11 de agosto de 2010

GD 53: PARADOXOS EXPLOSIVOS


A palavra clichê dentro do rock tem endereço certo. Drogas, sexo e o novo clip da M.I.A. passam definitivamente por esse adjetivo.
Mas encontrar bandas que vivem perigosamente e são definitivamente criadores de caos e periculosidade dentro dos acordes e ao mesmo tempo não usarem isso como forma de venda é um caso raro. Em tempos de revolta de botique e roupas coloridas, encontrar pesos pesados desse meio ficou tarefa realmente difícil.

Mas não faltaram tentativas. Até o Guns and Roses logo no começo tentou reviver tempos onde os Ramones eram considerados uma gangue perigosa. Mesmo com a quantidade de laquê, Axel Rose encarnou bem o personagem. Mas foi só.
Hoje o nível de bom mocismo chega à ser até irritante, mesmo porque o rock sempre foi mais interessante quando beira a contravenção explosiva. Iggy, Dee Dee, Cobain, MC5, Jello Biafra, Pantera são nomes que pipocam no tronco cerebral toda vez que a saudades desses tempos. Vai dizer que os irmãos Gallangher eram perigosos???

Mas talvez um documentário que será lançado em 2011 mostre o caminho para o pessoal fervorosamente politicamente correto (e chato) dentro do rock.

FIX - THE MINISTRY MOVIE, da produtora Gigantic Pictures que já deveria estar no mercado nesse ano, sofreu um adiamento de alguns meses. Mais importante do que o atraso será a oportunidade de conhecer (para quem não sabe), uma da mais seminais e perigosas bandas de todos os tempos.

Em 1981, misturar riffs mostruosos com eletrônica ainda não estavam nos planos de Trent Reznor, mas na cabeça de outro maluco isso já era concebível. O cidadão em questão é Al Jourgensen, americano de nascimento e fundador do MINISTRY.

O início foi quase um projeto solo de Al, com a participação de músicos de outras bandas como por exemplo The Concrete Blondie, My Life With the Thrill Kill Kult e The Imports. Nessa época a banda se chamava Special Affect.
Mas em 81, na cidade de Chicago, Jourgensen acompanhado de Stephen George (bateria), Robert Roberts (teclados) e John Davis (teclados), montou a gênese do mostro chamado Ministry.



As músicas todas baseadas nos elementos do eletro pop. Aliás essa característica é uma que acompanhou a banda, obviamente distorcida e muito durante a história deles. E foi quase como se o início tudo era um lado completamente oposto, pois as canções gravadas eram baseadas na new wave. Lançando compactos com direcionamento para as pistas de dança.
A banda fez doze singles (incluindo aí o hit EVERYDAY IS HALLOWEEN). Quase todos apareceram no primeiro disco, WITH SYMPATHY (1983), que não chegou nem ao top 50 da Bilboard. Mas o mais calamitoso ainda é saber que o som da banda não era nada parecido com o que fez história na música. Era como ver algo completamente diferente do outro estilo. Mas ainda existe o fato de que muito da eletrônica que veio depois, em relação a viagem que eram as composições, usaram muita coisa do Ministry desse começo. Ainda existe a teoria da conspiração, de que esse primeiro registro foi na verdade um projeto mal sucedido da gravadora.
Mas mesmo assim a banda ainda era uma sombra disforme



E mesmo a banda sendo vista, nada agradava o frontman. Jourgensen sempre deixou claro a afasia de felicidade que tinha. Inclusive sempre referindo-se ao primeiro disco como um aborto fonográfico. Sendo assim, no meio dos anos 80 ele e Stephen decidiram assinar com a Sire Records e começar a mudar o som.
O que aconteceu já no segundo disco, TWITCH, de 1986.
Considerado o primeiro trabalho underground do Ministry, o disco já trazia todo um lado mais metálico e obscuro dentro do som da banda. Com um material composto antes até do primeiro disco, essa bolacha abusava do sampler. E mesmo sem saber a banda mostrava algo completamente novo. Uma evolução que continuou no terceiro disco (THE MIND IT'S A TERRIBLE THING TO WASTE), que contou com a participação de um segundo baterista tamanha a complexidade das linhas de percussão das músicas.
O som do Ministry então além de mais escuro, tornava-se mais pesado. Nessa mesma época Al iniciava uma série de projetos solos que variaram da participação em bandas como o Front 242 (música eletrônica) e a formação do LARD com o ninguém menos que Jello Biafra do Dead Kennedys. Existe ainda a banda 1000 Homos DJ's que inclusive contava com a participação nos vocais de um ainda quase desconhecido Trent Reznor. Jourgensen ainda produziria nessa época o disco de outra banda fantástica o Skinny Puppies.
Todo esse background talvez tenha ajudado na produção e composição do disco que marcou definitivamente a virada do Ministry de uma banda de synth pop mais pesado, para um dos pais do termo metal industrial.



