10 de agosto de 2010

GD 53 IDENTIFICAÇÃO DE ALMA

Em uma das faces arredondadas e gastas de um poste na esquina quadrilátera, mais precisamente no vértice esquerdo inferior, uma foto com olhar triste está postada. A tinta que divide o poste em uma metade branca e outra cinza reflete o nome de uma pessoa desaparecida desde o dia 24 de julho de 2010.
Um rosto fixado em expressão estática. Não existe uma pista maior, apenas a certeza de que mais uma pessoa moradora em uma grande cidade esvaziou seu espaço físico, sumindo da existência conhecida por seus entes. Um ser que nasceu em qualquer subúrbio, veio para a cidade e desapareceu. Sem história, deixado na memória decapitada de um lugar que corre mais rápido que as crescentes gramíneas do jardim em frente à sua casa afastada do centro. Ponto...

Muito já falou-se sobre THE SUBURBS, o novo disco da Arcade Fire. Messianismos e platonismos reservados apenas para os deuses de claves de sol foram proferidos dentro de línguas multidisciplinares e étnicas. Milhagens de milhas que separam ouvidos e cérebros foram elevadas nas audições que seguiram o vazamento do disco há pelo menos duas semanas.

Mas é o melhor disco do ano?
É o OK Computer do Arcade Fire (como foi descrito pela BBC e mal interpretado pelo resto do mundo)?
A banda atingiu o patamar de mega grupo?

As respostas para essas perguntas podem variar dependendo do dia. Mas a grande questão que esse disco levanta, está muito longe de apenas saber se é ou não o melhor do ano.
A palavra que move as sinapses dentro dos acordes na verdade é IDENTIFICAÇÃO....

A melhor característica disparada The Suburbs não está nas canções ou na retomada em direção à Funeral que a banda deixou propositalemnte em Neon Bible (um discão também...). O que chama atenção logo de cara é que eles conseguem contar uma história e dentro desta uma nova conversa em cada canção. Por isso, mesmo buscando ainda o barroco dentro do pop rock (muito mais pesado nesse álbum diga-se de passagem), a banda escreve canções em diferentes nuances de vida. Cada uma é um capítulo diferente dentro da famosa "the big picture". Apenas por isso já valeria à pena.

Mas a banda vai mais longe...

A frase que mais marca a letra da canção que abre esse conto, THE SUBURBS, é a seguinte:
" so move your feet from the hot pavement, and into the grass" (tire seus pés do asfalto quente e vá para a grama...). Eu morei até meus dez anos em uma casa de madeira (como a do porquinho), em uma cidade marcada pela colonização latifundiária em um bairro afastado do centro. A única beleza em cores que aquela casa tinha anatomicamente, era o gramado em frente ao portão corroído pela ferrugem lateral nas abas que seguravam o monstro ocre que fechava a entrada daquele local, onde a chuva sempre me mostrava que poderia entrar por qualquer aresta lascada do teto.
Minha primeira lembrança sensitiva de calor era o asfalto quente dos verões e a grama que gelava as falanges distais em meus dedos.
Uma banda que desenha a melodia cadenciada que aos poucos vai fazendo seu cérebro mergulhar em lembranças que dormem dentro de giros de cíngulos esquecidos é no mínimo uma bela banda.
E agora, como é que alguém pode nesses tempos onde o esquecimento nas grandes cidades é a tônica, onde as pessoas passam e se esbarram e jamais trocam olhares, fazer uma música dessas e não querer que ninguém encha os olhos de água venosa?
Lágrima lateral esquerda teimosa em descendente linha que torce sua farínge....



O disco do Arcade Fire na verdade é uma obra que conta uma vida toda. Em cada término de canção uma breve respiração em suspensão prepara seus pulmões para uma nova imersão em vida aguda. Esse detalhe já fica explícito na flat line que separa a primeira canção de READY TO START. O mundo moderno escancarado dentro da evolução acadêmica, sangrando e sugando toda a alma de quem por ventura desencadear uma viagem saindo de seu reduto suburbano e adentrando pelas entranhas mais viscerais de um lugar maior. Como se uma estrada de tijolos dourada efervescente de sangue em ebulição fosse abrindo-se dentro de seu peito em cada acorde que dessa vez, leva a banda pelo caminho de uma canção mais pesada que o normal. Mas mesmo assim com uma veia de movimentação femoral igual à Rebellion (Lies).

