Muitas vezes a história tem o trejeito de descompensar o ritmo e construir um desaparecer de coisas que poderiam ter sido, deixando ao final do dia apenas cinzas e poluição. A música tem esse modo de operação agudo, como por exemplo aqui no Brasil, Wilson Simonal que era maldito, esquecido e depois ovacionado (tarde demais na minha ignóbil opinião), Os Mutantes que eram desconhecidos dentro do próprio país ou até Odair José, ícone do mais puro brega e influência de milhares dos chamados roqueiros indies nacionais. Memórias falhas dentro de uma sinapse que lateja falta de informação.
Mas isso não é adjetivo de alma apenas tupiniquim, lá fora onde as cores parecem mais lisérgicas e convidativas, também sofre-se dessa leve síndrome dos desaparecidos músicos políticos. E uma dessas figuras provém de um dos gêneros que mais conclamam seus heróis, o soul.
William Pulliman, nos anos 70 era também conhecido como DARONDO. Auto definia-se como cantor de soul e blues (costumava dizer que tinha um pouco dos dois) e em tempos de James Brown, ele era o cara que batia de frente com The Godfather. O músico inclusive chegou a abrir alguns shows para Brown e na época foi chamado de "o novo Sly Stone somado à Al Green". Nada ruim para quem gravara dois singles logo no início da carreira.
Também não era difícil se você morasse na região de São Francisco, topar com o cantor andando em seu cadillac. Estilo que marcou também sua carreira, o adjetivo pimp era ostentado pelo cidadão marrento e que fazia questão de ser desse jeito. Se você acha que o Snoopy Dog tem estilo, precisa com urgência ver as fotos de Darondo, assim como os vídeos de um programa de 1985 chamado The Penthouse Letters. E aí me diz se o Snoopy não é o filho perdido dele.
Mas (como sempre) após a gravação de três singles (um deles com a canção Legs que você ouve aqui), Darondo desapareceu e assim permaneceu por 25 anos. Inicia-se aí um culto pelas suas gravações, que começa a chamar atenção da cena na cidade de São Francisco. Principalmente depois que DJs locais garimpam versões raras e perdidas das canções.
Enquanto isso, o músico vivia confortavelmente e sua casa com a família. Quando questionado sobre o sumiço, apenas disse que parou pois não sentia vontade mais de gravar, pois fazia tudo por diversão e quando sentiu que ela estava indo pelos ralos do comércio, decidiu parar. Deixou seis canções espetaculares...
Esse redescobrimento rendeu tão bem que o músico apresentou-se no festival SXSW em 2009. Nem precisa lembrar que esse ano marcou também o show de ninguém menos que Daniel Johnston.
Existe uma compilação feita pelo DJ Gilles Peterson, chamada Giles Peterson Digs America, onde uma das melhores canções de Darondo está presente (Didn't I). Vale à pena (re) descobrir esse músico que como muitos outros precisou do tempo e do afastamento para ser reconhecido.
Darondo / LEGS by GDO2