serginho Chulapa, Zico, Éder.
Um esquadrão tão cerebral e mágico que poderia ter saído de qualquer conto de Machado ou Twain, tamanha a capacidade de alquimia futebolística conduzida por pernas dotadas de imprevisibilidade e genialidade. Um maestro coadjuvante chamado Telê Santana. Taxado categoricamente de maldito após a Copa do Mundo e quase dez anos depois coroado como gênio da bola em dois campeonatos mundiais, conduzindo o São Paulo Futebol Clube.

Tanto disse Romeu sobre essa seleção que resolvi anos atrás resgatar sua memória através de fitas magnéticas ou vídeos internéticos. Descobri então um time que era mistura improvável à realidade equivocada que viveu o futebol brasileiro nas duas Copas anteriores (de 1978 e 1974). A transição dos fisiologismos sobre treinamento e força versus a magia do futebol primeira arte parecia estar resolvida naquele time. De lances de tirar o fôlego com jogadas encabeçadas por um gênio indie chamado Doutor Sócrates e orquestradas por reviravoltas imponderavelmente sensacionais dos pés de Zico e Falcão. Da força de fumaça negra de Éder, a perseverança de um escolhido Serginho acopanhados dos candidatos Cerezo e Junior.
Era como se quem assistisse estivesse presenciando uma nova era dentro das quatro linhas, com um esquadrão de escritores que usavam suas canetas para reescrever a história com os pés.


É nesse sentido que Lost se encaixa. Carlton Cuse e Damon Lindelof nos mostraram uma maneira de transcender a capacidade de contar uma história, onde da mesma maneira que uma jogada bem tramada por Sócrates e Zico, as imagens eram mágicas e poderosas. Retiravam o fôlego de pulmões pulsantes, em emoções durante semanas à fio. A magia acontecia bem diante de nossas retinas em cada tomada, história paralela ou fim de episódio, onde as perguntas eram maiores que as respostas e sempre uma sensação de o que é aquilo permanecia.
Como poderia ser possível uma história de naúfragos despertar sensações tão grandes e manter milhões de pessoas viciadas em jogos de realidade alternativa do mesmo jeito que paralisados diante de uma tela de computador esperando os episódios baixarem logo depois de serem transmitidos. Como entender uma seleção que fez a equação futebol arte versus a força se tornar obsoleta em cinco jogos magistrais, onde apenas a palavra magia poderia definir os textos poéticos escritos por pés verde amarelos.
A seleção de 82 e a série que terminou nesse domingo trouxeram-nos uma mensagem simples mais poderosa, de que é possível sim fazer com que a elevação da alma em patamares celestiais, seja conduzida de maneira diferente do convencional. Um toque de calcanhar em forma de clave de sol, com o mesmo poder de um close nervoso dentro do sorriso maquiavélico de Benjamin Linus. Dois substantivos tão diferentes, mas com o mesmo poder de adjetivar sentimentos.

Mas como em 82, o capítulo final da série trouxe uma sensação de desamor e ódio contra esses magos contemporâneos. A poesia se transformou em tristeza pelo sentimento amargo que a conclusão de Lost trouxe em seus minutos finais.
Paolo Rossi na Espanha sepultou a arte e magia de uma seleção fantástica, assim como Christian Sheppard fez desmoronar toda a crença de que Lost seria épica. Talvez as duplas consoantes não sejam apenas meras coincidências dentro dos nomes desses dois vilões. Duplas letras, duo de pessoas que transformaram em poucos segundos o sonho de um mundo cheio de mágica em pesadelo de purgatório em febre.

Mas a seleção canarinho e Lost jogam em espaços negativos. Onde a pintura não chega e a imaginação é a mãe e o pai de toda a matéria. Milhares de crianças se imaginavam craques de bola, com lances fantásticos como a meia bicicleta de Zico ou o canhão de prótons de Éder.
Milhões de pessoas passaram seis anos em discussões sobre teorias, jogos e imagens que não existiam. Torceram, riram e choraram por fictícios seres concretos e definitivamente foram transformadas am algo a mais do que simples reflexo de imagem televisiva.
No futebol nossos craques fizeram a elevação de almas brasileiras com suas pernas e toques, em Lost a história foi capaz de a cada semana, fazer com que o sorriso de sentir-se vivo valesse cada vez mais.
O terceiro gol da Itália jamais vai apagar a transcedência de alma de nossa seleção, do mesmo jeito que os três minutos finais de Lost nunca irão levar tudo o que a série conseguiu. Não fomos ludibriados pelo futebol arte, do mesmo jeito que não fomos enganados por Lost. Abrams, Cuse, Lindelof e Telê não são nossos executores, mas sim arquitetos matrixinianos de primeira grandeza. Fizeram durante muito tempo e ainda farão, milhões de pessoas se emocionarem e entenderem que o ser humano é capaz de fazer muito mais com duas pernas e duas mãos.
Mostraram que a arte de jogar bola e de escrever podem transformar simples toques e palavras em magia de sentimentos. Transformar substantivos tão etéreos em formas concretas de adjetivos cheios de alma é uma divindidade que apenas uma cadeia genética complexa pode fazer.
Seja isso dentro de uma cena ou em uma tabelinha maravilhosamente conduzida por dois toques.