O punk talvez seja último movimento mundial do rock. Nem ao menos o grunge conseguiu atingir e disseminar tanta energia quanto os três acordes. Prova disso é que não apenas na barackolândia (lar seminal do gênero), mas também toda a Inglaterra, Europa e até o Brasil tiveram movimentos relacionados ao faça você mesmo. Se você ainda não assistiu, corra a trás do documentário BOTINADA, A HISTÓRIA DO PUNK BRASILEIRO. (resenha do GD aqui).
Mas um dos lugares mais curiosos onde o punk plantou raízes (e que depois conseguiu admiradores inclusive no Brasil), foi na Alemanha. Nas duas laterais do muro (a ocidental e o lado oriental), a profusão de bandas foi agressiva e constante dos anos 70 até o início dos 90. Com o separatismo existindo até 1989, o punk alemão do lado oriental tem uma história forte e cheia de nacionalismo (mas longe do arquétipo do nazismo), visto que poucas bandas cantavam em inglês até o final dos 80.
Influenciados pelos Sex Pistols e Clash principalmente, o lado ocidental foi o primeiro a tentar passos no novo gênero. E em 1976 as primeiras bandas começaram à surgir. Nomes como MALE, Middle Class Fantasies e o Der KFC, foram as seminais notas dentro do cenário. Esses três nomes polinizaram vários lugares e o punk alemão espalhou-se rápido. Antes da mudança no gênero ocorrida nos anos 80, o final da década de 70 foi prodígia no surgimento de nomes em todos os cantos do país. The Buttocks, ZK, Upright Citizens, Neurotics Arseholes, Razzia, Daily Terror, The Razors, apenas para citar alguns nomes. O som era completamente baseado no ramo britânico do gênero e em bandas como os Varoukers e GBH.
Nos anos 80 o punk transmutou-se com uma mistura de sintetizadores e um ramo juntou-se a new wave. Daí surgiram nomes como Nina Hagen e o termo "A Nova Onda" dado pelo proprietário do selo Zick Zack Records, Alfred Hilsberg. Mesmo assim, o punk alemão manteve seu lado mais seminal e sem misturas.
Além do que o tom polítizado era extremamente forte dos dois lados do muro. Cidades como Hamburgo, produziam bandas com letras que são censuradas até hoje. Exemplo mais claro disso é a SLIME, que tem seu primeiro disco proibido e as canções Deutschland, Bullenschweine e Polizei SA/SS, possuem letras que pregam a revolta contra o sistema e a polícia, comparando-os inclusive aos nazistas. E o segundo disco deles também não pegou leve, afinal de contas tinha temática anti-imperialista e chamava-se Yankees.
E mesmo com uma rica história dentro do punk, existem espaços em branco. Principalmente pelo lado oriental alemão pré queda do muro de Berlim. O que sabe-se é relacionado apenas com o surgimento de grupos punks neo-nazistas, assim como grupos anarquistas que lideravam o chamado DIA DE CAOS.
Mas um livro lançado em 2006 que foi retirado de circulação, mas ainda pode ser baixado na internet, parece consertar esse espaço vazio da história. ZONEN PUNK PROVENZ, escrito por Mark M. Westhusen, conta a história do lado oriental do punk nos anos 80. E o trabalho do autor passa por entrevistas com músicos, personalidades ligadas ao movimento e até documentos oficiais do serviço secreto alemão em relação ao gênero. Mark disseca como era o funcionamento do regime político na Alemanha Oriental e encaixa o punk como ferramenta de transformação usada muitas vezes como forma libertária, outras como manobra.
Vale muito à pena perder um tempo com a tradução, pois os parágrafos revelam fascinantes histórias a cada palavra. Para baixar o livro todo CLICA AQUI.