8 de junho de 2010

GD 43 O COMEÇO DO FIM DO MUNDO

Existe sim um grande ranço para com o novo rock nacional. A pasteurização mórbida em forma de roupas coloridas e rostos alegres que parecem sair de uma fábrica, onde sua linha de montagem está sob o comando de três chimpanzés trôpegos.
Existem aí então duas formas de se pensar. A primeira linha demanda uma extrema má vontade de nosso cérebro com essas bandas novas, que é esboçada nos comentários mordazes de como essas novas caras são apenas rostos vazios dentro de uma nuvem de inércia sônica oca. As bandas são realmente ruins porque não tem nada que não seja mastigado e regurgitado pelas mãos de um produtor fazedor de acéfalas claves de sol.
Mas esse tipo de comentário abre o preceito do pré-conceito e ter alguma opinião baseada no simples fato de que as bandas são ruins e ponto, talvez seja um pouco igualar nossas sinapses as deles. Afinal de contas regurgitar músicas é quase tão tenebroso quanto o fazer com palavras e opiniões.
E esse direito não temos.

Mas assim abre-se mais uma linha de pensamento, que muito tem com o fato de que simplesmente não existe uma evolução dentro do conceito dessas bandas novas. Não há esse argumento de que elas apontam para uma musicalidade mais alegre, por isso são diferentes. Afinal de contas todo mundo sabe que a adolescência é a fase mais miserável para todos os seres humanos, seja no quesito mulheres, família ou religião. Na verdade essas bandas de calças coloridas fazem até um protesto em relação ao modus operandi do rock, afinal de contas vamos tocar o fogo na lona circense de Nero com a alegria. Uma rebeldia que destrói menos e baseia-se no amor pela vida. Mas mesmo assim o quesito originalidade e transcendência perde-se na tradução. E o pior é que de uma maneira geral, as referências usadas dentro dessas novas músicas também são uma deturpação da história do rock feito na gringolândia. Ou seja, essas bandas assassinam uma história que já era transmutada e morta pelos nossos patrícios de língua inglesa.
Por isso que por mais caricato que o video clip do Yo La Tengo sobre a universidade de rock stars seja, ele mostra consigo uma importante lição. É preciso conhecer a história da música antes de tentar fazer algo diferente. Mesmo que esse algo seja cru e desprentesioso, mas três acordes não são apenas notas simples, movem imensidões de pessoas que comungam em um altar em uníssono. E essas bandas novas estão no mínimo na contramão da história e de uma maneira que necessariamente não é interessante.

E quando vemos um documentário como BOTINADA, A ORIGEM DO PUNK NO BRASIL, fica claro essa impressão. O filme de pouco mais de uma hora mostra de maneira simples e metafórica de alma, que o rock nacional começou da maneira como tudo nesse país, à partir de uma luta por espaço inexistente.
O documentário que demorou quatro anos para ser finalizado, tamanha a quantidade e dificuldade de conseguir-se informações e imagens da época é de uma sinceridade e emoção genuinamente punks. Gastão Moreira, o diretor e produtor do filme teve uma missão mais pesada que o riffs que saiam das guitarras de bandas, colhendo pedaços pequenos espalhados por lugares inimagináveis. Mas o documento final é obrigatório para quem quer saber de onde tudo começou. Mas uma coisa é realmente certa: "se o punk não tivesse sido inventado em Nova Yorke, ele teria sido criado na Vila Carolina" (Clemente, Os Inocentes).
O início do punk aqui, foi de mesma ideologia e bandas seminais do que o da barackolândia. Os primeiros pioneiros dessa onda sonora já habitavam o ano de 1974 no bairro paulistano, onde reuniam-se e ouviam todas as bandas que geraram o punk americano. Do mesmo jeito que o Stooges influenciaram os Ramones, conseguiram criar uma identificação com esses moleques em um país distante onde a informação demorava à chegar. Moleques que criaram anos depois nomes como AI-5, Condutores de Cadáveres, Restos de Nada e Cólera.
Todas essas bandas tinham em comum com as de fora o movimento contra o marasmo dos tempos vividos. O Brasil ainda estava em uma ditadura que era repressiva no mais geral contexto da palavra e a censura selava destinos de letras e discos inteiros. O país já tinha uma carga muito pesada de gigante de sujeira e miséria disfarçada em milagre de crescimento.
Se em Nova Yorke a cidade era um cemitério imenso e sem esperanças, aqui os zumbis já haviam tomado conta. Não era preciso importar a genética, já tínhamos sujeira, lixo e exclusão suficientes para que o punk fosse nosso de verdade.

