Nossas vidas possuem realidades diferentes.Memórias em sépia da nossa infância, se confundem com a vida diária dentro de uma metrópolis negra e cinza. Muitas vezes a única coloração vem de um pompom avermelhado em cima de nosso kipá cotidiano.
Separamos as coisas por categorias, que podem variar dos anos à quantidades de unhas cortadas durante esses períodos de tempo, até dividir pessoas por categorias inimagináveis. A lógica do mundo muita vezes não existe dentro de nossa própria, o que faz com que tremores se formem como aquele dedo que submerge dentro de um balde cheio de água, formando ondas que se espalham vagarosamente mas com uma força nunca detectada pelo mais poderoso caça metais.
Pessoas são estranhas para mim, assim como para Max, personagem da animação esquecida pelo Oscar MARY & MAX.
O maior problema que temos com elas, na verdade é não ser capaz de entender qual a lógica das pessoas. Não entender porque pessoas que permanecem em frente à um Fórum usando de violência verbal e física contra outros semelhantes, não capazes de lutar pelos seus direitos mais básicos. Do mesmo jeito que Max não entende o porque dos fumantes além de se matarem com o cigarro, prejudicarem o ambiente jogando bitucas na rua.
Max ( dublado pelo camaleônico Phillip Seymour Hoffman, que pode ainda esse ano ganhar o papel do gênio Daniel Johnston nos cinemas), é um homem que vive dentro de um mundo cinza. Cercado por números e acertos milimétricos dentro de uma vida cheia de passagens contadas por fatos insignificantes. Não possui traquejos socias e a possibilidade de tocar em outro ser humano parece ser capaz de desencadear reações que transportam seus ossos fora do perímetro epidérmico. Suores e ansiedade dentro de uma garrafa de vinho cheia de líquido semi morto e cinza fúcsia. Mas Max (assim como eu), não é uma pessoa triste. Deprimido seria um vernáculo mais belo e mais preciso dentro desse universo.
Por outro lado do mesmo planeta, existe a possibilidade de outra cor. Nem que essa cor seja a sépia cercada de algumas diferenças mínimas nas fontes que são usadas na descrição desse mundo, onde mora a garotinha Mary. Oito anos e quilômetros, separam sua vida da conturbada e aspergiana cabeça de Max. Em comum as dúvidas sobre como funciona o mundo ao seu redor e as pessoas estranhas que cercam esses dois mundos.Na casa de Mary a mãe alcoólatra egocêntrica e seu pai ausente, não conseguem responder aos questionamentos da cabeça dela sobre a vida. E assim como Max, Mary é solitária.
Grandes histórias de amor foram marcadas pelas cartas.Muitas foram contadas e recontadas por meio de pedaços de papel e tinta. Formas difusas de encontros onde as pessoas não conseguem enxergar os rostos, mas nem por isso deixam de entender o funcionamento de todos os entrecantos da alma.Assim então começa a amizade entre esses dois personagens que por mais distantes, ainda guardam dentro de si uma imensa vontade por coisas doces. A amargura encaixada milimétricamente na vida desses dois, é mostrada como oposto perfeito para a amizade que nasce em forma de cachorros quentes de chocolates e cintilares de um anel de humor
Falar de um filme de animação, sem levar em conta as técnicas utilizadas parece até um sacrilégio, ou falta de jeito escriturário. Mas a questão nem é discutir se a animação feita em massinhas pela equipe do diretor Adam Elliott, que já havia sido premiado com o Oscar anteriormente pelo curta de animação Harvey Krumpt é boa. As técnicas são tão eficientes e produzidas com maestria, que dificilmente conseguiremos ver seres teoricamente inanimados com expressões tão humanas e certeiras. Fazer uma animação onde a maioria dos personagens possuem dramas internos que se refletem a cada expressão de rosto, requer muito mais talento do que o usual. E isso é mostrado quadro a quadro durante os 90 minutos de filme.
A amizade dos dois personagens cresce de acordo com a passagem do tempo. O diretor chega até a tocar em assuntos mais delicados como a pedofilia, mas de uma maneira que essa idéia seja uma visão a ser descartada. E a maneira que o diretor faz isso é sutil e bela.
Mas muito maior do que apenas um filme sobre amizade, Mary & Max é uma animação sobre os conflitos do ser humano dentro de um mundo, que por mais vintage a época ou maior a tecnologia usada na construção de bonecos mais humanos, nada será maior que a capaciade de encontrar sentimentos em lugares onde apenas ventos secos e poluição habitavam.
O filme não mostra apenas o valor de uma amizade simples, mostra como é formar um outro patamar de humanismo dentro de seres disformes. Dentro de uma suicída em potencial, a ação de recolher todas as lágrimas de seu rosto uma por uma. Engarrafa-las e enviar todas para o amigo que não é capaz de chorar as suas próprias. Isso vai além do que se convenciona chamar de vida. Isso é batimento necessário de coração.Mary & Max tem isso sobrando.....
Eu ainda não entendi o porque desse filme não ter explodido dentro do contexto. Mais uma vez parece que os seres humanos preferem aventuras politicóides sobre soldados ou seres azuis do que simples palavras escritas em pedaços de papel de pão. Mas que contém muito mais vida do que uma árvore com conexões USB.
Se você ainda se lembra como é que seu coração bate, ou sente o vento bater em seu rosto descrevendo uma espiral mágica de vida, então não deixe de assistir à esse filme. Provavelmente se um dia seus filhos perguntarem coisas sobre valores nessa vida, você já poderá dizer que em um lugar onde as maravilhosas máquinas de escrever abriam peitos cheios de sentimentos e carinho, existem as respostas......