
Hoje ao passar por uma escola perto de uma escola, algo além das guias sujas e gotejantes calçadas chamou minha atenção.
Três meninos vestindo blusas com gorros enconstados em uma parede petrificada de chapiscos cimentados em um cinza mórbido, onde podia-se ver a crescente estalactite de fungos que percorria as entranhas do cimento, aumentando seus pseudópodes frios. No rosto desses três meninos uma face dura e gélida, os olhares perdidos em um horizonte que terminava na parede logo mais à frente na esquina. Uma sombra de seriedade incompatível com a idade onde brincar deveria ser uma constante e sorrisos deveriam nascer involuntários. Por segundos à fio enquanto não havia trânsito de carros fluentes em mais um congestionamento da cidade, olhei essa depressão enrustida em pré adolescência. Foi um relance de olhares, mas a visão de uma tristeza tão escancarada, gela a espinha dos mais sensíveis.
A grande questão que levanta-se é, o porque delas estarem desse jeito. Como uma gangue perdida e desorientada sem um líder com o mínimo de alma e coração. Peregrinos dentro de um país sem comando, onde a cada segundo de vida cotidiana, uma batalha interna acontece. A de não entregar-se dentro desse marasmo infernal cerebral. Talvez o rosto marcado por profundas escaras não cicatrizadas de amargura desses três meninos, tem mais relação com o descaso que se trata a questão da banalização do ser humano.
Essa mesma banalização de direita que acontece em cada canto das nossas vidas. E eu digo de direita, pois é nefasto saber que estamos à margem de televisões e figuras públicas imbecis. Isso é como alimentar uma ditadura que emprega a burrice como arma de destruição em massa. E não se enganem, pois mais do que alarmismo barato essas condições existem e são sim perigosas.
Reportagens sobre comportamento juvenil diante da chamada twittcam, onde o foco é o monstro da internet e não o comportamento dos pais diante da educação dos filhos, é uma maneira de controle em relação ao analfabetismo de alma que passa o povo. Do mesmo jeito que culpar um filme como A Centopéia Humana pelos absurdos que são cometidos por pessoas desequilibradas mentalmente. Se existe uma pessoa que é capaz de dissecar um rosto inteiro de jovens e deixar seus corpos jogados, não é por que ela achou a idéia de juntar intestinos em pessoas ligadas como siameses, produzidos por cirurgias macabras interessante. A natureza humana sempre revela-se a mais mórbida de todas. Independente do gênero....
Ninguém ainda é capaz de perceber que esse tipo de controvérsia vazia, apenas incita o aumento do marasmo mental, não faz as pessoas terem vontade de transcender a mera genética humana e conceber coisas além do mesmo. Não existe uma educação, seja ela na escola ou em casa, que apoie o milagre da capacidade de construir, mas sim apenas uma ferramenta de como sobreviver dentro de uma selva. Mas na escala natural da evolução, nós seres humanos ainda não ganhamos das bactérias, então a questão não é a sobrevivência, sim a adaptação.
É mais fácil culpar a internet, dar espaço para que apareça um sistema de controle de uma coisa que é independente e livre. Culpa-se o sistema e não a maneira como as peças são postas.
É perigoso e arriscado viver nesse estado semi viciado de vigilância. Querem trocar o meio e não o exemplo. Mas se uma revisão da história for feita, logo chegaremos a conclusão que o ser humano tem essa tendência de destruir tudo aquilo que não entende. Foi assim com a cultura negra, contra os homossexuais, judeus e nordestinos. África, São Francisco e São Paulo são palcos onde tudo isso acontece e aconteceu. Agora culpa-se a twittcam. Eu não uso essa ferramenta, mas nem por isso acho que ela seja nefasta.
Fala-se tanto de exemplos construtivos e idéias sustentáveis, mas quem vai sustentar a raça humana???
Que exemplo se espera se nem ao menos dentro de casa é possível achar esses exemplos. Opta-se por clamores populares de fácil acesso às pessoas. Catarses embaladas por trilhas sonoras moderninhas que desabam em demagogia podre e suja. Condena-se clínicas de aborto, mas não se discute a legalização, promove-se o linchamento das drogas e deixa-se de lado o debate sobre a oficialização delas como substâncias que podem ser consumidas nos mesmos moldes do álcool ou cigarro. Não existe a conversa, mas sim a frase: "Ahh isso é amoral e deve ser execrado".
O que é amoral meus queridos leitores ovelhas silenciosas, é a falta de direção que estamos vivendo. E aí não é de se espantar que uma banda de rock quando confrontada sobre quem são os músicos que estão tocando as canções que eles ouvem (em um teste brincadeira realizado por um portal de informações), não sabem quem é uma banda tão importante para o som distorcido que eles pretensamente tocam. E ainda por cima confundem os trabalhos de Lobão com Duran Duran e chamam o Hüsker Dü de banda pai do emocore. Uma criança que fica nua em frente uma câmera para milhares de outras assistirem é tão ignorante quanto eles.
Mas o pior é saber que na posição de "grandes estrelas" do rock nacional, o papel deles é tão obsoleto cerebralmente. Que o fato de dizerem abertamente que conhecem mais música sertaneja de qualidade ruim porque assistem aos shows, é comparável com pai que hipocritamente acha que não precisa educar seus filhos para usarem de maneira mais digna o espaço virtual. Não cria-se uma noção de transcedência e melhora da condição humana, escolhe-se o mais fácil, o mais inerte e acéfalo.
Então desse jeito finalmente eu entendo o porque do rosto daqueles três meninos estarem tão gélidos e petrificadamente tristes. Talvez dentro de suas almas já consta o fato de que não temos mais modelos nem na música muito menos dentro de casa.