12 de junho de 2010


Uma das coisas que sempre me fizeram fanático pelo rock é o fato de que ele pode ser perigoso. E o adjetivo tem que encaixar-se em determinado conexto e época, pois se não perde-se o sentido literal da palavra. Iggy e os cacos de vidros, White Riot e London Calling do The Clash, a fase eletro metal do Ministry, os Melvins e TAD colocando o grunge para derreter peles estáticas, o disco R do Queens Of The Stone Age, Paranoid do Black Sabbath, In Utero do Nirvana e milhares de notas que tornavam o rock um lugar onde os cristãos de plantão, assíduos abades da moral e bons costumes tachavam o gênero como trilha sonora do tinhoso. E são esses "marginais infernais" que sempre fizeram para mim a força que faz andar a nação riffeira.

Mas de tempos em tempos o rock dá uma desbundada. As coisas ficam experimentais demais, indies demais e até enfadonhas demais. E é sempre nesses tempos que uma banda parece emergir das profundezas mais claustrofóbicas do inferno e ludovicamente coloca nossos cérebros em inércia de lava.
2009 estava cheio de novidades e sons que iriam desembocar na mistura eletrônica que é vista hoje. Excelentes bolachas e como elas fizeram bem aos nosso ouvidos, mas uma banda que passou quase desapercebida fundiu em um disco uma nova ordem revolucionária que transpassa seu peito como ferro em brasa. Trilha sonora sônica apocalíptica com direito a sensação de que se esse disco for ouvido com as luzes apagadas, o pavor pode tomar conta de sua mente.

A banda KYLESA nasceu em 2001 e seu nome é retirado do termo budista kilesa-mara, que denota estados alterados da mente regados à alucinações.
A banda já teve formações variadas dentro desses nove anos e atualmente é formada por: Phillip Cope (vocais e guitarras), Laura Pleasants (vocais e guitarras), Corey Barhorst (baixo), Carl McGinley (bateria e percussão) e Eric Hernandez (bateria e percussão). Cope já era figurinha carimbada dentro do cenário pesado do rock na Georgia, chegando inclusive a ter uma outra banda chamada DAMAD, que lançou seu discos nos anos 90. No background do punk, ele é considerado o poderoso chefão do cenário pelas bandas de Savannah e assim iniciou com o baixista Brian Duke essa conjução amedrontadora de distorções ainda com o nome de Damad. Laura entrou na banda assim que o nome foi trocado para Kylesa e os primeiros shows foram feitos junto com a banda Mastodon. Primeiro disco em 2002 que levava o nome da banda, mas sempre andando à margem da indústria e da mídia. Nesse mesmo esquema até hoje já são quatro discos, além do homônimo de 2002, temos To Walk A Middle Course (2205), Time Will Fuse It's Worth (2006) e o disco esquecido em questão STATIC TENSIONS de 2009.

E ele foi sim literalmente esquecido, afinal de contas ainda tenho na cabeça todas as listas de final de ano e dentro de quase todas elas o nome da banda não aparecia. E mesmo nas terras além mar, Static Tensions não perambulou pelas listas dos dez mais. O que é no mínimo um erro histórico, sendo que esse disco talvez seja o mais pesado de 2009. Quando ouve-se o registro fantasmagórico da banda, o Them Crooked Vultures fica parecendo uma banda de alunos de escola primária cristã. Tudo é muito visceral e extremamente latente, com uma mistura aterrorizante de sludge metal e metanfetaminas em forma de stoner rock. A tribalidade avassaladora de contra tempos de bateria, fazem da experiência auditiva uma das mais atordoantes de todos os tempos. São 10 músicas em 40 minutos, uma viagem aos terços marginais de uma mente distorcida em ácidos lisergicamente assustadores.

Tudo começa com a velocidade de SCAPEGOAT. Ecos de um Ministry distorcido com batidas que lembram a insanidade revoltada do NIN. Não existe uma preparação para os ouvidos, é tudo muito rápido. Avtomat Kalashnikova odraztzia 1947 goda de repetição insana e sem tempo de pressão para uma respiração. O soco segue com INSOMNIA FOR MONTHS, uma coleção de paranóicos acordes onde tudo parece sair de uma mente extremamente perturbada e delirante. Os pequenos solos fazem um detalhe fantasmagórico por entre um ritual de serial killer, não existe escape para esse pesadelo metálico.

