5 de julho de 2010

GD 46 ARMÁRIOS ANARQUISTAS

Quando no final dos anos 80 o movimento punk original já havia quase que totalmente sido engolido de vez pela MTV americana e as calças mais coladas que roupas de ginástica e quantidade de laquê ainda estava apenas começando a entrar na primeira arroba, um movimento na contramão de tudo estava nascendo dentro do cenário musical.

Mas antes de falar sobre como nasceu o queercore, é necessário que se tenha em mente que bandas como por exemplo o NEW YORK DOLLS já traziam em seu som e vestimentas conceitos de androginia bem demarcados. A banda que tinha mais maquiagem do que as mães da época fazia um alto coro junto com a imagem pansexual que tinha por exemplo Iggy Pop. Atenha-se ao detalhe de que lá pelos mesmos anos (entre 68 e 76), David Bowie também carregava nas sombras oculares. Nesses tempos onde ninguém era de ninguém, saiu um dos melhores discos (se não o mais bacanudo) de Lou Reed, TRANSFORMER (o título é bem auto explicativo).
Essa diversidade tinha muito da idéia que o punk sempre carregou de romper com o status operante da época. Chocar os olhos marejados da sociedade que morria de inanição intelectual a cada minuto. Exemplo brazuca mais notável com esse mesmo conceito são os sensacionais Secos E Molhados (aqueles que o Kiss insiste em dizer que não copiaram a maquiagem, mesmo a banda brasileira tendo nascido em 1971).

Essa liberação geral durou até o início dos anos 80, quando as coisas começaram a tornar-se mais pasteurizadas e mastigadas dentro da telinha. É só lembrar que durante a década tenebrosa você tinha uma divisão bem definida:
Ou gostava dos sons que apareciam na MTV ou escutava tudo o que era underground (e definitivamente muito melhor).

capa do zine Homocore Ed. 4,

Com os Ramones sendo praticamente a única banda ainda atuando nesses tempos, o punk e essa desvairada levada do arco íris também acabou se pasteurizando, com o surgimento da AIDS então as pessoas cada vez mais se auto exilavam em guettos e castas em separado da sociedade. Nesse contexto de terror sociológico é que surgiram fanzines como J.D. e MAXIMUM ROCK AND ROLL e HOMOCORE. Todos com temáticas anarquistas que pregavam a não segregação dos próprios gays e lésbicas em círculos fechados e afastados da sociedade. O movimento que nascia então foi denomiado QUEERCORE, e propunha um rompimento com o status marginal que as pessoas auto impuseram-se. Não era apenas contra a sociedade que marginalizava, mas também contra os semelhantes que entravam no jogo da indústria das castas.

Um movimento escrito e dentro da música foi aos poucos fazendo barulho. Obviamente sempre pelas marginais mais sujas e pesadas, bandas como Fifth Column, Nikki Parasite, Big Man, Bomb, The Apostles, Academy 23, No Brain Cells entre outras do meio dos 80 e início dos 90, iniciaram uma mistura de punk com eletrônica e samplers. Anarquia em forma de protesto pela caracterização das pessoas em seres humanos, não mais em pedaços de corpos exilados dentro de uma sociedade.

Uma dessas bandas e talvez a mais importante dentro desse cenário, nasceu quase no final da segunda década do movimento. 1996 marcou a estréia em vida do THE NEED.
Dupla mais do que andrógina, com bateria e guitarras altas muito antes do White Stripes chegarem. Rachel Carns (bateria e vocais) e Radio Sloan (guitarras, baixo e samplers) fizeram uma mistura de batidas sequenciais e cadências mais barulhentas que estavam bem à frente do seu tempo. Isso talvez explique o fato da banda sempre ter sido uma das mais marginais da cena. Subestimada e quase nunca circulando por entre as rodas mais hypadas de plantão. Mas é definitivamente acachapante canções como Dear Diary, onde magnéticas sequências de binárias combinações são tocadas ao contrário e um coro assombrado de vozes coloca todo um inocente horror claustrofóbico na canção. Genial no mínimo.









O The Need durou de 1996 até 2001. Com quatro discos e participações de gente como Joe Preston dos The Melvins, a banda andava na vanguarda, mas nunca sob os holofotes. Com o final da necessidade, Rachel tocou em outra banda (King Cobra), enquanto Sloan apresentou-se com Courtney Love além de participar do disco de 2005 (THIS ISLAND) dos modernosos Le Tigre.

A banda ainda não tem planos para voltar, mas vai se apresentar em um único show beneficente em julho. Corra atrás da discografia da banda no site: http://www.theneedisdead.com/shop/index.html.



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