Às vésperas do segundo turno, a ligeira e barrettiana lisergia do Tame Impala embalou o caminho até o Clube Outs, onde os entrevistados da última Conversa Paralela, voltariam aos palcos da capital. Uma turnê pelo sul do país no melhor estilo punk de sobrevivência na estrada, teria seu show derradeiro nos palcos da cidade. E mesmo depois do tempo longe, os fãs da banda pareciam desprovidos de qualquer tentativa de antecipação.
Mas antes de Aurélio e Seus Cometas tomarem de assalto o terreno sagrado do palco, duas bandas que estão em seus primeiros passos dentro desse mundo quadrilátero do rock, apresentariam-se. A Bratislava, com aquele sempre elegante atraso dos shows no Outs, iniciou sua apresentação embalados pelo clima de primeira vez. O trio que foi um dos escolhidos pelos integrantes do Aurélio para abrirem a festa é uma banda extremente sóbria, daquelas que entram em um processo de imersão durante os shows. Concentrados e com uma qualidade musical acima da média, mesmo o som da casa ainda fora de tonalidades, a banda destilou um repertório que apesar da pouca idade dos integrantes, era de gente grande.
Sem medo de comparações foram de Arctic Monkeys à Beatles (I Want You / She's so Heavy) com desenvoltura. Mas foram melhores quando mostraram-se eles mesmos. As duas composições próprias apresentadas pela Bratislava são suaves e precisas. Viajando pelo rock folk dos anos anteriores aos internéticos, com uma gaita fazendo um fundo para melodias de acalento aos ouvidos. No meio do caminho Jorge Maravilha de Chico Buarque amalgamada com Erasmo Carlos e Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo. Mesmo com os escorregões naturais da estréia, uma banda que cresce quando mostra a sua identidade. Natural da idade e situação em descobrir o caminho, mas sempre buscando a própria voz.
Todo o sentimento contido da primeira atração foi arrancado à fórceps pela banda Hedonic. O quinteto esperava pacientemente sua vez ao lado do palco. Uma impressão de armada formando-se na lateral era palpável. Ao subirem e posicionarem-se, a primeira imagem que recobre os giros do cíngulo cerebrais é de um pelotão de fuzilamento munido de armamento pesado, escorrendo pequenas gotas de sangue de batalhas anteriores nas lâminas ainda em brasa. A bateria envolta em aura de isolamento térmico, comanda a distorção e solos de garagem. A banda toca e sente cada palavra e acorde do repertório que iniciou-se com I Am The Walrus (na versão mais Oasis) e apresentou também canções próprias. A Hedonic tem uma peculiaridade, a atitude de todos os integrantes é forte. Mexem com o público como se encarassem uma batalha pelas almas de cada um dos presentes, mas o vocalista é uma caso à parte.
Um misto transloucado de frontman pronto para grandes shows e uma atitude que provavelmente leva a platéia a acreditar que seu sobrenome é Gallagher. Pula, dança desconvexamente, com uma leve marra quase desmedida. Foge do esteriótipo de calças coloridas do rock produzido nas nossas terras pau-brasilienses. Mesmo caindo em outros, não pode-se acusar a banda de não possuir atitude de sobra no rock.
E assim com duas atrações que deixaram o clima em verão meridiano, Aurélio e Seus Cometas começaram o show com uma aura diferente.
Existem bandas que quando saem, voltam diferentes. A estrada faz com que ganhe-se uma ginga e durante o show essa sensação é explícita. Como se fosse possível um trio que já é redondo, tornar-se mais exato e poderoso. Durante o set list, com canções do disco mais recente e também do primeiro, AESC mostra que a banda está preenchendo mais o palco, tornando o som muito mais poderoso e definitivamente mais rápido. Clube dos Descontentes, Deixa Entrar e De Sexta a Segunda tornam-se mais visceralmente aceleradas e o som torna-se mais pesado. A banda parece ter ganho muito mais coração e corpo depois da turnê. Um show maduro de uma banda que conta com os cada vez mais vulcânicos Pedro e Mogli Kid e um dos mais carismáticos e talentosos vocalistas do cenário, Emir.