SCAPEGOAT



SAID AND DONE é muito mais pesada ainda, mesmo a pergunta pairando em sua cabeça de como é possível a cada música a banda tornar-se mais gutural e explosiva. Mas esse disco do Kylesa é uma crescente descida as profundezas mais obscuras da alma humana em forma de notas e riffs. Se existisse um som para Dante essa seria a trilha sonora.
Nessa faixa percebe-se que não é apenas barulho por barulho, existe uma concatenada armação da melodia por mais pesada que ela seja. Simetria jorrada com pedaços de corpos decapitados pela bateria que parece uma arma de repetição ativada para destruir populações. UNKNOWN AWARENESS tem todo um clima de pesadelo que emerge sem pedir por favor as lisuras, não existe afago muito menos tempo de descanso. Apenas uma letra permeada de distorções psicossomáticas que são extremamente poderosas. Se existe uma pausa, ela acontece no início do piano em RUNNING RED. Mas mesmo assim o clima de filme de terror permanece sendo a tônica. A linha dessa canção lembra obviamente toda a sujeira de discos como And Justice For All do Metallica, mas pricipalmente o início tem um toque da psicodelia do Pink Floyd nos tempos de Barrett. Umas das melhores canções do disco, não só pela enorme quantidade de referências, mas uma amostra de que a banda é capaz de amalgamar várias nuances em um ritmo que é capaz de descolabar paredes de concreto inteiras.
O início Riders On The Storm com os efeitos de chuva da canção NATURE'S PREDATOR não é um aviso de que a banda resolveu mudar de direção, mas apenas um lembrete sobre o que vem pela frente. Uma tempestade de sônicas batidas repletas de geniais linhas de guitarras, onde a cada acorde existe a sensação de que o fim está próximo. Trilha digna de fim de mundo sentida de maneira progressiva e dolorosa.



ALMOST LOST é quase um hit tomado de velocidade que provavelmente vai estilhaçar a pele de seu rosto se for colocado contra seus ouvidos. Uma das características mais legais do Kylesa é essa coesão dentro das guitarras. Os acordes parecem rodar em círculos e de repente explodem em giros extremamente poderosos, como se fosse palpável sentir a energia sendo manipulada. Um dínamo poderoso que funde átomos eletrificados. ONLY ONE tem essa mesma característica com seus riffs eletronicamente dispostos. Nota por nota a canção vai tomando conta de seu corpo até o momento em que todas as suas células estão distendidas em um ponto onde não existe nenhuma saída a não ser serem rasgadas. Mitocondrialmente dilaceradas por entre a garganta lotada de cacos de vidro de Philipe.

PERCEPTION é canção que mais vai despertar o medo dentro dos ouvintes e definitivamente a presença das luzes acesas é quase obrigatória. Seja pelos hipnóticos riffs ou pela sensação de estar presenciando uma marcha de assassinos e suas serras elétricas. Dilatação de pupilas estraçalhadas por uma velocidade descomunal de vozes e bateria. Praticar boxe em um saco de pancadas ouvindo essa canção, deve ser uma das sensações mais libertadoras existentes.
TO WALK ALONE aproxima a banda do stoner rock e é aí que o Kylesa se mostra muito mais perigosa do que o Queens Of The Stone Age. Porque pega todas as lições e eleva a força das notas em milhões de vezes, mostrando que o rock não é um estilo seguro. Vai assombrar pais despreparados e deixar todas as freiras católicas de cabelo em pé. Trilha sonora de perturbação que faz com que seja quase um ato proibido escutar esse disco. Os vocais de Laura trazem um erotismo vampiresco violento à música e se existe uma banda que define o perigo dentro do rock atualmente essa banda é a Kylesa. Encerra o disco com violência, sexo e sangue.



Static Tensions é um dos mais acachapantes discos de 2009, daqueles que seu corpo pede clemência depois de ouvir. Como se você tivesse sido despedaçado por uma tonelada de concreto formado por estacas pontiagudas, mas que te atingem de dentro para fora. Explosão de um terror espiritual que jamais clama por exorcismo, afinal de contas não há como escapar do deslocamento de cérebro que a banda proporciona. O único caminho é sentir cada célula de seu corpo ser deformada pelas explosões. A melhor maneira de se sentir vivo, é saber que seu corpo pode esfacelar e se recompor após esse disco.
Mas você jamais será o mesmo....