4 de outubro de 2010

GD 61 O EVANGELHO DO TIRIRICA....

 Grant Morrisson é um cartunista escocês que pertence a geração que mudou a maneira de ver a importância das HQs, como não apenas literatura fácil ou barata, mas sim um tipo diferente de leitura que muitas vezes tornava-se muito mais impactante que um livro impresso, pois os simbolismos usados eram muito mais explícitos. É dele a série ANIMAL-MAN na badalada DC Comics, mas o problema é que na linhagem dos maiores inovadores do gênero dessa geração, Morrison acabou ficando um pouco para trás. Afinal de contas Alan Moore já estava esmerilhando meio mundo com o Monstro do Pântano e Neil Gaiman já era aposta mais do que certa.
Mas é de Grant talvez uma das mais perturbadoras e avassaladoras histórias da época. O EVANGELO DO COIOTE. Lançada em 1988 na revista Animal Man, é no mínimo um soco no estômago, pois desafia todos os conceitos sobre religião, de um Deus Ex-Machina, sobre a imagem de Jesus Cristo como um joguete e o paralelo que o autor faz com a humanidade sendo o maior de todos os peões.

Obviamente não vou contar a história toda, mas a comparação se faz necessária. Na HQ, a personagem do coiote Astuto é condenado por Deus a viver exilado na Terra e morrer sentindo todas as dores possíveis cada vez que alguém o assassinasse. Para logo depois ressucitar e assim manter a paz na terra dos desenhos animados, que era um inferno em forma de nação. Com milhares de mortes sem sentido, violência desenfreada, falta de um comando humanitário e miséria.
Alguém já entendeu a metalinguagem????

Grant foi genial, mas ele não contava que quase vinte anos depois um palhaço analfabeto fosse usar seu roteiro para ilustrar mais uma vez a história real de uma nação.

TIRIRICA, o candidato a Deputado Federal pelo PR de São Paulo elegeu-se com a quantia de 1.356.820 votos. A mais expressiva votação dentro da categoria, muito distante do segundo colocado, a aberração chamada Anthony Garotinho com 694.862 votos.

Tiririca é conhecido por ser uma personagem. Macaqueando seu andar pela fama com uma música brega (Fôrentina), com piadas de baixo calão e estridência de corar uma hiena. Semi analfabeto e nitidamente um candidato que fará o papel de puxador de bancada (aquele que ao entrar com uma votação expressiva, permite com que outros candidatos menos votados também sejam eleitos). Tirica é o coiote.

Joguete político na mão de senhores que consideram-se deuses e de acordo com a vontade dos bolsos ou interesses, escolhem a melhor maneira de continuarem no poder. Não existem leis humanas onde não apareça uma brecha para que esses pretensos onipresentes e onipotentes deuses de terno e gravata, possam usar em seu favor. Não há ficha limpa, não há pincel nem desenhos que consigam parar a predatória cadeia alimentar desses seres.

Tiririca é o coiote que por baixo de uma pretensa revolta (votar para o palhaço foi inclusive pautado como voto de protesto), percebe que vai vagar por Brasília como  se estivesse em um limbo, onde terá que morrer a cada golpe dado pelos deuses com quem se uniu. A cada golpe que a imprensa vai desferir em seu corpo, seja ele com algum canhão ACME ou armadilha onde despencará de um desfiladeiro e uma pedra enorme cairá sobre ele, Tiririca vai ressucitar, pois a manutenção de candidatos como ele no poder, manterá o reino dos desenhos animados em paz contida.

E a cada quatro anos cada vez mais coiotes se sacrificarão para manter esse equilíbrio entre os deuses e nós, a população. Um mundo de quadrinhos caóticos onde existe violência gratuita, falta de comunicação e uma perda dos valores mais básicos. Mas a verdade mais dolorida é que por alguns instantes, quando se pensa no assunto, pode-se vislumbrar que nós somos na verdade os coiotes....

Nós não temos uma Ex-Machina, mas sim apenas uma marionete sangrando milhares de mortes doloridas para que a fantasia se mantenha viva.

Se você quiser ler a magistral história do Grant Morrisson ENTRA AQUI.