Qual a importância de uma banda comandada por um senhor de 53 anos, em um mundo onde tudo é rápido e servil demais aos caprichos de textos de velocidades corroídas pela mesmice???O que se imagina é que a aspereza dela seja muito mais forte do que a passagem do tempo onde ela vive. Mas com o THE FALL isso é verdadeiro apenas se aplicarmos o conceito ao único integrante que permanece intacto até hoje, o líder e vocalista MARK E. SMITH.
O The Fall começou em 1976 e provelmente metade da banda que toca hoje com Mark não havia nem nascido. O nome da banda saiu de um livro de Aberto Camus, mas antes....
1976 foi o ano do famoso show dos Ramones realizado no dia 4 de julho na Inglaterra. Como todo fã gosto de imaginar que os flautistas mágicos do rock do mesmo jeito que fizeram nos Estados Unidos, onde a cada cidade que os via tocar uma nova banda nascia, também na Inglaterra o mesmo aconteceu. Mas isso não é apenas delírio cerebral, pois até a mão direita vermelha de Joe Strummer atesta que se não fosse aquele show, nada teria acontecido na Inglaterra.
Mas voltando......
Esse ano marcou esse início de banda, que já vinha tocando por Manchester. E o que parecia ser mais uma banda de punk ou pós alfinete de fralda nas narinas, acabou se transformando em uma fábrica de discos. Uma pequena idéia: o The Fall até 2010 tinha gravado 28 discos de estúdio. Além de uma quantidade que beira três vezes mais em relação aos discos ao vivo.
Mas como sempre acontece com os gênios, a banda nunca teve sucesso comercial, a não ser alguns hits mais comerciais na década de oitenta. E nem é a questão de se criticar a maneira com que o The Fall costumava compor suas canção, que ocorriam em reuniões onde os integrantes liam suas partes e tomavam drogas enquanto juntavam todos os pedaços. Nem é preciso perguntar se esse método pouco ortodoxo mexeu com o som, afinal de contas as duas maiores características eram a repetição exaustiva e a crueza. Existe inclusive a famosa canção-manifesto Repetition, que já diz tudo logo no título.
Essas duas características já podem ser notadas na canção que abre o mais recente trabalho da banda, OUR FUTURE YOUR CLUTTER.
O.F.Y.C SHOWCASE é um emaranhado de notas pesadas e rasgadas até que não se sinta mais diferença entre cada acorde e a hipnose dentro de seu ouvido. A letra falada e o refrão exaustivamente repetido não dão uma sensação de chatice. Existe aí uma vontade enorme da banda, liderada por um senhor de 53 anos, mostrar que o peso não se perde com o tempo. Mas sim recicla-se e transforma-se em voltagem voltaireana poderosa.
BURY PTS 1 & 3 na verdade são realmente três músicas em uma só. O início completamente abafado e densamente sombrio da voz de Mark faz como que o som da banda seja cada vez mais atual e necessário. Ainda mais sabendo que os bons discos de rock esse ano estão cada vez mais rarefeitos. E essa canção que começa abafada vai aos poucos se libertando e tornando-se uma parede sonora pesada e cheia de mudanças de riffs martelados acompanhados por um rap hippie. A melhor memória musical desse tipo de tempo é You And Whose Army do Radiohead, onde a canção começa com um clima de torturado e passa a ser manifesto feito com uma garganta que grita por liberdade. O The Fall faz a mesma coisa, mas ao invés de uma voz, a música deixa a impressão que uma divisão toda de Navarone explodiu seus canhões em função da liberdade das guitarras.
As músicas são em pequeno número (oito ao todo) e seis delas não tem menos que cinco minutos, mas como em MEXICO WAX SOLVENT o tempo aqui no disco é relativo. Mesmo quando a bateria toca o mesmo compasso das canções anteriores, uma aura de low-fi metálica invade seus ouvidos. Como se uma irmandade de martelos marchasse por entre as ruas gritando palavras de ordem metafórica e cortante. Os teclados de Elena Poulou dão uma certa densidade de areia movediça que te puxa para a canção e fica quase impossível escapar ileso.
As músicas são em pequeno número (oito ao todo) e seis delas não tem menos que cinco minutos, mas como em MEXICO WAX SOLVENT o tempo aqui no disco é relativo. Mesmo quando a bateria toca o mesmo compasso das canções anteriores, uma aura de low-fi metálica invade seus ouvidos. Como se uma irmandade de martelos marchasse por entre as ruas gritando palavras de ordem metafórica e cortante. Os teclados de Elena Poulou dão uma certa densidade de areia movediça que te puxa para a canção e fica quase impossível escapar ileso.
HOT CAKE é o single do disco, não pela canção mas pelo tempo que ela dura. O baixo dessa música deve ser ensurdecedor quando tocado ao vivo, porque a impressão de que o intrumento está tomando uma surra nos moldes de Myke Tyson é inerente. Backing vocals vindo da mais profunda lisergia com uma guitarra que é pesada e precisa. Nesse momento o disco te faz correr contra uma tempestade de raios ácidos.Y.F.O.C. SLIPPY FLOOR é a resposta para a música de abertura. Uma epopéia de sete minutos e quarenta e um segundos de ritmo hipnótico onde mais uma vez o baixo dá as cartas. Não existe variação, muito menos apliques esteriotipados de virtuoses. Apenas drásticas andanças diferenciadas no peso, hora variando da artilharia de concreto outras em direção à uma parede sonora. O final da canção é como um trem folk que vai freando aos poucos e chega a deixar o gosto da velocidade em sua boca.
CHINO é uma das mais fantasmagóricas músicas de rock que já se ouviu. A banda mostra toda a influência que deixou para milhares de outras que vieram depois. Não será de graça que nesse momento Bauhaus, Jesus and Mary Chain ou NIN irão aparecer como imagens dentro de seu cérebro. Um surf music vindo de portais infernais derretidos em chumbo grosso e quente que aos poucos transforma seu corpo todo em estrutura aquecida e amalgamada com o calor. Se existisse um circo vindo das profundezas, essa música seria a trilha de abertura.
FUNNEL OF LOVE mostra que o Fall é obrigatório, mesmo quando faz uma cover. Porque muitas das bandas que tentam fazer uma bela canção de pop rock sempre caem na armadilha fácil do açucarado mundo dos ritmos fáceis. O que no caso dessa canção não acontece, na verdade a faixa que termina essa caminhada ao lado de uma exército de vergalhões de ferro é a receita perfeita de como uma grande canção de rock deve ser. Peso, diversão acompanhada de uma letra estranha e uma bateria desenfrada.
O The Fall com esse disco mostra que fazer bem uma coisa por 34 anos não quer dizer que você está se repetindo e não tem saída. Mas que ainda não apareceu ninguém que seja capaz de usar as mesmas armas e ser tão preciso e acachapante quanto. Por mais idade que Mark Smith tenha, ele e sua banda continuam atuais e primordiais.
A banda que todo mundo insiste em esquecer, fez mais um disco memorável.......
A banda que todo mundo insiste em esquecer, fez mais um disco memorável.......