PSALM 69: THE WAY TO SUCCED AND THE WAY TO SUCK EGGS, lançado em 1992 ainda é um dos discos mais pesados de todos os tempos. Completamente direcionado para as mais claustrofóbicas batidas. A banda elevara o jogo muito acordes sônicos acima. Sintetizadores quase beirando a paranóia de Al e duas guitarras que não apenas sujavam a eletrônica, mas devastavam os canais auditivos. O clip de JESUS BUILT MY HOTROAD virou hit na MTV e a canção N.W.O. uma das primeiras pancadas no governo de Bush pai. Isso tudo sem contar a participação de William Burroughs na canção JUST ONE FIX. Diga-se de passagem o título do disco também tem referências literárias, visto que saiu de um trabalho de Aleister Crowley.

Mas não bastava apenas a banda ter começado uma trilha que milhares de pessoas seguiriam depois, incluindo aí o NIN. O Ministry sempre viveu na beirada perigosa da loucura insana do rock e os excessos não eram apenas leves. Imagine uma banda que toca com esse tipo de velocidade e altura, não viver com uma intensidade no mínimo visceral.
Esse contracenso nunca existiu, para o bem e para o mal. Não são poucas as histórias de devastação de palcos, festas pós shows regadas aos mais diferentes tipos de drogas e groupies que vestiam-se com as mais variadas fantasias ligadas aos extremos humanos. O vício em heroína de Al nessa época começava a ficar perigoso.

Esses extremos levaram a banda à compor FILTH PIGS, disco quase sem nenhuma interferência eletrônica e com guitarras muito mais barulhentas ainda. Como se fosse possível derreter muito mais cérebros do que eles já faziam, a banda entra de vez no peso e parece não querer sair mais. Mesmo com as influências completamente distintas (esse disco tem uma cover de Lay Lady Lay de Bob Dylan), o peso mais lento foi a tônica.

Mas a maior pedrada para o Ministry ainda estava por vir. A morte do guitarrista William Tucker (ele cortou a própria garganta) fez com que a banda fizesse o disco THE DARK SIDE OF THE SPOON. Nem precisa dizer que o título mesclava o disco do Pink Floyd com a imagem da parte inferior do talher utilizado para a liquefação da heroína antes de ser posta na seringa. Foi com esse disco que a banda apareceu na trilha sonora do filme Matrix com a canção Bad Blood que concorreu ao Grammy.



Mas o vício do vocalista estava saindo do controle e a banda começava a morar em um estado de tensão constante. O que era para ser uma banda perigosa musicalmente estava tornado-se um perigo socialmente pesado demais. E mesmo com o sumiço do Ministry a banda ainda lançou alguns discos sensacionais como HOUSES OF THE MOLÉ (o mais politizado e anarquista da banda) e RIO GRANDE BLOOD que foi considerado trash metal. Tudo isso entre os 90 e 2000, com o Ministry abusando dos sintetizadores e riffs atordoantes, a marca registrada.
É desse tempo também o disco de covers (COVER UP) que saiu depois do lançamento em 2007 de LAST SUCKER que é considerado o último álbum do Ministry.
Tudo isso com mais uma morte (Paul Raven) e alguns processos judiciais envolvendo os componentes, ou seja, tudo muito calmo e tranquilo como todo bom rock deve ser.



Toda essa história poderá ser conferida de perto no documentário que será lançado em 2011. Com as participações de muita gente bacana dentro da música (Tool, Trent Reznor, Motorhead, Dave Navarro, The Melvins tal e etc.). Mesmo o trailer deixando claro que uma boa parte da história contada será dedicada aos excessos da banda.
Mas é inegável que mesmos com todas as histórias pesadas envolvendo o Ministry, a influência em toda uma geração de músicos foi ímpar. Muitas vezes confundida apenas como um grupo de metal industrial, eles faziam tudo aquilo que é mais importante dentro do rock e que muitas vezes falta nas novas bandas. Deixar o rock um gênero de música que deixava com os cabelos em pé a maioria dos pais.