Existem canções que são feitas para contemplação. Indefinida por pedaços de tempo, mas contada em cada pulsação de valva mitralizada que inverte trajetos arteriais. Esse tipo de canção pode tornar-se um ligeiro baque dentro do seu peito. Como nos momentos onde aquele pedaço de cocaína grosso e espesso apropriadamente adentra em sua farínge e ao descer na direção bronquiolar retorna, pois seu pulmão sabe que dentro de alguns minutos aquela mistura de poeira gasolinizada com pedaços de comprimidos esbranquiçados pode parar ao redor de seu cérebro.
Esse baque vem lento e carregado de pigarro bruto e certas canções são lentas assim. Ao chegarem no lugar certo dentro de seu cérebro causam espasmos que podem matar sua alma aos poucos. No caso da banda inglesa THE BEES e seu mais recente disco EVERY STEP'S A YES, a única convulsão que pode-se sentir é a amargura da vida cinza sendo sugada por um ralo grosso e sem retorno. Reciclagem de vida pode ser feitas por acordes suaves e a banda é uma usina.
O disco está nesse momento entre os 100, na lista dos mais vendidos. Uma posição que poderia ser considerada razoável apatia de vendas, mas pelas referências e caminhos onde a banda ara seu som, essa preocupação não parece ser importante. A semana passada foi o lançamento, mas pela durabilidade das canções, esse álbum vai definitivamente iluminar sua vida por algumas semanas seguidas.
O ano de 2010 marcou um certo renascimento dos discos onde a palavra suavidade foi a tônica. Do mesmo jeito, a palavra experimentação. O Bombay Bicycle Club optou por adentrar ao mundo de Paco de Lucia, mostrando que podem ser subversivos em relação as canções e fizeram um dos discos mais belos desse ano. Os THE BEES entram na briga, mas elevam esse jogo um pouco mais. Do pop folk pés no chão de I REALLY NEED LOVE até a experimentação cubana cheia orixás e balangandans mexicanos de GAIA, a banda é espetacularmente catalisadora de sensações, criadora de atmosferas ventriculares capazes de inverter as estações do ano, transformando o mais tenebroso inverno em primaveris claves de sol.
A banda sempre foi marcada pela alquimia de ritmos e se a primeira canção é um pop feito de algodão doce rural, o blues que choraminga pequenos cristais enraizados na canção WINTER ROSE, vem nascendo com metais de western empoeirado. Cadência pura e atomizada em detalhes. Ouvir o novo disco dos Bees é passear por milhares de décadas e observar atentamente a história musical.
O blues sai e o retorno por pradarias cavalgadas por jeans e chapéus ao redor de fogueiras spaguettianas aparece em SILVER LINE, a primeira canção que saiu do disco. Os tons vocais lembram muito os que foram gravados pelo Pink Floyd no lado A de Meddle. A duplicação das vozes transforma notas em beleza. O orgão ao fundo apenas resvala em um tenebroso acorde final.
NO MORE EXCUSES, a quarta canção diminui mais ainda o tempo. O frio gélido do inverno chega de mansinho e essa bela orquestração, no papel de acompanhante, deixa o ar frio penetrar pelas suas narinas e a lisergia da composição aparece aos poucos. Mas nesse momento do disco a imersão de sua alma por entre as notas é tamanha, que será fácil diferenciar os truques usados pelos músicos.
Já na metade, TIRED OF LOVING deixa claro que a sequência das músicas é de ímpar arranjo. Os teclados sacros que permeiam essa canção grizzyliana são de gelar a espinha, mas a beleza vocal encaixada lindamente na métrica faz com que a impressão seja muito mais angelical do que ultrapassada. E aí a artéria pulsante e circense faz a introdução de CHANGE CAN HAPPEN, que após o levantar da cortina desse espetáculo, torna-se balada flautosamente medieval. Doce som do sopro que mostra outra faceta quando a distorcida guitarra penetra por entre a canção.
Claramente na segunda metade do disco a banda cria uma conversa jazzística entre os instrumentos e essa música é apenas o começo.
ISLAND LOVER LETTER, é uma ode romântica ("minha mulher é um diamante"), com as nuances brejeiras novamente percorrendo todas as iluminações. A construção clássica desta, é de uma beleza reflexiva em ondas feitas em lagos manualmente. Tudo muito leve e sem rompantes de fúria, apenas uma pequena lisergia quase beatleniana no final da canção. SKILL OF THE MAN reapresenta o piano e a face mais folclórica da banda. Com um pequeno traço de psicodelia que viaja pelas décadas onde o Led Zeppelin subverteu o folk e o clássico. Mas essa aproximação com o ritmo seminal, não deixa a banda mais próxima dos Youngs ou Dylans, mas muito mais próxima das co-irmãs progressivas. As duas canções que fecham o disco PRESSURE MAKES ME LAZY e GAIA mostram isso de maneira concreta. A mistura de percussão, cordas, metais e vozes são dignos de qualquer disco da década do ácido.
EVERY STEP'S A YES é um disco que surpreende. Sua duração precisa apenas deixa na garganta aquela sensação de que será muito prazeiroso descobrir os entrecantos da banda. Uma calma caleidoscópica que leva seu peito a transpassar a velocidade do tempo, em cápsulas articulares formadas essencialmente de notas que atingem seu sistema límbico da maneira mais arrebatadora.
Lentamente e a cada segundo de uma nova canção.
Imperdível....
