4 de novembro de 2010

GD 65 DEUS NOS ODEIA 4

Durante o dia todo (e ontem), as notícias publicadas por entre as linhas de quase todos os blogs e agências de notícias foram notas envolvendo a estudante de direito paulista, Mayara Petruso. Acusada de xenofobia e praticante de crime virtual envolvendo idéias racistas. Não sei qual a definição jurídica da palavra, mas a do dicionário é: medo irracional, ou aversão profunda aos costumes estrangeiros. Mas será que Mayara é culpada?

A estudante de direito paulista é talvez o menor de nossos problemas. Mesmo porque ela me pareceu muito mais desprovida de informação e participante de um joguete que aconteceu durante a eleição toda esse ano. O jogo da militância dentro da internet. Fomos bombardeados (principalmente dentro do twitter) por inúmeros perfis que vociferavam pelo candidato x ou y. Em razão geométrica de mensagens, uma mais apaixonada do que a outra. Xingando o candidato, os jornais, os outros seguidores que votariam no candidato contrário. Até ator global virou garoto propaganda. Militantes que armados de 140 caracteres metralhavam a paciência e boa vontade de muita gente. Não existiu imparcialidade nem de alguns jornalistas que faziam questão de tanto para Serra e Dilma, mostrarem-se defensores de uma ideologia morta há décadas. Nenhum dos dois candidatos era a melhor escolha, mas como no futebol, defender a organizada é muito mais importante do que o espetáculo. Dilma mentirosa, terrorista. Serra mentiroso. Terrorista até onde eu sei mata indiscriminadamente e uma pessoa mentirosa é execrada pela sociedade. Já não são esses dois xingamentos bem ofensivos?

Mariana é produto desse meio. De um país que é racista mesmo quando o assunto são nordestinos falando sobre nordestinos. Nascemos dentro de uma cultura colonizada, onde por muitas vezes as pessoas tem vergonha de saber e assumir que a verdadeira identidade do povo brasileiro veio da África, dos índios e da mistura feita por europeus que transaram com escravos e índígenas.
Sabe aquela cena de Amor à Queima Roupa, onde Dennis Hooper diz para Christopher Walken que por mais italiano que seja, em algum ponto da árvore genealógica da família dele, um negro trepou com alguma mãe branca de um ancestral dele?
A disposição das coisas é bem essa. Nossa raça é uma orgia de espécies tão grande, que deveria ser crime federal inafiançável qualquer frase xenofóbica ou racista.




Mas isso não é o que acontece. Estão crucificando uma menina (que deve pagar pelas afirmações), que provavelmente não tem a mínima noção do alcance de suas palavras, pois é joguete dessa sociedade e politicagem vadia que mora ao lado, nessa terra internética. Não lembram-se de outros exemplos um pouco mais duros.
Esquecem do que acontece na vida cotidiana, de como essa sociedade foi construída em cima do racismo. Da xenofobia velada que existe quando uma pessoa de cor negra passa ao lado de uma branca e ela fica apreensiva, pois a hipótese de assalto passa pela sua cabeça. Esse tipo de comportamento está ligado ao involuntário, cravado dentro do cérebro do brasileiro médio através dos anos. Com novelas, piadas, governos.

Não adianta culpar apenas a menina, diante da catástrofe de um país que nega-se a assumir sua cultura negra. Onde os programas governamentais populistas são ofuscados por casos e mais casos de corrupção. Garanto que se o governo Lula não apresenta-se um dos maiores índices de corrupção da história (179 casos até 2009), não haveria essa discussão burra sobre o bolsa família. Do mesmo jeito que se o governo do PSDB aplicasse melhor o dinheiro recebido pelo governo federal, ninguém iria maldizer os nordestinos que recebem o auxílio.

Estão todos discutindo as raças. Hipócritas como a OAB do Estado de Pernambuco, que prefere agora que a mídia cobre com voracidade o caso, processar a menina à resolver o problema sobre os homicídios dentro do estado (2469 só esse ano). Um lugar que há quatro anos contabilizava o maior índice de mortes dessa categoria na União. E não é só a instituição, milhares de vociferantes apontam o dedo para Mayara, mas ninguém mexe um dedo contra a indiferença cotidiana. Ninguém rebelou-se quando a personagem da novela das oito negra e nordestina, realizava cenas onde a própria piada era racista. Não há mobilização populacional quando acontece uma cena na rua onde o branco caucasiano xinga o negro de filho da puta.

Existe uma comoção nacional quando existe a possibilidade de aparecer. Quando em frente ao Fórum brasileiros (nordestinos, paulistas, gaúchos, mineiros tal e etc) juntam-se para gritarem palavras de ordem contra condenados por assassinato. Existe mobilização para assistir jogos na Copa. O Anhangabaú lota e ninguém mais trabalha depois (brancos, negros, amarelos, azuis), nas eleições pedia-se um país mais vermelho ou azul e branco. Clama-se em um movimento neo-nazista uma São Paulo para os paulistas.

Na verdade nosso país é preto.
E quando vejo pessoas como Mayara e outros nesse mundo, sei que Deus nos odeia...