
Moro em um bairro comum da cidade de São Paulo. Não existe dentro dele uma história com bagagem literária suficiente para que seja relembrado em alguma data que consta como feriado no calendário.
Não há uma aura boêmia como a Bela Vista, ou a névoa européia capitalista de Higienópolis. Por muitos aspectos não tem nem a metade da aura brokllyniana da Barra Funda, nem ao menos as imaginéticas noções de sonho asfáltico da Liberdade. Enfim, é um bairro comum.
Mas existe uma dualidade lascerante por entre as ruas de ladeira que a localização de minha morada insiste em esconder, como em uma daquelas cenas onde a sedutora heroína por um decote afroditiano esconde caminhos perigosamente deliciosos. Separadas por alguns quilômetros de asfalto, yin e yang comunitário formam dois contrastes evidentes.
De um lado os grandes prédios e suas sacadas perfiladas lateralmente uma após a outra, revelando a fachada dos bens posiocionados financeiramente. Ruas arborizadas cheias de aromas e restos de monetariedade. Carros do ano, roupas que reluzem o mais caro alvejante. Padarias onde as pessoas parecem ter saído de filmes holywoodianos, tamanha a proporção de óculos escuros. Por entre unhas esmaltadas em cores de lisergia controlada e sorrisos de sacarina, as pessoas quase desfilam um bolshoiniano ballet.
Do outro lado (logo ali) de uma rua asfaltada, as casas de madeira amontoadas pelas arestas de restos de ar que muitas vezes falta, por causa da quantidade de partículas onde a sujeira compete por um espaço do mesmo jeito que as pessoas. Animais ao relento por entre falta de luz elétrica. Barracos que transbordam uma condição humana que muitas vezes brota em nossos olhos uma imagem que é apenas usada para ilustrar tablóides populares. Moradias que respiram constantes ameaças de inundações em quarteirões que perigosamente atolam em poça mórbida, a cada água de março, abril, maio, junho, julho.....
Existe sim uma divisão de guetos dentro do lugar onde moro. Tão clara e constante que muitas vezes ao final dos dias, o sol esconde-se primeiro de um dos lados da avenida. Talvez como se quisesse mostrar ao outro lado da moeda que existe algo além da linha do horizonte. Sendo ou não um lugar bonito, para se viver em paz.
Eu como ser particiante da sociedade, convivo bem nos dois lados. Sinto-me bem ao comer um beirute na padaria do pretenso Sunset Boulevard, como também quando um semi menino com uma automática na mão me aborda com o bordão : "Cê vai querê o que???"
Não existe divisão. Tanto a menina que me sorri na padaria chique, quanto o menino que me ameaça, na viela escura escondida pelas grades de uma quadra onde crianças jogam bolas de meia, são parte do mesmo lugar. Apenas uma avenida separa essas duas pessoas.
Indefinível, indefectível e insegura avenida. Quando entende-se a mecânica fisiológica desses dois mundos, vive-se em estado de apatia social mórbida. Controlado pela necessidade de pagar suas contas e dopar-se da realidade. Simples, sem complicações e caleidoscópicamente alterado cerebralmente.
Sinto falta dessa mobilidade, de poder transitar em todos os lugares dentro da música. Tempos já se vão onde algum mago das claves de sol, consiga andar bem pelas nuances cada vez mais afastadas umas das outras dessa realidade matrixiniana. Quando um artista é popular, na maioria das vezes os adjetivos bregas e culturalmente inóspito são presentes. Do mesmo jeito que quando apenas a classe dominante finaceiramente gosta de algo, relaciona-se com intelectualidade demais e humanidade de menos.
João Gilberto é genial, mas é intelectualóide e chato demais. Calypso é genial, mas é brega e sem poder intelectual algum.
Como na vida, a elite fornece o intelecto, os menos favorecidos oferecem as drogas....
Existe sim uma divisão de guetos dentro do lugar onde moro. Tão clara e constante que muitas vezes ao final dos dias, o sol esconde-se primeiro de um dos lados da avenida. Talvez como se quisesse mostrar ao outro lado da moeda que existe algo além da linha do horizonte. Sendo ou não um lugar bonito, para se viver em paz.
Eu como ser particiante da sociedade, convivo bem nos dois lados. Sinto-me bem ao comer um beirute na padaria do pretenso Sunset Boulevard, como também quando um semi menino com uma automática na mão me aborda com o bordão : "Cê vai querê o que???"
