12 de maio de 2010

GD 39: OS ESQUECIDOS

Imagine a seguinte situação:
Você tocando em uma banda que logo no primeiro disco recebe críticas ótimas, assina um contrato com uma grande gravadora e desenvolve uma boa base de fãs ingleses. Tudo completo, não é verdade????

Mas parece que a história nunca apresenta lógica dentro da música, ou a lógica da música é ser impiedosa atemporalmente na mesma medida em que é generosa com o depois. Mas o rock é a coisa mais ilógica que existe, então essa filosofia sobre o tempo é só manobra masturbatória mental. E o nenhum desses conceitos aplica-se à essa banda que tem finalmente a sua história contada por eles mesmos. Um trio de Boston que mudou a maneira de se ouvir e ver a música de uma época, mas muito além disso conseguiu nascer, tornar-se um gigante insandecido e terminar antes de se tornar uma caricatura.

A história do GALAXIE 500 foi contada como uma biografia em forma de entrevista feita por Mike MacGonical, no site da publicação virtual mais seguida no mundo da música, a Pichtfork.
Uma história que começou nos tempos de colégio, em um encontro entre Damon Krukowski, Naomi Yang e Dean Wareham. O ano era 1978, e esses três tinham em comum o gosto por andar junto das pessoas que gostavam de teatro e punk rock. Depois do colégio Damon e Dean entraram em Harvard e Naomi fazia faculdade de arquitetura e artes. Os dois meninos formaram o que seria o centro genético do Galaxy, a banda Speedy and the Castanets. Nesse meio tempo Naomi e Damon começam um namoro e ela junta-se ao grupo dos Casnets. E nas palavras do próprio Damon, quando Naomi entrou para a banda todas as coisas que eles estavam fazendo começaram a dar certo.


O termo todas as coisas no caso do Galaxie 500, pode ser entendido como o seguinte. A cena de onde a banda surgiu no meio dos anos 80 era povoada por bandas de heavy metal (principalmente a cidade natal dos três, Boston), e o hardcore rock é intenso e com pouco espaço para algo mais nerd, como o trio fazia. Tanto é que as primeiras tentativas da banda entregar seu material em gravadoras como por exemplo a Taang, recebia respostas como a que Marc Alghini deu:
Que eles estavam jogando dinheiro fora entregando fitas em gravadoras relacionadas com o heavy metal.

E por serem diferentes pois não tocavam com as paredes sonoras do Sonic Youth e mesmo tendo uma linha de baixo poderosa, mas longe da praia do New Order, a banda continuava tentando achar seu caminho. E ele foi mais facilmente descoberto quando o produtor Kramer ouviu a banda pela primeira vez. Mesmo ele achando que o trio era completamente retardado por tocar tão devagar e com apenas um acorde......
Muito antes do termo low-fi explodir como religião dos indies ou o Pavement inaugurar o gênero com Slanted & Enchanted, o Galaxy 500 fundou uma construção sonora baseada em três pilares:

-um centro nervoso formado pelo baixo de Naomi, que tocava como se seus dedos fossem fundidos com as cordas tamanha a densidade do instrumento, que propositalmente era colocado em volume máximo. Em todas as músicas do G500 uma coisa que se produz é essa onda gigante de duas cordas tocadas como se não houvesse amanhã.

-as guitarras de Dean, por mais que soassem gigantes, eram na verdade um aspecto muito mais cru do que pode imaginar. Na gravação do primeiro disco, a banda tinha tão poucas opções de equipamento e instrumentos, que tudo tinha que ser levado ao melhor com menos. Então todo aquele estrago nos amplificadores que as canções fazem, na verdade é uma simplicidade levada dentro dos limites da maestria.

-uma bateria que simplesmente estava lá. Quando você ouve qualquer música da banda a sensação é essa: um baixo violento marcando à frente, uma parede de guitarras que explodem e uma bateria que segura toda a onda lá atrás. O som deles jamais seria o mesmo sem a precisão de Damon.

Tudo isso tocado com uma profundidade de alma que faz a cada audição sua espinha gelar. A remasterização do último disco da banda (THIS IS OUR MUSIC) é a prova disso tudo. Visceral, lascerante e de uma beleza ímpar. Os acordes de guitarra são como duas cavidades coronarianas pulsando eletricidade e todas as canções são épicas.


O Galaxie 500 lançou três discos, vendeu milhares de cópias e mesmo assim sempre é lembrado por ter sido deixado de lado no seu tempo. A palavra mais comum quando se descreve a banda é esquecidos. O que se não é uma mentira completa, está longada verdade, afinal de contas a banda terminou quando estava no auge de popularidade e começando a ganhar mais dinheiro. Isso sem contar o fato de que John Peel da BBC de Londres os venerava. E isso dentro do mundo da música alternativa é como ser o escolhido. E uma outra característica que fez a banda se tornar memorável é o fato de que nunca fizeram shows gigantescos.
Mas nem a admiração pública do Sonic Youth, salvou a banda das lutas internas que tomaram cada vez mais espaço e fizeram com que passassem a maioria do tempo lutando para não acabar. Até que em 1991 Dean decidiu sair e nenhum deles querem saber de reunião (pelo menos por enquanto).
Uma coisa é certa, o Galaxie 500 com seus poucos discos foi capaz de além de influenciar muita coisa. Por exemplo, o que está acontecendo em Los Angeles e Sheffield atualmente (é incrível olhar para milhares de bandas desses dois lugares e notar a semelhança dos sons), além de definir uma patamar de beleza e técnica que dificilmente será alcançado por qualquer pretendente a novo rei do low-fi. Se o Pavement é uma banda genial do gênero, o Galaxy 500 é o mágico capaz de transformar o mais simples fio em ouro puro e octacubano. E tudo pode se resumir em uma frase da cantora Liz Phair, em uma canção de sua primeira demo: "Eu me sentia como em um clip do Galaxy 500"


Leia abaixo alguns trechos da entrevista:

Kramer: "On Fire, é uma obra-prima. Eu amo o jeito que eles capturaram o sentido de uma saudade, um desespero de amor e alegria, foi uma inovação - a maneira como a música realmente combinava com a letra."

Naomi Yang: "Fazer On Fire foi uma experiência muito feliz. Acho que estávamos em um ponto onde éramos realizados como músicos o suficiente para jogarmos o que tínhamos em nossa cabeça para o disco. Havia um sentimento geral otimista sobre os rumos da banda e nós estávamos recebendo críticas positivas. Foi muito divertido e as possibilidades pareciam infinitas."
" A banda era como uma estrela de cinema ou um músico que morreu jovem - parte da mística foi que nós nunca tivemos a chance de envelhecer".

Damon Krukowski: "O baixo era o centro físico da banda, do meu ponto de vista atrás da bateria. Guitarra em cima; bateria na parte inferior; baixo no meio. Tudo pendurado fora do tom. Eu costumava manter o baixo tão alto no meu monitor, que era quase tudo o que eu ouvia quando tocamos ao vivo."

Para ler a biografia completa clica aqui.