Hoje eu não quero falar sobre pessoas que vão para um show em uma chopperia e acham que estão em um bar com música ao vivo.Hoje eu não vou contradizer quantas palavras em alemão você pode falar.
Hoje eu não quero me concentrar em quantas pessoas vão esbarrar em mim à caminho da cerveja, aliás hoje eu não quero falar sobre a cerveja.
Quero dizer coisas sobre veias dilaceradas por um vácuo doído dentro do peito, que durante a brisa de uma sacada se transforma em algo material e palpável. Algo que escorre por entre seu rosto despido de máscaras de proteção contra radioatividade humana.
Vou mostrar vasos incandescentes que transtornam o torso mais pesado e espatifam pelo ar em danças fantasmagóricas e idiomas pueris. Saber que dentro de uma sexta feira cabem arrependimento, tristeza, massacre e redenção da alma.
E uma dia desses alguém ainda vai dizer que na noite aquecida pela falta de ventilação latente, por dentro de tubos e ductos intelectualizados de marasmo, um senhor com um quadril desconectado do resto do corpo e uma voz sussurrada transcendeu os barulhos terrenos.
Assistir o show de Jonathan Richman no Sesc Pompéia nessa sexta foi no mínimo aula de interação. Daquelas que não saem da sua memória por muito tempo.
Mesmo com o esforçado e competente grupo de abertura, pessoas ainda se dissociavam da idéia de um show de tamanha lenda viva. Mas não eram necessários argumentos ou dissertações erráticas sobre comportamento, pois assim que o picadeiro se iluminou algo de mágico aconteceu....Transe em primeiro instante e aceitação que sim seu corpo estava sendo levado para um único e viciante caminho, que se costuma chamar felicidade. Um violão e a bateria tocada com as mãos que parecem esperar o momento certo para terminarem o imposto de renda. Mas que de repente batucam no couro cru em pulso de vida. O ar blasé de Tommy Larkins é apenas mais uma rodada por entre o balcão.
O dono do jogo se coloca atrás do microfone e durante uma hora e meia se funde com o violão. Satisfeito parece em transe encontrar com cada olhar que percorria sua presença. Pessoas agora enfileiradas pela hipnose retribuem sorrisos, gestos e credos. Ele por sua vez, mesmo não lembrando fisicamente aquele simpático cantor que criava odes à Mary, retribuia tudo com mais sorrisos e mais olhares nervosamente doces. A cada música, a cada acorde, aquele vácuo ia sendo tomado, centímetro por centímetro. Cada amargura sendo fuzilada por canções cantadas em idiomas de Babel e Jonathan deixava pedaços de felicidade polinizarem cada corpo presente no Sesc.
E tudo se fez materializado em um único momento. Durante os quase oito minutos de I Was Dancing In The Lesbian Bar, palco a artista eram uma coisa só. Não havia mais divisórias, palmas e danças circunflexas esbarravam-se a aos mares. Braços se tornaram pernas e quadris que lembravam um Iggy Pop epilético. Mas não havia a mínima necessidade de legendas para saber qual era a música, a felicidade enfim havia levado o vácuo embora.......Ao final de um show onde não havia início nem fim nas canções e sim um continuo espetáculo onde os acordes indomáveis tomavam as rédeas, um povo de alma lavada e sorriso aberto deixava as escaradarias, onde o chão é feito de asfalto queimado.
Jonathan Richman deveria ser um nome a ser considerado com muito gosto para um Nobel da Paz, afinal de contas sublimar vácuos de uma sexta feira cheia de feridas tristes e tranforma-lo em alegria concreta é tarefa para uma alma transgressora e sublime........
