Em tempos de Copa do Mundo na África, uma incontinência de ar parece querer correr pelas retinas descoladas. Uma sensação de que existe algo escondido por entre cada célula da bola que desliza pela grama é quase latente. Um país dizimado por inúmeras guerras civis e pandêmicas aberrações formadas por vírus lubrificados de sangue infectado.
Aquele amargo descendente por entre os dentes que mantém a latência da inércia em um manto deslizante de apatia, parece querer insistir em permanecer dentro da nossa pele. Um país onde a miséria é uma das características que aproxima dois continentes. A outra, pelo menos em um mês é o futebol, mas existe algo muito maior que o esporte de Miller que une duas nações. Na verdade une um mundo todo...
Mas uma coisa que chama atenção é a quantidade de sorrisos largos. Como inexplicavelmente entender a quantidade de alegria exposta em nossos olhos abertos, como em qualquer experiência de Ludovico ao som da nona de Beethoven. É difícil nosso cérebro anarco metodista entender o porque dessa capacidade de sorrir mesmo dentro das maiores tragédias humanas, que são constantemente cravadas em nossas órbitas.
Talvez seja pelo fato de que não existe mais de onde tirar resquícios de alma. Um povo que durante anos ainda pode pagar por um karma cósmico às avessas. Indiferente à cor de pele ou religião. Apenas um pulso e vida que insiste em bater mesmo quando o coldre toma de assalto o peito.
E isso foi o que aconteceu com as mulheres de Uganda. O país onde ainda acontece a maior guerra civil da África, que já dura pelo menos vinte anos é um exemplo desse estertor de vida que insiste em bater.
O conflito que se espalhou pelo Sudão e Congo, trouxe consigo além da morte, uma infindável orda de soldados ávidos por estupros, massacres e pilhagens. Incontáveis são as famílias que perderam suas crianças abduzidas para se tornarem máquinas assassinas guiadas pela cegueira miliciar que era patrocinada por algum caucasiano branco que traficava armas da guerra fria para dentro de um país onde a AIDS dizima populações.
Tribos decapitadas, crianças mortas, mães curradas e seres humanos sem esperança, colocados em campos de pessoas dispensáveis.
Mas o sorriso é sempre maior e por razões que a nossa própria desconhece, essas mulheres africanas trancafiadas e desmembradas de um útero funcional cantavam. Cantavam para espantar demônios fardados de seus país que estava sendo decapitado de almas humanas. Cantavam pela vida de seus filhos que aos anos lúdicos andavam com metralhadoras nas mãos em hipnose. E as melodias eram feitas dia após dia, na esperança de que algo mudasse.
Enfim parece que as coisas estão acontecendo. Pela primeira vez em vinte anos de guerra civil sangrenta, as tropas estão deixando as cidades e os campos. As canções estão melodiosamente funcionando e enfim as coisas podem andar em direção contrária.
As músicas depertaram à atenção de outras pessoas além dos soldados. E como toda causa humanitária que se preza, uma ong aparece. THE VOICE PROJECT, foi criado com o objetivo de dar suporte à essas mulheres que são as trovadoras modernas. Como nas mais sofridas canções de amigo, onde o amor é desesperadoramente despedaçado e agudo.
O projeto criado muito menos para ser uma braço ergonômico financeiro, mas sim uma câmara de eco para as vozes dessas mulheres que perderam seus filhos para milícias formadas por chapeleiros malucos assassinos. E mesmo tendo dentro dessa ong programas que visam uma recolocação para as famílias afetadas, o primordial é a mensagem ser passada à diante.
Os programas que o Voice Project possui são primordiais para que essa vida que se inicia espalhe-se. Existe um braço do projeto que reabilita as crianças abduzidas pelos exércitos, afinal de contas a infância é roubada ao som de metralhadoras importadas. Quando os exércitos saem do país deixam um rastro de meninos viciados em sangue humano. A desintoxicação é necessária, do mesmo jeito que um programa vocacional é realizado para que se possa descobrir que existe algo além da matança. Não adianta apenas retirar o vício, é preciso mostrar o caminho. Essa tríade de redenção é fechada com um braço do projeto que auxilia as famílias à montarem seus próprios negócios. Acabar com a guerra não basta, é necessário reconstruir. As vozes das mulheres de Uganda são o caminho, as pessoas apenas seguem essas notas empregnadas de vida e paz.
Mas não adianta apenas trabalhar, pois divulgar essas histórias e canções é como traficar poderosas armas de construção em massa. Por isso muita gente da música juntou-se ao projeto para aprender com as mães de Uganda e repassar a mensagem de que sim é possível mudar o mundo através das canções.