18 de dezembro de 2009


Em tempos internéticos onde a banda mais visitada no myspace no Brasil é uma que se chama Cine e o mais esperado filme do ano é um amontoado de efeitos especiais sem um roteiro decente, é sempre bom dar uma olhada para alguns anos atrás. Lugares que sabidamente evocam a necessidade de se conhecer o sempre novo velho, pelo puro simples ato de manter a sua cabeça em ordem.
E dentro de uma dessas criptas sagradas, é que se encontra o estertor final dos PIXIES, o disco que ficou conhecido apenas como o último, mas na verdade foi a pedra filosofal de onde nasceu quase tudo o que se viu um termos de música independente que o mundo assistiu depois.

TROMPE LE MONDE é de 1991. Nesse ano os filhos de Massachusetts já haviam sido opening act da turnê do U2, lançado o seminal Doolittle e se consolidado como uma das mais barulhentas e sensacionais bandas de seu tempo. As letras sobre alienígenas, religião, doenças mentais e incesto já eram as marcas consagradas, assim como as melodias pesadas e grudentas que os Pixies produziam, que eram exaustivamente copiadas por quase todos os músicos iniciantes dos anos 90 (leia-se aí bandas grunge ou indies).
Não é de graça que Smells Like Teen Spirit do Nirvana é segundo o próprio Cobain, uma tentativa quase que desesperada de fazer algo do calibre dos Pixies.
Mas no mesmo ano de 1991, a banda já não era a mesma no quesito amizade entre os integrantes. Black Francis, Kim Deal, Joey Santiago e Dave Lovering mostravam sinais de que nem mais um hit como Here´s Comes Your Man salvaria a relação que quase sempre foi conturbada entre a porra louquice de Deal e a sistemática de Francis.

Mas como todo bom gigante abatido dentro do campo de batalha, a banda em um movimento de picardia barulhenta lançou o disco que marcaria o fim de uma era dentro da música. E a importância de Trompe Le Monde é muito menos pelo seu sucesso e muito mais pela história.
O início da década de 90 ainda era terreno por onde andavam falsos deuses roqueiros fantasiados com permanentes encaracolados nas cabeças e lápis de olhos azuis marcando um rosto mais do que parecido com qualquer boneca Barbie. Terreno arenoso e movediço onde apenas alguns poucos ousavam desafiar. Os Pixies já estavam mais do que avançados no terreno inimigo.
Obrigatório lembrar que nesses tempos onde o rock estava ameaçado de virar um dinossauro manequim, a má vontade com as bandas maquiadas já estava em fase de repúdio. E uma onda de mudança devastaria a música em poucos meses. Os tempos eram de olho de furacão e o barulho que viria depois nunca mais deixaria as notas pelo meio do caminho. Mas antes da explosão do grunge com as bandas de Seatlle e o Nirvana, as bandas indie já rasgavam o útero podre do rock.
A cabeça do monstro parido pelas arredias veias de seis cordas tem seus genes cravados todos em Trompe Le Monde.
O título do que muitos consideram o primeiro trabalho solo de Black, veio de uma possível expressão francesa que significa "engane o mundo". E suspeitas de que o último disco dos Pixies marcava o início da carreira solo de seu fundador foram ainda mais evidenciadas depois que Francis, em seus dois primeiros álbuns solo deixou clara a vocação de ficção científica que em Trompe escorria pelos poros. Outra evidência nítida de rompimento dentro do quarteto era a quase zero participação de Kim Deal nos vocais seguido bem de perto com o fato de que apenas uma música não era de autoria de Francis Black: uma cover do Jesus And Mary Chain.

TROMPE LE MONDE, que abre o suspiro final dos Pixies já tem distorção de sobra para pelo menos mais dos discos. Os vocais em quase falsete dessa canção com fraseados intensos de bateria e guitarras derretidas, mostram o resumo de um minuto e quarenta e seis segundos do que a banda foi dentro da história do rock. Rápida e ponto final, apenas apara as arestas da pancadaria que começaria já nas primeiras notas de PLANET SOUND.
E é nessa canção que os seres reptilianos de outras dimensões começam a dar as caras no disco. A estória de um alienígena que desce em nosso planeta é como uma perseguição entre dois caças interestelares com direito a artilharia pesada de Kim Deal mostrando um peso tal em seus dedos, que muitas vezes é tenebrosa a sensação de que em qualquer momento o baixo vai sair pelas caixas de som e decapitar sua cabeça sem piedade.
A melodia mais doce (do modo Pixies de fazer canções pop) de ALEC EIFFEL, não se esconde atrás dos sorrisos de quem ouve a canção pela primeira vez. É sim uma aula de como se faz rock para dançar. Com a clara influência na melodia dos Ramones, essa música se fosse lançada hoje em qualquer banda considerada "muderninha" seria considerada a canção do ano.
Melodia pegajosa? Confere.
Teclados esquisitos? Confere.
Distorção no refrão? Confere.
Rock para dançar em pistas? Confere.
Muito antes dos Strokes e dos Arctic Monkeys, os Pixies já tinham escrito a cartilha do que seria hoje considerado "muderninho".









THE SAD PUNK até que engana no início, porque a introdução da bateria lembra muito as músicas das bandas de space-rock. Mas é apenas uma questão de milésimos de segundos até que seu cerebelo seja submetido à uma pancadaria que despenca em gritos alucinados. Uma das maestrias dos Pixies sempre foi fazer canções onde quem ouvia era deslocado por quilômetros e não mais que de repente estacionado em uma calmaria nervosa, e essa música é assim. Atropelamento de trem seguido de afagos maternos embalados em canção de ninar de terror.

