29 de agosto de 2010

GD 56 TRILHOS ALTERNATIVOS.....

Recostado em uma parede branca lateralmente disposta no corredor de passagem na Livraria da Esquina, o tragrar de um cigarro que apenas mantinha seu terço final intacto, formava pelo papel que queimava em cada inspiração pequenas cadeias helicoidais de brasa. A fumaça exalada descrevia círculos que envolviam as cores bem definidas das paredes da casa, onde sinais de concreto alojados nos cantos e grafites formavam uma geografia desenhada instintiva.

A estante ao lado esquerdo do longo espaço que define a anatomia da Livraria, milimetricamente coberta pelo misto de espaços vazios e livros, parecia aguardar a chegada da fumaça que a cada nova exalada tomava para si pedaços das cores no lugar, fazendo com que a visão fosse desfocada apenas para cenas em branco e preto. De repente o final do cigarro marca a transformação do ambiente em uma forma bicromática. Não haviam mais as cores de uma visão cotidiana. Apenas dentro das retinas, cenas postadas em preto e branco.

Uma leve aura de jazz invade os tímpanos durante a passagem de som da banda de Lê Almeida. Distante de toda a distorção impressa nas notas fenderianas, é possível enxergar os ternos bem cortados e os longos vestidos negros e seus decotes protegidos por colares. Por mais que a casa ainda vazia absorvesse toda a canção, era possível sentir uma nostalgia de anos passados. Em um dos cantos do bar a sombra de um chapéu bem cortado e uma arma no coldre colado no tórax, me mostravam que era minha obrigação ajeitar meu colete e gravata. Fazer rodar a última pedra de gelo sublimado do uísque e sentir o amargo da penumbra que acomodava corpos e almas.


Aos poucos com o acender das luzes, o preto e branco mudam para cores cada vez mais conhecidas. Estamos então acomadados em cadeiras, onde a platéia pode ou não parecer como outra qualquer. Rostos conhecidos de semanas anteriores e dias futuros. Uma menina descrevia linhas entre o palco e o público. Ajeitando os últimos detalhes acompanhada sempre de perto por um fiel escudeiro, atento e silencioso. Do mesmo jeito que eu, ele recosta-se sob o muro branco e acende seu cigarro. Aguarda pacientemente a hora em que tudo voltará à ser bicromático.

As luzes ainda acesas marcam a entrada de Stephanie Toth ao palco. Acompanhado por seu baterista e programador Eduardo Ramos. Necessário lembrar para as pessoas que ainda não ouviram a suave e direta voz de Stephanie, que estamos diante de uma cantora que ano passado esteve em um dos maiores festivais do planeta (o South by Southwest em Austin). E não apenas para assistir ao show de Daniel Johnston, mas para apresentar-se. Aliás é o Lúcio Ribeiro naquela foto????

Os acordes de Stephanie invariavelmente promovem a sensação de que estamos dentro de um mundo extremamente particular. A calmaria das notas fundem-se com acordes ironicamente lisérgicos. Minimalismos que não mostram um distanciamento, mas sim uma veia trovadora em Stephanie. Como se fosse possível presenciar aquelas apresentações nos anos 70 onde o artista subia ao palco e recitava suas composições seminalmente punks. A artéria folk parece ter sido amalgamada com um metalizado peso de alma nas composições e isto não só muda o som, mas também transforma a aura da Livraria. Enquanto isso as cores outroras em preto e branco começam a ganhar um peso maior.


As constantes presenças de Teenage Funclub, no set list dos djs da casa, já transmitiam a sensação e a espera pela banda PALE SUNDAY. O quarteto acompanhado da platéia, já em maior número dentro da casa, destila riffs com uma densidade amarrada em todos os aspectos lo-fi possíveis. Mas não pode-se pensar que apenas existem acordes pré concebidos, cabe dentro do som da banda uma observação.
Existem definitivamente dentro do Brasil duas linhas por onde corre o rock. Uma delas é a rota das bandas que aparecem em canais televisivos, de vocalistas galãs e de calças coloridas. Um lugar onde invarialvelmente o gênero morre a cada nota de laquê amontoado em franjas milimetricamente ensaiadas por produtores de pretenso peso.


A outra linha é a que correu paralela aos trilhos do trem ao lado da Livraria. Uma raiz seminal onde o rock mostra-se em sua mais íntima pele. Longe dos holofotes midiáticos e dentro de cada pessoa da platéia. Os aplausos muito mais do que aceitação ao som, mostram que sim existe dentro de todos uma vontade de que finalmente esse verdadeiro rock apareça cada vez mais. E se depender da força mostrada pelas bandas dessa sexta feira, estamos com a revolução pronta.

E isso fica cada vez mais latente quando LÊ ALMEIDA e sua banda sobem ao palco. As distorções sônicas e cruas em cada canção colocam nossos ventrículos cada vez mais imersos em um clima onde as brasas de cigarro tornam-se catalisadoras de formações insandecidas. Nota após nota o som toma conta de cada aresta cimentada e os livros parecem deslocar-se em cada pedaço de estante, que nesse momento estira seus braços amadeirados por todos os presentes. A fúria visceral e o som apenas completam distorções de cores que hipnotizam a fumaça ainda pairando por entre as cadeiras estáticas.

Nessa sexta, a Livraria da Esquina presenciou que existe uma vida longa e poderosa longe de todo o hypismo que ainda paira dentro do rock atualmente. Enquanto existirem bandas e cantoras capazes de manter essa crueza genuína em cada célula viva, a cena independente em preto e branco ainda será muito mais caleidoscópica do que qualquer combinação de cores enfiadas goela abaixo por canais outrora musicais.....