A questão toda nesses tempos onde a tal era do grunhido, segundo Saramago, anda instalando-se é a seguinte:Como diferenciar o que é bacana ou ruim e ao mesmo tempo não perder-se nesse mar de hype que todo o santo dia ancora em nossos HDs. É difícil gostar de uma banda que ninguém ou poucas pessoas ouviram, sem cair na armadilha fácil de tornar-se mais uma pessoa cheia de maneirismo atômicos fugázicos. E ao mesmo tempo quando ouve-se algo muito antigo, você torna-se apenas mais um pedal em algum De Lorean em 1985 (de preferência outubro, dia 25).
Por isso muitas vezes eu gosto dos estranhismos à qualquer outra coisa. O absurdo de uma pessoa vestida de meia calça rasgada, por cima de uma cueca velha com saltos altos que pertenciam à sua mãe. Alguém que acima da jaqueta surrada e a garrafa de cerveja que despenca inadvertidamente goela abaixo, use uma mácara de coelho. Anárquico roedor de pretensas entidades cheias de modinha. E isso infelizmente você acaba encontrando, apenas quando esbarra em alguma cenoura lisérgica deixada pelo caminho.
Por isso existe uma cena, que acontece em um meridiano distante do que é atual ou modal. Um paralelo situado entre o triângulo das bermudas no absurdo. Contendo bandas que transparecem uma podridão de sons e notas, que muitas vezes parecem inaudíveis. Restos e farpas atiradas dentro de cada retina que esfacela uma tentativa de olhar apenas o imediato. Talvez por isso o som feito por Justin Champlin, ou se você quiser pode chama-lo de NOBUNNY, seja tão despretenciosamente necessário.
Desde a gravação do disco LOVE VISIONS (2008 e lançado em 2009) feito em sua casa, o músico apresenta-se dessa forma. Fardado de absurdo e jogando para dentro do palco uma sandice necessária para manter qualquer mente longe das patologias da moda. O ato de desconstrução que acompanha o músico no palco (Justin fica semi nu em quase todos os shows ou apenas tocando de cueca velha e salto alto), mostra que a intenção não é chocar. Existe uma leve irônia do tipo, "olha aqui vocês, criadores e adoradores de tendências, já que todo mundo quer o novo hype, vamos cria-lo de lixo suburbano". Isso não é novidade, mas é necessário....Nobunny não está sozinho nessa empreitada alucinada, bandas como Mosquito Bandito, The Yolkes, Menthol, Army of Garbage e milhares de outras formam uma liga da justiça às avessas. Do mesmo modo que sexta passada na Livraria da Esquina, a melhor cena é aquela que não se vê. O que foi retirado do filme, antes do blockbuster nascer acéfalo.
E FIRST BLOOD é assim. Um caldeirão de influências sujas e rasgadamente lado B, permeadas de uma garageirice e anarquia primordialmente sônicas. Como se fosse possível misturar Grease com Cramps, ou Ramones e Beach Boys. Não que todos eles estejam distantes um dos outros. Mas essa mistura faz com que no adiantar das tabelas, Nobunny transforme os Arctic Monkeys em crianças mimadas.
E tudo é muito rápido. De AIN'T IT A SHAME até I WAS ON (THE BOZO SHOW) são exatos 24 minutos. Nada mais, mas não é preciso nenhuma nota adicional. O segundo disco do coelho psicótico tem a medida exata de guitarras e distorção ensaboada em um elvismo incoerente.
Já na primeira faixa, a calmaria de uma baladinha quase do wop, mostra a entrada por um mundo onde a diversão sem garantia de volta começa. DO THE (FUCK YOURSELF) vem com mais velocidade e uma desafinação quase proposital, mas de não deixar ninguém parado. BLOW DUMB ecoa Credence em todas as saídas, menos na letra cada vez mais lux interioriana. GONE FOR GOOD tem uma veia punk que pode confundir com bandas mais novas como The Hives, mas a semelhança é por que tanto o Nobunny quanto os Hives possuem as mesmas influências. Uma garagem suja e cheia de cerveja escorrendo pelos porões. Como em uma parede úmida onde fosse permitido penetrações desavisadas em lindas ninfas drogadas, a canção possui a velocidade completa.
Gone For Good
PRETTY PLEASE ME (que marca a metade do disco e seus quase doze minutos), é uma das mais fanfarrônicas canções de 2010. Cabaret brega de beira de estrada suja, acompanhado de um cigarro barato que dissolve a cinza por entre o mofo de um colchão de molas. O blues de BREATH transforma esse melado em zinabre lisérgico, com uma desavergonhada levada de meretrício cândido.
Tanto LIVE IT UP como MOTORHEAD WITH ME, possuem a veia do iê iê iê ramônico na medida certa. Sem enrolações desnecessárias e diretas no ponto.A segunda inclusive, uma das melhores do disco. E se o exagero é permitido, uma das mais bacanas músicas desse ano. Com direito a palminhas e um riff incontrolavelmente dançante. Em tempos onde tudo não passa de fachada de moda, duas músicas como essas são mais do necessárias.
Motorhead With Me
E a velocidade insandecida por letras cada vez mais cenozóicas continua em NEVER BEEN KISSED, onde um piano com sombras de Jerry Lee Lewis invade riffs de três acordes. Tudo muito sujo e sem a mínima vergonha. Não é preciso que o rock seja decafônico, ele precisa ser divertido. Isso é lascerante nesse disco e PRETTY LITLLE TROUBLE é exemplo vivo disso tudo. Impossível não mexer pelo menos o pé na direção do chão, com a mistura de surf music que encaixaria em qualquer episódio de desenho animado escatológico. A irônia de menestrel em relação ao que acontece na cena atual é uma das virtudes desse disco.
Never Been Kissed
E tudo acaba no melhor estilo caleidoscópico beckiano com I WAS (ON THE BOZO SHOW). Sim todas as canções são citações e regurgitações de sons que já existiam muito antes mesmo de Justin ter nascido. Mas usar influências para construir uma saraivada de canções, que descem pelos seus túbulos auditivos e grudam em sua cabeça por um mínimo de tempo necessário para determinar uma mudança de humor, são primordiais.
Pode-se até criticar o músico por não reinventar a roda ou por não ser um messias musical, mas o que seria do rock sem essa molecagem fagocitária de bons sons exilados apenas na memória de velhas discotecagens.......