Pessoas reunidas no largo de São Bento, em escolas estaduais e na galeria do rock (onde a loja de Fábio, vocalista e criador do Olho Seco era o ponto de encontro), montaram o movimento e as primeiras gangues. Não havia ideologia política, mas sim uma vontade seminal de ir contra o sistema. Era bruto e seco, rápído e desconcertante....
Mas não existia infra estrutura, nem material muito menos psicológica, para que se conseguisse absorver todas as idéias de uma vontade gigantesca de libertar-se de tudo o que o país enfiava pela garganta abaixo. E apesar da carga de aprendizado político muito pequena, o movimento punk era nada mais nada menos que uma coragem descomunal de romper com as amarras de uma sociedade que atualmente vemos andar em uma evolução auto destrutiva. Movimento popular de massas???
Não existe partido político que canalize tamanha força motora destrutiva de sistemas inertes. Mas uma força descomunal como essa não pode ser controlada e os atritos sempre existiram, pelo simples fato de que movimentos tomados por uma onda de energia como a do punk, são visceralmente humanos demais. A imagem de Pádua, um dos ícones do punk do ABC com sua prótese de gancho no lugar do braço, decapitado por uma explosão de bomba que seria dirigida à outro grupo de pessoas, é a imagem mais marcante desse tempo.
E quer coisa mais punk que um vocalista de braço mecânico com um gancho no lugar da mão????

Mas o aspecto violento que foi mostrado em relação ao movimento brasileiro (principalmente em uma reportagem do Fantástico), não mostra o que foi o punk no Brasil. Taxado de violento e de falta de inteligência, na verdade foi uma orda de bárbaros que abriram caminho dentro de uma indústria que eram tomada por um status inerte.
Através de fórceps cheios de agulhas laterais flamejantes que fagocitaram todas as formas de hipocrisia da época. A luta para se montar uma banda e para gravar-se um disco (o que hoje é de uma facilidade sem tamanho, afinal de contas anyone can play guitar), foram ações que fizeram com que o caminho para o rock nacional fosse rasgado.
O corte é tão profundo que tudo o que veio depois já sabia por onde andar, os punks brasileiros foram nossos bandeirantes modernos. Como uma legião de bárbaros que descobriram um novo mundo, travaram batalhas contra o governo e a mídia dominante. Se hoje é possível uma banda de calças coloridas gravar um disco com três acordes, muito se deve à carta resposta ao Estadão feita pelo Clemente, à bandas como Ulster, Banda do Lixo e Replicantes, os programas de rádio em 1979 do Kid Vinil, o disco Grito Suburbano e a coletânea da revista Pop, o show na PUC e o Festival Começo Do Fim Do Mundo no Sesc Pompéia. Uma história contada ao sabor de gás lacrimogênio e com lutas que moldaram uma vontade e cabeças de milhares de jovens que começaram depois. Os Paralamas do Sucesso foram descobertos em um show punk no Disco Voador, apenas para citar o exemplo. Fora a lista de bandas de outros lugares do país que levaram o ideal punk ao literal, como os Replicantes que não sabiam tocar nenhum instrumento e fizeram tudo no faça você mesmo.
Saber fazer a evolução sonora de um país é uma coisa para poucos seres iluminados e os punks brasileiros que atualmente ainda fazem parte em sua maioria da mesma classe trabalhadora, são o embrião de uma enorme legião de bandas e cabeças que vieram depois. Toda a retroalimentação em pessoas que ainda hoje estão em uma garagem limando uma guitarra nasceu dentro desses seres que iniciaram o punk no país. Por isso é que não dá para aceitar que hoje se faça um involução no rock nacional, afinal de contas é no mínimo uma desconsideração com a história.