26 de outubro de 2010

GD 64 MELODIAS ELEVADAS....

 Se o inverno russo é considerado um dos mais tenebrosos, também é conhecido por ser um dos mais belos em toda a esfera terrestre. Isso talvez explique o trabalho da banda MOTORAMA, nascida no lado mais lateral do Oriente e navegadora de delicadas calotas de gelo, que lentamente derretem-se em sons vindos do pós punk inglês.

ALPS o disco de estréia da banda que veio de Rostov-on-Don, é ao mesmo tempo efêmero e marcante. Nove canções com uma totalidade de aproximadamente trinta e seis minutos e colocado dentro da internet gratuitamente. Uma experiência assim poderia ser apenas passageira nuvem binária de arquivos de som, mas a beleza desse registro ultrapassa a mesmice de um download rápido. Como já dizia Tulipa Ruiz, as coisas "que passam perecíveis e acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço".

A Motorama (que tem esse nome dado por um amigo), seria facilmente confundida com qualquer banda categorizada como rock alternativo. Exemplos para esse tipo de comparação não faltam, afinal de contas The Pains Of Being Pure At Heart ou Camera Obscura também são bandas admiradas pelo quinteto, mas a audição atenta de Alps revela algo muito mais profundo do que apenas um espelho pálido refletindo sombras.


Desde a faixa inicial (Nothern Seaside) as influências mais densas de materiais vindos de lugares como a cidade de Manchester, revelam que a banda possui algo maior do que uma simples fenocópia. A melancolia sentida em cada entonação do vocalista Vladislav Parshin revela toda a dor do pós punk inglês nos anos 80. E se você quiser adjetivar, pode usar o termo joy divisionianas nuances. O início mais cadenciado, não impede que as canções seguintes (Warm Eyelids e Compass) acelerem as notas e coloquem a banda agora não mais dentro de uma nuvem pesada, mas sim desenhando formas geométricas e aos poucos formando uma passagem onde a beleza é matematicamente posicionada, para a urgência de Letter Home.




A faixa que marca a metade do disco é inapelavelmente feita para perder-se em qualquer estrada, mas deixa claro uma coisa que transparece por todo o disco. A Motorama mesmo construindo uma melodia quase perfeita, anda pelas laterais.
O disco mesmo depois do seu "hit" tendenciando uma queda de temperatura, acaba tornado-se mais belo com os primeiros acordes de Wind In Her Hair. Nesse instante a sombra de bandas como o The Smiths pairam sobre o disco, mas em nenhum momento isso leva Alps ao inferno. Airin Marchenko e seu baixo deixam marcas palpáveis e a contraposição dos acordes se mostra em plenitude.

Ghost pode até deixar os mais céticos com aquele gosto de reprovação, pois sua linha de entrada é chorosamente retirada do baixo de Peter Hook do New Order, mas essa aceleração de batidas somadas ao teclado sombrio, deixam a marca de um sorriso escorrer pelo ceticismo. Alps tem menos experimentações do que se imaginaria em um disco de estréia. Existe uma retilínea retina que fixa diretamente o olhar por todas as influências da banda russa. Mas esse "homenagear" que a Motorama concatena dentro das canções, não traduz uma falta de originalidade, mas sim uma capacidade de construir com o melhor dos dois lados desse ex-muro de guerra fria. A tríade Alps, Ship e There's No Hunters Here fecha o disco de uma maneira assimétrica e linda em demasia.



Declarações em entrevistas logo após o lançamento do disco, mostravam que a banda é sim um bequer de laboratório químico musical. Em uma delas o vocalista dizia que "nós podemos daqui há cinco anos continuarmos juntos, mas definitivamente seremos uma banda completamente diferente". Julgando pela capacidade de criação da estréia, o nome Motorama será lembrado por mais discos tão libertadores da alma quanto Alps.