21 de outubro de 2010



Ontem aconteceu a festa de aniversário em comemoração aos 20 anos da MTV brasileira. Um canal que mesmo não tendo a pungente importância de décadas passadas, ainda representa aquilo que sempre foi a proposta. Retratar a cultura da juventude nacional, mesmo essa cultura não sendo respeitada, muito menos predileta entre os círculos intelectuais agudos.

Discutir a qualidade da programação pode até parecer plausível. Mas o canal televisivo é pelo bem ou pelo mal o retrato daquilo que se passa dentro da cultura pop do país. Do mesmo jeito que a cara do rock nacional hoje são as bandas coloridas. Por mais que tente-se mudar esse perigoso paradigma, com bravos blogs e sites que promovem as canções alternativas, o que se tem no prato do dia é isso. Restarts, Starts, Entrestarts e estandartes que retratam o que o jovem brasileiro quer ouvir.

Pessoalmente a MTV para mim já foi mais relevante. Foi pelo canal que tornei-me um adicto musical. Em uma época onde educavam-me ginasialmente as notas, o canal de clips era menos diversificado, mas o som era diferenciado. Então mesmo a programação atual não sendo aquilo que eu esperava ver, é uma data de comemoração (pelo menos para eles). E o assunto mais falado da festa, fora as bebedeiras, é a volta do PLANET HEMP.
A banda que nos anos noventa representava a contra cultura encarnada em ferro fundido e cortante como navalha quente na carne, fez um set list com clássicos. A platéia fez pogo, cantou e catarseou até a última nota. Mas essa "volta" do Planet Hemp é fundamental???

Voltas nem sempre são guiadas pela ideologia. O discurso pró maconha que a banda fazia não tem a mesma força dos tempos onde a abertura política estava começando. Apenas lembrando que em 1993, Itamar era o presidente que adorava um palanque, uma calcinha e o Fusca, a nossa moeda era o Cruzeiro Real (mil deles valeriam 1 Real depois), o PCC foi criado e as duas grandes chacinas levaram embora mais de 30 pessoas (Candelária e Vigário Geral).  Hoje pode-se fumar maconha em todo o lugar, existe uma quase descriminalização social velada dentro do país. Não espanta-se, não reclamasse. Um baseado na praia nunca foi motivo de luta pelos direitos. Nesses tempos binários onde as drogas são poderosamente escondidas por twittcams e mensagens instantâneas, a boa e velha canabbis sativa talvez esteja ficando careta.

E aí a banda se segura no poderio dos riffs e na catapulta sonora, mas ontem pareciam enferrujados. Tempo demais parados, mas isso conserta-se facilmente. Mesmo com o time não completo, afinal Black Alien não estava presente. E se a mini turnê que poderá surgir virá no esquema Frank Black de ser (que já declarou abertamente que os Pixies estão fazendo shows apenas pelo dinheiro), não acho esse o problema. O Planet Hemp em alguns pontos ainda me parece relevante. O problema maior nem é esse...

Em um cenário de Alice, o Planet voltaria com força titânica, arrebentaria novamente o status quo vigente e abriria o parâmetro para uma explosão de bandas novas que trariam novamente a dignidade perdida do rock televisivo. O tempo onde Maracatú Atômico era transmitido depois de Mantenha o Respeito assombraria a mesmice novamente.
Mas já não temos um conglomerado de bandas que são capazes de tornar essa revolução possível??

Porque uma banda extinta há quase dez anos tem que voltar para salvar o rock nacional??
Não é o novo que rompe paradigmas velhos (porque o rock de franja já está tornando-se uma coisa velha e mal cheirosa)???
Não vejo essa revolução aclamada por todos os cantos em relação à volta da banda de Marcelo D2, do mesmo jeito que não acho necessariamente importante. É muito bom saber que eles estão botando a casa abaixo. Mas o discurso a favor da maconha não tem metade da força e talvez os sensíveis fãs de calças coloridas achem transgressor demais legalizar as drogas.

Porque o transgressor não se amalgama com o mainstream. Ontem no show do Green Quem? foram presenciadas e relatadas vaias para a banda de abertura, NEVILTON. O trio paraense é definitivamente um desses guerreiros que lutam por uma condição de qualidade melhor no rock. Do mesmo jeito que milhares de outras bandas também o fazem. Mas a maioria das pessoas vestem essa manta ao redor de bandas medianas como a do ato principal de ontem e o defendem com a força de torcida organizada. Não existe bom senso de quem projeta nem de quem assiste. Do mesmo jeito que Yo La Tengo sendo vaiado no SWU.

Não vai haver revolução televisionada por um canal que outrora foi de clips. E a MTV não vai limpar a barra suja da segmentação da programação que acabou com o canal, ajudando a ressucitar uma banda poderosa com discurso enfraquecido. E talvez como disse o @vcunha, o rock nacional não precise ser salvo, mas sim morrer.
Quem quer salvação??? Esse é o objetivo???

A vaia ao Nevilton e a volta do Planet são duas moedas da mesma face. O saudosismo levado à condição de plataforma. Vaia-se o novo e prefere-se o marasmo do mesmo. O Planet vai fazer a alegria de nós, sacripantas saudosistas, mas não tem, nem terá a obrigação de salvar uma cena.
Talvez Marcelo D2 não precise fazer turnê ou voltar com a banda. O único show de ontem teria muito mais força se não desabasse em uma turnê caça-níqueis.
É preciso voltar os olhos aos novos guerreiros, pois a revolução depende de quem chega. Quem já passou serve de mestre e exemplo, mas não pode-se colocar nas costas deles um retorno triunfal.