Não é só o feriado que muitas vezes faz com que seus sentidos sejam perdidos dentro de uma linha de tempo dissimulada e contrátil. Os sons que fazem suas rezas pelas sacras caixas de som, muitas vezes trazem uma noção de esquecimento do momento onde você vive. Teletransporte cerebral por entre sinapses cavalares navaronescas.E uma banda que sempre foi uma outsider no mais completo sentido da palavra, pode remoldar essa sensação dentro de sua cabeça de descanso. E tudo começa no distante 2006....
A dupla de comparsas shoegazianos SU SATTON (vocais) e STAN HOWELLS (guitarras), resolveram colocar todas as idéias em uma banda que nascia dupla mas tornou-se um sexteto. O INSECT GUIDE veio de Leeds, mas o caminho não foi o semelhante ao traçado por outras bandas. A dupla tinha uma série de prioridades ao revés e acabaram antes de ter algum material gravado, assinando com uma gravadora. Famosa pelo ecletismo de contratações e manifestações de rebeldia ao modus operandi normal, um sopro vindo da 48 Crash lançou o disco de estréia chamado 6FT IN LOVE, que de cara fez com que muita gente descobrisse uma base sonora de alavancas poderosas com adornos explosivos. Não que existisse uma releitura de todas as imagens de duas décadas passadas, mas a acapachante parede de guitarras e bateria tão pesadas quanto concreto adamantinizado era confortavelmente genial.
E aí depois de três anos a banda volta com o lançamento do segundo disco, DARK DAYS & NIGHTS. Mudanças?
Nem um pouco, o som continua cavalgando puros sangues eletrificados nos anos 80, onde as rédeas do pós-punk amarram uma convergência de distorções que perturbam a ordem normal de seu cérebro. Imagine-se dentro de um sonho onde seu irmão troca a cor de pele camaleonicamente toda vez que a areia muda de direção pelo vento, dentro de uma bar onde Raul Cortez e Mariana Ximenes jogam xadrez em um I-Pad. No mesmo sonho você percebe que acordes poderosos enuviados em proporções ulisseanas, como uma onda de reverberação, invadem seus tímpanos e pulsam artérias em direção de um sublime beijo assassino.
Durante a audição do petardo do Insect Guide, existe um peso palpável e uma orda de bombas refinadas pelas viradas de bateria. O que pode ser visto na faixa título, assim como em THIS CITY outro exemplo de que por mais que não se mude a eletroquímica dos acordes, isso nunca vai trazer falta de criatividade. A sensação de novidade nesse disco todo, é muito bem incorporada por seus ventrículos.
O Insect Guide parece uma cópia bem arredondada de milhares de bandas, My Bloody Valentine, Curves, Autoloux, Galaxie 500, Joy Division, Elastica e outras milhares. Mas é necessário que se veja na verdade uma identidade em todo o som. Não é apenas cópia barata e remendada na cabeça de um cientista louco, que muda o corpo de seu experimento de acordo com os cadáveres encontrados. TAPE, um exemplo de lisergia descontrolada pela voz de Su, é uma montagem de notas vindas de lábios flamejantes com uma dose de sensações em preto e branco. E a banda não envereda em sons mais cerebrais apenas, existe um espaço para o pop rock devidamente convulsivo em faixas como INSIDER e DOWN FROM HERE. Quase uma afirmação de musa, mas com uma enorme quantidade de delineador preto. E mesmo nas faixas onde a sonoridade mais fácil parece ser a tônica, não se engane achando que o som não pode ser pesado muito menos visceral. DISCO TENDS tem uma linha de guitarras que andam por entre um fio de navalha doce e decapitador. Como se uma serra elétrica embalasse de afagos os membros prestes à serem retirados de um corpo inerte. Existe aí um grau de hipnose shoegaziana preciso e isso sim mostra que a banda evoluiu muito desde o primeiro disco.Muito vale conhecer uma mistura de sonoridade antiga sem uma tentativa de roupagem contemporânea chata. Capaz de demolir em contrações concatenadas, com uma urgência que apenas grandes massas de matéria eletrizada podem ter. FLOAT e WASTED, respectivamente a última e primeira faixas mostram bem isso.
Existe um retrocesso, afinal de contas o som do Insect Guide não aponta para um futuro. Seu norte é exatamente posicionado na realidade paralela dos anos 80, mas com uma modernidade espantosa. Talvez um dos discos mais bacanas do ano. Dark Days & Nights é um daqueles que com o tique taquear do tempo, a cada audição pode ter um frescor de lava importante para a manutenção de seu sistema nervoso central.