
Imagine-se andando pela rua em uma tarde qualquer, onde as folhas das arvores descrevem perfeitos arcos de parabólicas lisérgicas e o vento que transporta as cadeias genéticas de seus cabelos deslocados pela gravidade, mostrando que os raios de sol são capazes de colorirem sua pele inadvertidamente.
Imagine que esse mesmo vento te levasse ao encontro de um rapaz magro como um fio de meia calça, com as unhas sujas e comidas por reverberação dental nervosa. Uma figura que provavelmente não faria parte de sua cadeia de amigos e mais provável seria um daqueles caras que você encontra pela rua e tem a ligeira impressão de que são completamente deslocados da realidade. Se esse encontro acontecer então durante a madrugada, a sua certeza de que está diante de um freak noturno é maior ainda.
Agora atenha-se a seguinte frase que sairia da boca desse ser humanamente inviável:
"Oi meu nome é Daniel Johnston e essa é minha fita How Are You? Eu gravei-a enquanto estava tendo um colapso nervoso"

Como um pintor de azulejos da rua Augusta, não seria fácil associar essa frase à uma demência gigantesca. Mas a audição dessa fita, por quem se deixava acessar por Johnston, mostrava algo muito mais seminal do que Bob Dylan e lugares onde haviam os Beatles elevados à uma potência decafônica e sinistra que era absurdamente hipnótica.
Assim começava a vida artística de um dos gênios da música atual. O trabalho de Daniel Johnston é tão importante para a música quanto o de Arnaldo Batista, e do mesmo jeito que o brasileiro, esse americano é um outsider. Viveu sempre à margem da sociedade, muito por conta de todos seus problemas mentais. Daniel era antes de tudo, um paciente psquiátrico de mão cheia pois seu transtorno bipolar era muito grave. Tanto assim que apesar de sua carreira musical começar a decolar depois da mudança da Califórnia (terra natal) para Austin, assim como pela insistência de entregar fitas cassetes de mão em mão (reza a lenda que se uma pessoa pedia a fita do disco How Are You para Daniel ele não fazia cópias, mas regrava todas as canções), o compositor teve que no meio da produção do disco 1990, ser internado em um hospital psiquiátrico. Isso mesmo depois de ter sido uma das melhores atrações do festival SXSW.
Mas a internação pesada de Johnston apenas serviu para pessoas como Kurt Cobain (que vivia andando com uma camiseta de How Are You), Sparklerhorse, Dead Cab For Cutie, Flaming Lips e uma legião de outros músicos começarem a entender que a simplicidade das letras e melodias escondiam um acervo de informações que iam do jazz ao noise passando pela psicodelia em apenas uma canção. Uma alquimia que permitia as canções não se tornarem apenas aglomerados de gêneros e estilos, mas sim uma sinfonia bem concatenada de ritmos.
Uma canção como por exemplo ROCK THIS TOWN, tem em seis minutos noções básicas de shoegaze com uma levada grunge e pós punk, tudo isso embalado por uma beatlemania visceral. Imagina então um disco todo assim. É no mínimo genial...
Os anos de medicamentos pesados e drogas para o controle da doença, fizeram de Daniel uma pessoa marcada fisiologicamente pelo inconsciente. Em 2005 o documentário THE DEVIL AND DANIEL JOHNSTON, mostrou tudo isso e apesar da luta diária pelo controle de sua mente, a música e pintura liberavam todas as amarras neurológicas que insistem até hoje em querer mante-lo no inferno. Como se a demência ficasse inversamente proporcional à genialidade.
Mas o culto ao artista é cada vez mais crescente e uma prova disso é o gigantesco relançamento de sua obra que chega às lojas esse dia 22 de junho.
DANIEL JOHNSTON: THE EARLY YEARS faz um apanhado de todo o começo de carreira de Johnston, naquela época onde ele regravava as fitas. Esse registro contém faixas inéditas compiladas em dois cds chamados de Lost Recordings, assim como os primeiros discos: Songs of Pain, Don't Be Scared, The What of Whom e More Songs of Pain.
Todas essas jóias estarão embaladas em um livreto com o texto de Everett True e os desenhos de Daniel. É imperdível e essencial, além de ficar a dica para quem possa interessar que o Arnaldo Batista já merece uma caixa dessas.
Saber que a mente humana pode redescobrir o caminho da grandeza através de vias que por muitas vezes podem fazer o ser humano perder a lógica é um reconforto fisiológico. Ainda mais quando a genialidade aflora em seres iluminados como Daniel Johsnton. Aproveite e ouça o disco novo dele, BEAM ME UP!, que é uma aula de como formatar gêneros dentro de canções com menos de cinco minutos.
Mas o culto ao artista é cada vez mais crescente e uma prova disso é o gigantesco relançamento de sua obra que chega às lojas esse dia 22 de junho.
DANIEL JOHNSTON: THE EARLY YEARS faz um apanhado de todo o começo de carreira de Johnston, naquela época onde ele regravava as fitas. Esse registro contém faixas inéditas compiladas em dois cds chamados de Lost Recordings, assim como os primeiros discos: Songs of Pain, Don't Be Scared, The What of Whom e More Songs of Pain.
Todas essas jóias estarão embaladas em um livreto com o texto de Everett True e os desenhos de Daniel. É imperdível e essencial, além de ficar a dica para quem possa interessar que o Arnaldo Batista já merece uma caixa dessas.
Saber que a mente humana pode redescobrir o caminho da grandeza através de vias que por muitas vezes podem fazer o ser humano perder a lógica é um reconforto fisiológico. Ainda mais quando a genialidade aflora em seres iluminados como Daniel Johsnton. Aproveite e ouça o disco novo dele, BEAM ME UP!, que é uma aula de como formatar gêneros dentro de canções com menos de cinco minutos.