Se Surfer Rosa é fundamental para se entender o que foi o rock dos anos 90, HEAD ON do Jesus And Mary Chain gravada pelos Pixies é pedra fundamental para quem quiser ter uma banda que queira gravar uma cover. Suja, rápida e completamente diferente da original é força propulsora para que a audição do disco se torne uma esperiência sedimentada em bases de riffs explosivos. Por mais apelo pop que os Pixies tenham colocado dentro dessa cover, a guitarra estridentes e o desespero colocado por Francis nos vocais elevam o jogo à um patamar pouco alcançável por muitas bandas que se metem a fazer uma canção assim.
Muito mais original do que qualquer bandacine por aí........
Quando você escuta U-MASS uma sensação de já ouvi isso antes abala um pouco a confiabilidade do disco. Mas quando você lembra o ano de lançamento da bolacha essa sensação é de que alguém depois dos Pixies já fez um riff exatamente igual ao deles. E essa impressão não é falsa. EMF com Unbelivable e Modest Mouse com Float On, são "chupadas" dessa faixa dos Pixies. O riff grudento feito para embalar a letra sarcástica sobre a juventude universitária americana (público dos Pixies), e um refrão explosivo na medida certa para gastar a faringe de tanto cantar (It´s educationallllllllll!!!!!!!!!) mostram com quantas notas se faz uma canção imortal.
A quase dobradinha PALACE OF THE BRINE / LETTER TO MEMPHIS, funcionam como uma canção só. A primeira com direito a mais um refrão duplicado pela beleza dos vocais de Kim (que pouco aparece nesse disco), faz uma introdução mais tranquila para a pancadaria lisérgica que vem com Letter To Memphis. Uma canção mais puxada para o hard-rock do que para o independente, mas com uma parede de tijolos atirada em sua cabeça através das distorções produzidas por Santiago. É como sentir a vibração de um esmeril pulsando a milhões de rotações em seu ouvido.
BIRD DREAM OF THE OLYMPUS MONS, é propositalmente vagarosa. Mais uma vez a britadeira Kim Deal marca a força da distorção que segue aos vocais quase messiânicos de Francis. Os teclados são apenas uma nuance que envolve uma poeira cósmica de destroços melancólicos dessa canção.
Mais espaço e uma nova camada de aliens em SPACE (I BELIEVE IN). O mais bacana dessa canção nem é falar sobre como a construção perfeita dela em camadas diferentes que colidem em um mosaico de pólvora perfeita. Mas sim prestar atenção ao detalhe de que existe nessa música o gene do que foi feito alguns anos depois por uma outra banda fantástica que se chama Faith No More. A bateria e a percussão tem uma levada funkyadélica presente nas melhores faixas da banda de Patton. E a construção de vocais principais e backings vocals gritados ao fundo estão presentes por exemplo em A Small Victory do aclamado Angel Dust. Nesse momento já é possível ver a cabeça do monstro quase que inteiramente fora da abertura cesariana.









A primeira nota da bateria de SUBBACULTCHA, os Raimundos reproduziram anos depois em I Saw You Saying. Mas as comparações acabam nessa nota.
Porque logo após esse começo mórbido e a sequência de esfriar a espinha da primeira parte da música, o riff autista e a serra elétrica de seis cordas que a acompanha pesam como lava petrificada transformada em rocha a cada virada de bateria. Hipnótica e falada é talvez a melhor música do disco, com uma melodia estraçalhada e pulsante.









DISTANCE EQUALS TIMES TIME, é assimétrica. Gritada e cantada em partes iguais tem a medida certa e o tempo certo. E precisa de mais alguma coisa???????
LOVELY DAY é a visão sessão da tarde dos Pixies. Tem a levada punk da banda , mas sem perder a ternura mórbida. Irmã separada ao nascer de Head On, com ecos de surf rock. Lado B de primeira linha em qualquer EP que se preze.
Definir MOTORWAY TO ROSWELL é uma tarefa absolutamente ingrata. Seja pela guitarra zunindo em seus ouvidos médios ou pelo piano com nuances de cabaret misturado com a qualidade épica dessa canção. Ela vai começando aos poucos e se tornando um ciclo cheio de sensações melodicamente confusas e deturpadas, até implodir novamente no piano. Como se fosse possível presenciar uma ataque epilético seguido de um sono profundo em forma de notas musicais.
THE NAVAJO KNOWS é um ato final com os pés inteiramente sedimentados nos anos 80. A fluência dançante dessa canção é tudo aquilo que o Franz Ferdinand conseguiu fazer depois. Sonoridade macabra com guitarras novamente em ritmo de surf. É abafada e mínima como se a banda estivesse realmente ali mostrando o fim do tunel depois da luz.

Trompe le Monde é considerado pelos "entendidos", como o pior disco dos Pixies. Todo mundo torceu o nariz pois não era clássico como Doolittle nem seminal como Surfer Rosa.
Na verdade se o disco de estréia da banda mostrou o que fazer nos anos 90, o disco final dos Pixies fez nascer de vez uma geração de caras com camisas de flanela e calças jeans rasgadas e ainda por cima deu toda a carga genética para que o rock indie dos anos 2000 pudesse trilhar o caminho sem ter que tropeçar nas pedras.
Uma banda clássica não tem discos ruins ou melhores, ela tem discos que escrevem a história. E os Pixies tem quatro.
E Trompe Le Monde é um desses pilares.........