Não existe divisão. Tanto a menina que me sorri na padaria chique, quanto o menino que me ameaça, na viela escura escondida pelas grades de uma quadra onde crianças jogam bolas de meia, são parte do mesmo lugar. Apenas uma avenida separa essas duas pessoas.
Indefinível, indefectível e insegura avenida. Quando entende-se a mecânica fisiológica desses dois mundos, vive-se em estado de apatia social mórbida. Controlado pela necessidade de pagar suas contas e dopar-se da realidade. Simples, sem complicações e caleidoscópicamente alterado cerebralmente.
Sinto falta dessa mobilidade, de poder transitar em todos os lugares dentro da música. Tempos já se vão onde algum mago das claves de sol, consiga andar bem pelas nuances cada vez mais afastadas umas das outras dessa realidade matrixiniana. Quando um artista é popular, na maioria das vezes os adjetivos bregas e culturalmente inóspito são presentes. Do mesmo jeito que quando apenas a classe dominante finaceiramente gosta de algo, relaciona-se com intelectualidade demais e humanidade de menos.
João Gilberto é genial, mas é intelectualóide e chato demais. Calypso é genial, mas é brega e sem poder intelectual algum.
Como na vida, a elite fornece o intelecto, os menos favorecidos oferecem as drogas....
O funk tentou essa aproximação. Os refrões sobre o quanto "o som de preto e favelado não deixava ninguém ficar parado", eram alentos em formas de balões de hq que buscavam a alquimia de mundos. MV Bill também tentou, mas ao entrar em um mundo de lojas chiques para acordar as mentes de um transe lúdico ludoviconiano, esqueceu de perguntar o nível de honestidade dos donos do estabelecimento. Talvez a empresa de telefones seja um melhor lugar para contar sua história.
Mas aquele artista, como Raul Seixas, que transita bem entre as reuniões dos bem nascidos e a festas dominicais amadeiradas do subúrbio ainda não voltou. Não existe uma identificação desses dois mundos através da arte que teoricamente seria uma aproximadora de pessoas. Se a função do rock é salvar o mundo, não será ainda nessa era braziliana que isso poderá acontecer.
Somos reféns de caricaturas de rebeldia embabecidas em franjas e calças coloridas da classe média que não trazem alento, mas sim em alguns casos enfurecem mais ainda a disputa entre classes e idades. Nem os centros de convergência em forma de bares são capazes de mostrar artistas com esse apelo. A divisão entre sons da elite bem nascida e as populares atrações dominicais ainda é tão grande quanto a avenida próxima à minha casa que separa os dois mundos.
Mas talvez nem seja essa a função do rock. Na verdade não adianta nada chorar em cima do mingau musical derramado em nossos ouvidos médios. Não interessa dar um ar de intelectualidade popularesca ao som, pois no final tudo é apenas entretenimento. Você é apenas outro tijolo na parede...
Não é digno de figurar entre os imortais, afinal de contas é apenas rock and roll. E mesmo todos nós gostando dos acordes, não existe mágica catedrática de revoluções silenciosas por união dos dois mundos. É apenas mais uma canção, do mesmo jeito que apenas uma linha de cocaína extendida em algum camarim. Dose de separação do subconsciente rápida....
Mas aquele artista, como Raul Seixas, que transita bem entre as reuniões dos bem nascidos e a festas dominicais amadeiradas do subúrbio ainda não voltou. Não existe uma identificação desses dois mundos através da arte que teoricamente seria uma aproximadora de pessoas. Se a função do rock é salvar o mundo, não será ainda nessa era braziliana que isso poderá acontecer.
Somos reféns de caricaturas de rebeldia embabecidas em franjas e calças coloridas da classe média que não trazem alento, mas sim em alguns casos enfurecem mais ainda a disputa entre classes e idades. Nem os centros de convergência em forma de bares são capazes de mostrar artistas com esse apelo. A divisão entre sons da elite bem nascida e as populares atrações dominicais ainda é tão grande quanto a avenida próxima à minha casa que separa os dois mundos.
Mas talvez nem seja essa a função do rock. Na verdade não adianta nada chorar em cima do mingau musical derramado em nossos ouvidos médios. Não interessa dar um ar de intelectualidade popularesca ao som, pois no final tudo é apenas entretenimento. Você é apenas outro tijolo na parede...
Não é digno de figurar entre os imortais, afinal de contas é apenas rock and roll. E mesmo todos nós gostando dos acordes, não existe mágica catedrática de revoluções silenciosas por união dos dois mundos. É apenas mais uma canção, do mesmo jeito que apenas uma linha de cocaína extendida em algum camarim. Dose de separação do subconsciente rápida....