
A noite de sexta feira era caótica. Véspera de feriado prolongado em São Paulo pode ser um alento aos corações maquinários da metrópole, mas nesses últimos tempos acabou virando sinônimo amargo de histeria coletiva de trânsito, ou qualquer patologia moderna que não existia nos manuais vitologianos da década de 20.
Talvez isso explique a confusão de sentimentos revelados entre cantos de olhares. Mostrando com exatidão, a lógica das muitas faces escondidas de cada pessoa, refletida na imagem através dos vidros nos carros. O que me dá a impressão de saber quem sou eu...
Mas tantos assim caleidoscopicamente situados em apenas um corpo, somam sombras de uma alma sem dono, sem nenhuma verdade. Minha única afirmativa cotidiana são as mentiras desse muitos, que perdem-se em várias afirmações únicas de todos que habitam em mim. Assim cada um conta uma profunda fantasia, acalmada por tantas outras vidas reais.
Mas isso tudo era apenas redemoinho octaedrocubano, vedado pelas paredes metálicas do meu automóvel à caminho do Sesc Pompéia, local onde em poucos minutos a banda recifense MOMBOJÓ inauguraria a vida sonora de seu novo disco AMIGO DO TEMPO na cidade. O caos de uma sexta, me fez perder Casa Caiada e Justamente. Mas pelas arestas dos vidros laterais da casa, já era possível olhar a banda e seu palco, de fundo igual à capa do disco e faixas laterais com desenhos enuviados em vermelho afirmando mais uma vez quem era que estava em cima do tablado. Fila longa e um local onde as pessoas já faziam balbuciadas contrações de sorrisos.Mesmo a acústica da Chopperia não sendo das melhores, normalmente o som das bandas é quesito de menor preocupação, mas nesse show algo de estranho acontecia. A guitarra de Marcelo Machado algumas vezes não era audível, mas como naquela sexta o ar da cidade parecia stressadamente rarefeito, esse pequeno detalhe não atrapalhou, mesmo sendo muito mais interessante ouvir as nuances lisérgicas das sônicas cordas do novo disco.
A banda destilou o repertório dos seus três trabalhos (Nada de Novo, O Homem Espuma) e obviamente uma leve ênfase no trabalho mais recente. Indiferente às pessoas que insistiam em usar palavras em tons mais altos que o vocalista Felipe, eles parecem tocar em transe coletivo.
Dentro de um mundo particular e com cores ímpares. Os olhos fechados de Samuel, pareciam levar o baixista para um mundo onde apenas as lembranças mais monstruosas poderiam retirar sua alma, em paz claveada pelas notas. Mesmo nesse clã maçônico um chamado tribal evocava dentro das pessoas no Sesc, levando-as à arrastar os pés, usar passos descomplexos em direção à dança e por muitas vezes trazer a umidade que o clima tiranicamente tem retirado dos nossos olhos. Se o seco tem que seguir secretando uma apatia de alma dentro de nossas convencionadas mentes em trânsito lento, eis que o Mombojó cria um alento.
E a aura messiânica da banda exerce influência nos coros em uníssono da platéia que canta como se fosse uma oração. Vivemos em uma terra onde existem mais e mais atritos, mas a receita caseira holística que os desafetos não fazem bem, são como navalhas de riffs que transbordam, quando a banda torna-se mais aguda em cima do palco. O balanço funkeado, rapeando letras onde transitam imagens de mares, amores e vida torna tudo mais bonito. Sendo assim, pode aumentar o volume ventricular.....
Quando a banda iniciou seus trabalhos no distante 2001, pricipalmente no aclamado show feito antes dos Pixies em Curitiba, muito falou-se de como o rock nacional encontrara um novo Los Hermanos. Até hoje existe ainda essa comparação, que se não é totalmente errada, mostra-se equivocada.
Retirando-se o background sambístico que as duas bandas possuem, poucas nuances conectam esses dois grupos de músicos. Enquanto os hermanos tinham uma veia de bossa nova (O Tempo é puro Tom Jobim e João Gilberto), os recifenses colocam suas padiolas eletrificadas dentro de um mundo mais alquimista. O rock inglês, misturado com os pa da pás não é apenas algo que Camelo e cia. tinham feito, o Mombojó eleva isso para outro patamar.
A banda possui uma universalidade muito maior. Uma picardia de misturas que lembram a veia roqueira dos Mutantes. Mas em nenhum momento os amigos de Amarante. Talvez a conexão que a banda tenha com a plateía faça com que essa comparação seja feita. Mas se for assim, a Legião Urbana também seria exemplo, não é.
Quando a banda iniciou seus trabalhos no distante 2001, pricipalmente no aclamado show feito antes dos Pixies em Curitiba, muito falou-se de como o rock nacional encontrara um novo Los Hermanos. Até hoje existe ainda essa comparação, que se não é totalmente errada, mostra-se equivocada.
Retirando-se o background sambístico que as duas bandas possuem, poucas nuances conectam esses dois grupos de músicos. Enquanto os hermanos tinham uma veia de bossa nova (O Tempo é puro Tom Jobim e João Gilberto), os recifenses colocam suas padiolas eletrificadas dentro de um mundo mais alquimista. O rock inglês, misturado com os pa da pás não é apenas algo que Camelo e cia. tinham feito, o Mombojó eleva isso para outro patamar.
A banda possui uma universalidade muito maior. Uma picardia de misturas que lembram a veia roqueira dos Mutantes. Mas em nenhum momento os amigos de Amarante. Talvez a conexão que a banda tenha com a plateía faça com que essa comparação seja feita. Mas se for assim, a Legião Urbana também seria exemplo, não é.
O descompromisso com os padrões hipnotiza, torna tudo mais leve e inapelavelmente belo. E se existe uma conexão entre as bandas, é na letra que diz "avisa que é de se entregar o viver". Não existem solos longos, nem muitas experimentações em relação às gravações de estúdio. Tudo é muito natural, o que faz com que a experiência seja sentimentalmente individual. Uns dançam, outros cantam, mas a platéia agarra cada poema da letra como se fosse uma verdade de vida e explode um refrão em forma de arrebentação.A citada melancolia de Amigo do Tempo (que não existe), talvez tenha sido confundida com a retirada da afasia de quem ouve as músicas. Durante todo o show é possível perceber que as canções do Mombojó tem essa característica. Como se a cada acorde um toque invisível acontecesse e seu corpo respondesse com reações inesperadas, retirando a apatia. A resposta é individualizada, por isso em alguns entristece, em outros faz brotar lágrimas sorridentes. Letras lisérgicas que corroboram com uma eletrificada mudança de sentimentos.
O sol vermelho da cortina no fundo do palco, me observa enquanto saio da chopperia. Álcool fermentado em uma das mãos, uma amizade caminhando ao lado. Algo aconteceu depois do show e está estampado no estandarte de uma mudança de humor ímpar. Durante o caminho de volta, uma paz de espírito decalcada por entre os eixos de meu carro, pinta o asfalto abaixo do vulcanizado pneu por cores onde sorrisos são auto colantes. Nem mesmo o mar de luzes de freio que habitavam uma confusão de tráfego na 23 de maio, retirou-me a calmaria de admirar a cidade na madrugada. Por entre caminhos mais longos que a distância entre a Helio Pelegrino e rua Aspicuelta.
Se o rock tem a função de transformar pessoas, o Mombojó é alquimista nato.....