A cena junto à carta era de desolação e desespero. Um homem de aproximadamente 45 anos com as órbitas perfuradas por dois lápis pretos número 2, balançava inerte pendurado em uma corda. Em seu pescoço o nó feito com precisão cirúrgica de quem passa horas estudando cada fibra do material e sabe exatamente em quais pontos aplicar a pressão necessária para que a cartilagam da traquéia fosse esfarelada em pequenos pedaços encontrados ao longo de seu esôfago. A marca do enforcamento indicava uma capacidade de acerto pontual aonde a corda deveria estar para completar a tarefa que foi iniciada com a perfuração ocular.
O homem vestia apenas uma samba-canção cinza e seu torso era bem construído. Suas mãos com marcas de cortes em seus dedos, indicavam uma vida de trabalho duro. Sinais e os calos afloravam como margaridas brilhantes em jardim numa tarde de primavera. Seu semblante era calmo em contraste com toda a tectônica dureza de seu corpo. Moldado em bronze bruto, seu peito parecia explodir em uma desesperada calma de quem sabe exatamente o que quer e por onde chegar. Um sorriso travado pela asfixia dava ares de paciência engessada e ácida, mostrando que a doce sensação do alívio em estado puro de alegria suicida estava pavimentada em todas as células sem oxigênio daquele cidadão sem documentos de indentificação.
Um criado mudo do lado direito da cama de solteiro, que estava com os lençóis banhados em suor que exalavam um aroma mórbido levado para todo o canto do quarto de número 1500. Carregado pelo vento de chuva que a madrugada traficava pela única janela entre aberta. O chão em madeira rústica e antiga com alguns detalhes desgastados ao redor dos pés da cama tinham cor de cana curtida por séculos e amparava mais a frente um espelho com os bordos decorados em prata barata onde o tempo se alojava em quase todos os reflexos das pessoas presentes. Pelas imagens era possível sentir o gosto obscuro de uma noite que provavelmente não iria terminar com a descoberta do cadáver.
No armário de roupas encostado na parede do lado esquerdo, próximo a janela entre aberta apenas um paletó azul e uma gravata negra. Pequenas partículas de poeira eram vistas descrevendo mosáicos paranóicos que se movimentavam em torno do cabide. A névoa sorria levemente com o canto de sua boca, entregando uma felicidade incabível e currando todas as frestas do armário empurrando para fora do quarto todo um resquício de alma que se fundia em tons de cinza com a garoa que lá fora escorria fétida por entre os bueiros cheios de água empoçada.
A carta foi colocada em um saco plástico que estava escrito evidência. E por segundos todos na sala pensavam que aquele nome colocado com uma fita adesiva em um saco de provas deveria mudar para pleonasmo...........
A carta:
" São Paulo, 17 de dezembro de 2009.
Esta carta é para a primeira pessoa que achar meu último resto de esperança em forma de conjunto de orgãos e tecidos.
Quem eu sou, não interessa. O que eu sou talvez. Mas o mais necessário saber é o que eu irei me tornar.........
Eu moro no Brasil. Nascido aqui. Não sou gringo nem fui descobridor português que estuprou a terra dos índios com crucifixos para fazer deles futuros seguidores da igreja Renascer. Sou apenas um pai de família que nesse dia resolveu tomar as rédeas da situação e não esperar mais a justiça divina.
Dessa vez eu vou usar minha mãos.........
E elas estão preparadas e adaptadas para essa tarefa. Esperei demais por esse momento e trabalhei de sol a sol para que esse dia chegasse. E hoje no meu 46º aniversário este é o presente que darei ao meu país e aos meus filhos. Cumpro hoje um dever cívico que deveria ser cobrado de toda a população. A capacidade de cuidar do seu país não é apenas dos políticos, mas sim minha e sua. Do legista do IML que estará tirando fotos de meu cadáver, até o presidente da república.
Eu nasci aqui e eu tenho responsabilidade por esta terra. E por pensar assim é que eu não posso concordar com nada disso que acontece nesses dias. Não posso querer que meus filhos cresçam em um lugar aonde as pessoas escolhidas para serem representantes de um nação toda escondam dinheiro dentro de meias, durmam com as consciências limpas e ainda rezem ao receberem dinheiro ilícito. Como qualquer traficante ou assassino, essas pessoas estão matando à longo prazo. Um prazo muito maior que as prestações das coisas que com meu suor comprei para tentar tirar toda uma família de dentro de um balde exalando excrementos e cheio de entremeios fétidos que se chama vida moderna.
Não é justo que esses senhores feudais de gravata parem de trabalhar antes do final de ano com o intuito de manter o sistema de corrupção funcionando. Tornar tudo um emaranhado de acusações sem eco, que se perdem depois do Carnaval e que a Copa Do Mundo vai apagar. Não consigo viver em um lugar assim, onde pessoas que deveriam pagar por seus crimes contra o patrimônio público, andam de gravatas caras e conseguem manter a cabeça erguida com orgulho por serem apenas uma qualidade mais culta de bandidos.
Insuportável olhar para uma criança em um sinal pedindo migalhas de atenção embaladas em moedas de vinte e cinco centavos e não ter nem ao menos uma nota em dó. Por isso hoje eu digo basta!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Quem encontrar o resto do meu corpo vai perceber que minhas órbitas estão perfuradas. Peço uma licença poética exalada por últimos segundos para que me torne tão cego quanto a justiça deve ser. Furo meus olhos porque desse momento em diante não verei mais raça, religião ou movimentos financeiros. E esta cegueira forçada não será jamais equivalente com aquela que convivi durante minha vida toda. O ato de não enxergar minhas próprias apatias terrenas vivas e incandescentes.
Mas hoje eu sou a cria do oitavo dia. Eu sou o chamado de clemência de um povo sem história e sem futuro. Hoje eu me torno um só com meu desejo. Todos os anjos com asas negras dentro do mar relutante e calmo me acompanharão. Meu suicídio é proposital, assim não poderei ir ao céu muito menos ser aceito como pária do inferno. Peço ao demônio que me esqueça e a Deus que não me ampare. Hoje eu sou mais do que um simples amontoado de orgãos fisiologicamente colocados em harmonia. Sou a velocidade de resposta virtual.
Vagarei pela face da terra mais podre. Minha terra natal será meu limbo e meu espírito morto-vivo de energia virulenta vai vasculhar cada casamata por onde se escondem os ratos e de suas almas me alimentarei. Em seus pesadelos mais profundos minha alma terá morada. Mostrarei a todos senadores, deputados e afins como é acordar e viver um pesadelo movido pela sua própria vida.
E quando todos eles estiverem apavorados ao ponto de não conseguirem mais sair de dentro de suas casas, ceifarei o resto de suas almas.
Hoje me torno o primeiro terrorista espírita da humanidade. Não haverão traços de bombas, nem mortes de crianças inocentes ou pessoas em prédios de escritórios, apenas os culpados pagarão.
Meu corpo já não mais existe, há sim uma vontade geometricamente crescente de inundar a capital de medo do desconhecido.................".
Em um esritório escuro por onde a luz não consegue vencer as duras paredes cheias de medo e pavor, a quilômetros de distância do centro da cidade de São Paulo na capital federal, José Roberto A. sente sua carótida ser esmagada por duas mãos cheias de marcas e calos como margaridas em um jardim na primavera. Uma voz sem rosto e apenas uma respiração em sua nuca lhe diz quase que em um sussurro:
"Você esquece tão cedo!!!!!!"