Por mais reclamações e atos revolucionários escritos na internet afora, não pode-se olhar para um festival como o SWU apenas como evento.
Os três dias gastos na Fazenda Maeda, são na verdade produto de consumo para aquelas pessoas que amam suas bandas, com uma devoção que a maioria de nós, pessoas bem nascidas talvez não entenderia. Só isso explica a paixão desenfreada dos fãs de uma banda como o Avenged Sevenfold ou o Linkin Park. Do mesmo jeito que para eles, nós que gostamos de Yo La Tengo, somo todos ignorantes musicalmente. Ou seja, tudo desprovido de lógica e movido pela paixão do gostar. O que não chega à ser uma sandice escatológica, já que a paixão é uma contração vulcânica do organismo, liberadora de endorfinas que fazem bem, em resumo uma reação hormonal e involuntária.
Mas essa mesma paixão pode tomar proporções exageradas quando o quesito é reclamar de tudo de ruim que aconteceu. E nisso também incluo minha opinião de consumidor avalizado pelo Procon, no que se diz respeito ao bolodório que assola a tela do computador de todos quando o assunto é o SWU.
Problemas??
Muitos. E coloque muitos nisso.
Coisas para se reclamar???
Muito mais, desde a comida crua até os banheiros impraticáveis. Incluindo aí até a famigerada pista VIP.
Mas por mais que seja uma reclamação justa depreciar o chamado gargarejo, destinado aos mais abonados finaceiramente e amigos dos amigos dos amigos, deve-se olhar esse nosso umbigo sujo.
Por mais que a decisão de Eduardo Fischer e sua produção (aquela que um dia disse que "se não quiser perrengue não saia de casa") erraram feio, trazendo segregação onde pregava-se sustentação, a culpa disso também é nossa.
Culpa por endeusar todo esse hype que os festivais possuem. Obviamente que é inédito e digno de nota que se proclame o SWU, mas esse movimento chapa branca que aconteceu foi ilusório. E nesse contexto incluo a lavagem cerebral promovida por um helicóptero bacana que fazia tomadas aéreas ao redor da fazenda mostrando a magnitude. Do mesmo jeito que a maioria das pessoas comprou a idéia divulgada pela produção do festival através de blogueiros (eu ajudei um dos insiders do festival) que repassavam fotos, faziam posts, mixtapes, cobriam flash mobs, tal e etc.
Todo esse hype vendido apenas endossou a idéia de que seria maravilhoso ser especial dentro do festival. E o que pode ser mais especial do que ser VIP em um evento tão cheio de descolamento. Todos preocuparam-se com a aparência. E isso ficou evidente quando durante os três dias passei por várias pessoas que pareciam ter que cumprir a obrigação de perpetuarem um certo papel dentro do mundo alternativo. Pareciam estar lá para atuarem em determinados papéis. O meu personagem?
Fazer o papel de quem não quer fazer nenhum papel.
Não pode-se reclamar da pista VIP, quando endeusamos esse hypismo em cima de tudo. Muita supervalorização em coisas que são completamente descartáveis. Blogueiros que se acham acima do jornalismo, jornalistas que esnobam cronistas, donos de site que disseminam a idéia de que são o supra sumo da notícia, quando na verdade regurgitam a informação proveniente de sites gringos. Hoje em dia, criou-se a indústria do "muderno". Ou você pertence à certos grupos, ou é apenas um pária perdido em uma selva de coisas descoladas.
É essa busca por querer saber sempre qual é o filme iraniano mais felliniano, ou conhecer aquela banda da polinésia francesa que faz um strotte rock koner punch punk drunk do momento. O the next big thing sempre existiu, mas agora não são apenas mais músicas que fazem parte dessa conotação. Pessoas físicas também.
Então não adianta nada reclamar da pista VIP, se cria-se uma indústria do cool dentro de tudo o que se diz respeito à música. Querem ser sempre os mais descolados, os mais entendidos. Querem mulheres aos pés dizendo o quanto são gênios da escrita. Não dá para reclamar de segregação quando endeusa-se mais e mais o hype.
Hoje a internet virou terreno onde a cada dez segundos, um novo messias aparece com lições de moral e bons costumes. Gente que nem conhece pessoalmente os outros, mas acha-se no direito de julgar e destilar pérolas de sabedoria lidas em livros de auto ajuda escritos por algum Paulo Coelho da vida. Julgam atitudes de terceiros com uma moral ganha através de fellaccios literários.
Mas um minuto, senhor sacripanta. Esse discurso cheira à inveja da posição de outras pessoas que tem amigos influentes!!!
Sim meu caro hypado leitor, eu tenho inveja. Muita aliás, que me corrói de felicidade pois a uso para ser mais parecido com as pessoas que admiro. Mas essa famigerada inveja, é daquelas que são chamadas boas.
Pois gostaria de ser tão culto quanto o Marcelo Costa, tão anarquista quanto o Forastieri, de inteligência tão aguçada e rápida quanto o Barcinski, tão perspicaz quanto o Alexandre Matias e posso passar o dia todo aqui escrevendo sobre características das pessoas que admiro. Mas esse não é o caso.
O que se passa é, construimos uma indústria do ser descolado e agora estamos pagando o preço por ela ter tornado-se um monstro. Mais vale hoje em dia ter os contatos certos e a mão grande, para poder acolchoar bem as bolas alheias, do que conteúdo. O vazio de ações bem pensadas dentro do festival SWU, é o reflexo dessa indústria que se cria todo o dia.
Uma falsa idéia de que existem pessoas mais descoladas que as outras. E o pior, quem define isso é a internet. Os vips dos vips são supra sumados de acordo com os follow fridays da vida.
As propagandas enganosas e frases de efeito também ajudam, mas isso é uma coisa que é feita através de grandes corporações e empresários. Nós aqui embaixo, no fosso sujo que foi deixado para que a população normal seja lobotomizada, apenas podemos convencer uns aos outros. E a melhor idéia à ser disseminada é a de que, essa indústria do descolado vai trazer festivais que são criados com a iniciativa bem intencionada, mas que acabam como todas as outras coisas.
De mãos dadas no inferno cheio de boas intenções.