Mesmo sendo obviamente extremamente chato adaptar-se ao esquema de digitais da casa. Não pelo fato de algum movimento fino de coordenação tornar-se difícil, mas as máquinas de captação das digitais muitas vezes pregavam peças, ou não funcionavam. Em um dia como o de ontem com menos pessoas dentro da casa, não houve maiores problemas, mas se a lotação passasse da conta os ânimos não seriam os mesmos.
Logo na entrada esse ar de descompromisso ajudava, sem a aglomeração na porta foi possível encontrar Emir Ruivo (Aurélio e Seus Cometas) conversando com as pessoas e deixando claro algo que mais tarde tornaria-se verbo dentro do pequeno palco da casa. Mas antes do nascimento de uma banda, haviam dois grupos que apesar de separados por milhagens cósmicas de claves de sol iriam abrir a concretagem sonora.
CAFÉ, CIGARROS E MATERIAIS ELÉTRICOS já tem tempo de estrada suficiente para saber como deixar a platéia em um clima de começo de festa. A banda com seu som audaciosamente pop rock tratou de fazer as honras com riffs grudentos e canções que se não mostraram-se épicas, passaram longe do adjetivo insônes. Sons maduros, como se uma banda de rock inglês dos anos 60 ainda fosse capaz de fazer tons onde a leveza e simpatia deixassem tudo mais sonoramente ambientado. O destaque ficou para a canção Deixa Entrar (também gravada por Aurélio) que mostrou uma maturidade que cheira à desodorante adolescente. Belo começo de noite....
A banda luta contra alguns dos clichês mais pesados dentro do rock, pois possui dois guitarristas cabeludos empunhando duas Gibson SG, um baixista com cara de mal e acordes de britadeira, seu vocalista equilibrando-se entre o papel de navalha vocal e galã hardcore e um baterista que tem a técnica equivalente a força. Mas o que pode parecer clichê se dissipa quando as notas revoltas espalham-se pelo ar.
A banda além de contar com músicos habilidosos, possui um peso atordoante. Arrebatadora de almas e arrebentadora de tímpanos, como se a missão maior das canções fosse ceifar cérebros e destruir qualquer tentativa de mesmice dentro do rock. É muito bom que a banda continue a trilhar esse caminho independente, pois cair nas mãos de qualquer produtor da moda, pode ser um passo perigoso. O Pain In The Brain possui talento de sobra para atrair atenção de oportunistas musicais, daqueles que fazem rapazes com franjas e acordes com distorção moderada tornarem-se a escala mais ruim do rock nacional. Pelo bem da banda e de nós ouvintes, seria muito bom que eles se mantivessem no caminho da distorção apenas de acordes.
E a primeira coisa que nos dá a impressão de que estamos diante do nascimento de uma grande banda é o carisma do trio. Emir brinca e conversa com o público, logo antes do início da primeira canção desce do palco e convida todo mundo a se aproximar da banda. E faz isso de mesa em mesa puxando as pessoas, tirando o inerte conforto dos transeuntes. O que pode ser constrangedor para alguns, na verdade deixa claro uma coisa:
O público (não só o paulistano) normalmente tem essa aura blasé européia injustificável dentro de concertos. Não sou apenas eu, nem ocorreu uma única vez, testemunhar a platéia agindo como se estivesse em uma reunião de amigos e conversando mais alto que o som da banda. E o problema não era o volume do maquinário.
Então essa atitude de Emir é um pontapé nesse blasesismo elítico e inerte que a audiência possui. Afinal de contas um show de rock é isso, contato. Uma banda destilando notas sobre a névoa claustrofóbica de uma luz, canções que adentram nossas narinas e transpassam cada célula viva dentro do nosso corpo. Sentir a pulsação da música em neurônios trôpegos é uma missão que requer atenção e entrega.
Além desse carisma todo, a banda possui a energia exata e explosiva na medida certa. Usam o palco muito bem e a destilo dos dois discos durante o set list mostra o entrosamento do trio. A pequena platéia dança, canta e se entrega. Emir primeiro pegou pela mão e cuidou para que as pessoas estivessem prontas, agora era apenas uma questão de arrastar os pés pela pista.
A inevitável piada do "toca Raul!!!", surge. Isso apenas faz com que a banda mostre mais uma vez que sabe como entreter, com a cover cantada por Mogli Kid, o baterista. Existe um clima de festa que é estampado no baixo de Pedro Nogueira, com precisão e harmonia exatas. Engraçado como muitas vezes o tempero de Aurélio e Seus Cometas, lembra bandas como por exemplo Ultraje à Rigor. Não pelo som, afinal de contas o rock modabillie com tonalidades mais funk garageiras da banda, passa longe do escracho do conjunto liderado por Roger. Mas a atitude cheia de ironia boa e velocidade anárquica aproximam os dois.
O show cada vez mais animado e mais intimista (devido a proximidade artista-público), mostrou com é ver o nascimento de uma grande banda. Existe sim essa aura no show de Aurélio e Seus Cometas, muito relacionada ao fato de que quando junta-se diversão, carisma e competência nos acordes forma-se uma combinação matadora de marasmo e maniqueísmos baratos. A pureza e alegria dentro do som da banda é além de contagiante uma amostra de que estamos diante de um dos nomes mais bacanas do cenário atual.
Fim de festa de aniversário em alto grau de diversão, mesmo com os shows pontualmente muito atrasados....