MODERN MAN continua a caminhada dentro de incertezas. Sair ou não sair pela estrada agora torna-se uma verdadeira e complexa idéia concreta. Mais uma vez a banda consegue fotografar a insegurança que habita há tempos nos jovens que adoecem mais cedo pela pressão que o mundo mostra. Do mesmo jeito que são capazes de ilustrar a diferença de quem vive longe demais e os tais modern kids de ROCOCO.

A lisérgica balada dessa vez mais no estilo mais barroco de ser da Arcade Fire, é a transição perfeita do outsider juvenil. Nesse momento já é palpável a sensação de universalidade que o disco possui. O colégio, a nova cidade ou o novo círculo de pessoas conhecidas e seus garotos modernos com frases de efeito e sem assunto comprovado. Um hype escondido por inseguranças espalhadas em atitudes "muderninhas". Sentir-se um pária e tratar disso como uma beleza lascerante como nessa canção é tarefa árdua.
Mas a banda não faz juízo de direito dos garotos modernos, apenas relata a sensação de não entender as falas cheias de palavras em dialeto estranho aos ouvidos de quem cresceu em um outro lugar. A audição de um migrante acaba virando poesia dentro da canção.



EMPTY ROOM é mais pesada ainda, milimetricamente encaixada na letra da canção. A velocidade de uma mente em ebulição aprendendo o auto conhecer-se dentro de uma lugar que cresce mais rápido ainda. A banda mostra uma face garageira que flutua entre névoas em serras e distorções que remetem ao ano que o punk tornou-se mainstream.
Mais uma história que parece querer mostrar que existe um aprendizado, no ato de sair da sua origem e deslocar-se para outros lugares. Do mesmo jeito que a canção CITY WITH NO CHILDREN, o quarto vazio e seus riffs memoráveis desenham relações em que a amor passa e deixa marcas de saudades, desenhadas em cinza pela estrada que leva o migrante para lugares desconhecidos. Tudo o que se aprende pelo caminho está destilado dentro da letra dessas canções. O conselho de sabedoria de um verso como " never trust a millionaire quoting the sermon on the mount, I used to think I was not like them but I'm beginning to have my doubts" em City with no children mostra bem isso.

A primeira parte de HALF LIGHT, coloca a banda em um terreno mais familiar musicalmente falando. Talvez tenha sido o início da discórdia entre os que acham o disco ruim contra as que pensam em épico. Devido à lentidão e a divisão da canção em duas partes.
Mas é preciso lembrar que a banda aqui conta uma história de vida. Existem momentos onde a diminuição do ritmo frenético acompanhada de pianos climáticos e percussão em forma de marcha cadenciada são necessários. HALF LIGHT 1 & 2 talvez sejam aqueles dias onde as coisas não parecem ter sentido na sua vida e o cansaço teima em tirar de você tudo aquilo que ela trouxe nas primeiras cinco músicas. Mesmo assim a cadência do sombrio pós punk, na segunda parte é muito bem conduzida.


SUBURBAN WAR marca definitivamente a segunda parte da história sendo contada. A mudança de ares da calmaria para uma corrida cotidiana em um outro lugar sangra em cada verso. Mais uma vez sou mentalmente levado dentro do tempo há sete anos atrás quando cheguei em São Paulo com uma mochila nas costas e R$ 150,00 no bolso. A música já dividia as pessoas em tribos e sim existia uma guerra silenciosa acontecendo. Uma guerra que mesmo a canção não apresentando uma solução, mostra que separatismos nazistas não funcionam. Entender que as diferenças fazem de uma grande cidade um caleidoscópio cultural maior do que a divisão de castas musicais, é primordial. O contrário apenas descaracteriza as pessoas, através da escolha de lados ou por não lembrar como são seus antigos amigos que foram roubados pelo tempo.

O que me faz lembrar que talvez os queridos futuros integrantes de partidos nazistas, mais precisamente os universitários paulistanos do movimento São Paulo para os paulistas, deveriam escutar mais esse disco.
Em um abaixo assinado on line, proferem palavras de ordem contra o aprendizado sobre culturas diferentes da paulista, ou ainda a "migração predatória". Sentindo-se ofendidos por mais pessoas frequentarem a semana de cultura nordestina e não existir a semana de cultura paulista. Dizendo que qualquer manifestação da cultura paulista é vista como preconceito.
Mas então as homenagens à Adoniran Barbosa, sambista paulista da gema, colocado sempre entre os grandes não valem????
E ainda será que quando ele colocou o sotaque paulistano no samba, mudando a métrica falada, foi um ato de xenofobia com a cultura original???


Isso sem contar com a linha de pensamento empresarial de direita suja que diz: "migrantes não construíram São Paulo por serem alocados na construção civil. Seja desmentida tal falácia". E a explicação dada à repórter da Terra Magazine é melhor ainda: "o entendimento é o seguinte: quem constrói São Paulo não são os pedreiros. São os empresários, os investimentos aplicados na cidade, feitos por paulistas. Falar que outras pessoas construíram a cidade é absurdo. Eles trabalharam, usaram sua força de trabalho. Não significa que construíram São Paulo. Esse prédio que você trabalha, por exemplo, não foi construído por migrantes...por pedreiros. Foi construído pela empresa que investiu, que financiou o projeto. Entendeu o ponto de vista do manifesto?"

Investimentos em infra estrutura feito pelos empresários é a metade do círculo Yin-Yang que constrói algo maior que os subúrbios, onde crescem pessoas que sonham com vidas melhores. A mão de obra é a outra face.
Um lado vem com a idéia o outro com a execução. Ambos tem a mesma importância indiferente dos lugares de onde vieram. Negar o direito de viver em uma grande cidade, perseguir seu sonho com unhas e dentes e batalhar por ele, a cada dia onde o sol ilumina canções como MONTH OF MAY é separar o homem do direito básico de ir e vir. Culpar migrantes nordestinos ou do interior de São Paulo pela falta de capacidade de um governo federal que não dá condições de vida e opiamente despeja heroína em forma de bolsas família em cérebros sem saúde, saneamento ou segurança dos nossos subúrbios (sejam eles do estado de SP ou não), deve ser combatido com a mesma ferocidade das guitarras distorcidas da canção do Arcade Fire. No álbum, a banda mostra que a vida é marcada pelas experiências que são colocadas em nossas faces em qualquer lugar do mundo. Uma cidade molda suas conquistas e pensamentos do mesmo jeito que suas idéias moldam a cidade. Separar isso em castas musicais ou de raça é uma idéia que matou pelo menos seis milhões de pessoas em um passado não muito distante...


WASTED HOURS marca a parte final do disco. Mostra também que mais uma vez a banda quer na verdade terminar a fábula que começou a contar nos primeiros minutos. Uma aura menos roqueira e mais cheias de efeitos marcam as canções finais. E mesmo com a beleza de DEEP BLUE e I USED TO WAIT, elas podem arrastar-se um pouco além da conta nos seus ouvidos.
Entre as nuances de algo mais trabalhado e menos visceral a banda parece perder um pouco do encantamento. O que devidamente é corrigido quando ouve-se o disco ela segunda ou terceira vez, pois é assim que esse disco deve ser apreciado.

A cada audição descobrir uma identificação com a sua própria história, sentir em cada célula emocional de seu corpo quais as cores que movem sua mente dentro de nuvens onde a sua vida parece ser fotografada a cada acorde.
Saber que a sua alma está na estrada escolhida, seja ela na cidade grande ou nos subúrbios. Nisso o disco da Arcade é sensacionalmente bem sucedido. Criar com o ouvinte uma ligação octaedrocubana de sentimentos. A banda desce do patamar messiânico que a mídia ancorou-a e como Maradona, que saiu do trono de Deus para ser treinador, a Arcade Fire sangra como um ser humano normal.
Sente falta de velhas amizades da infância e amadurece em público, através da identificação que deixa escorrer em cada um de nós. Ouvir The Suburbs dá essa sensação de que fazemos parte de algo maior, liga de maneira irreparável uma mitológica banda com meros passantes que apenas podem emocionar-se a cada vez que ouvem os acordes. Mesmo com THE SPRAWL 1 & 2 e SUBURBS (cont.) sendo as mais fracas.

O novo disco da banda canadense não é o melhor da década, muito menos identifica-se com os melhores álbuns do Radiohead. Mas faz com que nossa alma entre em transe terreno glauberiano, por ser capaz de fazer com que o público enxergue um pouco de si mesmo em cada canção. Descobrir que uma música faz parte de sua vida de maneira tão íntima e sentimental desse jeito, é libertação de coração no estado de concreto puro para o mais raro ar limpo do mundo.
A identificação que liberta, essa é a grande qualidade desse disco.....