20 de setembro de 2010


A cidade do interior do estado de São Paulo onde degustei o resto de saco placentário materno e abri o berreiro pela primeira vez, é um lugar estranho. E por mais que todo mundo diga-me que aqui na "capitar" os problemas são os mesmos, acho difícil que as pessoas degustem tanto o estilo de vida suburbano sujo que meus compatriotas cidadãos da "terra do calçado feminino" possuem. Obviamente não generalizo, mas a grande maioria da população de aproximadamente 170.000 habitantes ainda pertence cerebralmente à um tempo onde as famílias donas de grandes fazendas cercavam a cidade com arame farpado e casavam-se entre si, dando início ao que eu costumo chamar de genética barroca luciferiana.

Mas a questão nem é essa. O problema maior de não ter sobrenome de coluna social em cidade do interior é que, as pessoas nesse lugar úmido de hipocrisia e cheio de poluição podre de alma, gostam de tomar conta da vida uns dos outros. Como guardiões da moral e bons costumes cheios de lições do que é ou não certo perante os olhos do povo. Uma sociedade onde cheira-se cocaína em festas de socialites e pede-se rigor da polícia no combate ao tráfico na cidade (os mesmo que cheiram).

E a hipocrisia mais uma vez faz a festa no lugar onde nasci.

Vivemos em uma época de sex tapes. Tudo se filma, tudo se fotografa. Meninas aparecem um trajes menores ou apenas de roupas íntimas dentro da internet. E isso é bala de prata para os pretensos defensores da moralidade do mundo. Essa chapa branca de idiotas armados de símbolos da KKK em suas lapelas aproveitam cada uma dessas fotos para culpar a tecnologia, a internet, as novelas, os consumidores de drogas, tal e etc. É só lembrar da reportagem mondo cane de um programa dominical que mostrava o consumo de crack. É muito mais chocante mostrar o consumidor do que ir atrás das ligações do tráfico.

Uma menina dessa minha cidade, namorava um rapaz nativo. Um casal que eu particularmente conhecia os dois vértices. Ela formada em uma área da saúde, uma menina doce como algodão. De uma candura capaz de derreter seu coração de pedra. Obviamente como todos nós tinha seus entrecantos calamitosos, mas quem é você ou eu para julga-los???

Em uma dessas noites de paixão arrebatadora, ela entrega-se de verdade. E nós sabemos que mesmo aquelas mulheres que fazem do ato sexual uma arma de diversão, entregam-se. Por mais trepado que o sexo seja, a mulher doa-se em diferentes níveis. E não adianta discutir aqui que as prostitutas (que Deus as abençôe), fingem por isso não se entregam. Ledo engano meu excitado leitor, elas por serem várias mulheres em uma só, nos dão personagens que vão morar em nossas mentes por dias. Mesmo sendo uma transação comercial, elas dissolvem paradigmas e deixam nossos corpos participarem de um ballet onde a fantasia é entregue como se fosse real.
Então elas doam, mesmo sendo uma das entidades que habitam aquele corpo.

Pois bem, essa menina entregou-se. Com uma paixão que só aqueles que tiveram na vida a oportunidade de ver uma mulher do ângulo que o namorado dela viu, entenderiam. Com a mais desavergonhada vontade e com a saliva e olhares certos. Lindo ato de quem quer sentir o calor de estar vivo percorrer cada pedaço de seu ser. Ela entregou-se.

Mas doar-se assim em frente à uma câmera é perigoso. Pelos motivos óbvios que esse ato que cheira a desavergonhada ingenuidade possuem. E assim a menina caiu em destino insólito, quando o namorado colocou o vídeo da peripécia bucal na internet. Depois de uma briga e o término do namoro, o rapaz cheio de coragem do anonimato (dele e não dela), resolveu como as duas madames de Sorocaba, tornar sua ex-namorada uma estrela nova.
O vídeo fellaciano rodou e ainda está rodando por todos os e-mails. Foi assunto em rodas em botecos cheios da cidade. A boca dela, sua saliva, seus seios, seu íntimo revelado como em folhetim dantesco. Surgem as piadinhas, aparecem as moralistas e aqueles que queriam aparecer fazendo a mesma coisa em rede nacional, mas não tem o conjunto de bolas suficiente para isso.

O resultado é que ela foi perseguida, quase espancada, seu lar foi apedrejado e não pode há dois meses sair de casa. Já foi perseguida por homens que colocam o pênis para fora e pedem uma foto.
A menina vai sair da cidade, mudar de estado carregando o arrependimento, a culpa e a vergonha. E você sabe o que é sentir vergonha por algo que você fez???
Seu pai te deu essa noção????

E a cidade munida dos guardiões dos bons costumes a crucificam em todas as conversas. Ninguém diz que o covarde com o pênis mal formado e mínimo é o verdadeiro canalhocrata. Cagüete de intimidade, que por uma falta de masculinidade (porque fazer isso é Freudianamente explicado como diriam as meninas do Pimenta no Joelho, pela Síndrome do Pau Pequeno), expôs uma pessoa. Um ser humano como ele que sangra igual e sente igual.

Vivemos em tempos assim, as pessoas movidas por paixões absurdas xingam, apedrejam e montam opções de moralidade baseadas na hipocrisia. E daí se ela quiser chupar o pau do namorado e filmar????
É seu pau??
É sua namorada???

Não!!!!??

Então você não tem nada com a intimidade alheia. Sociedades tacanhas que não conseguem entender o conceito de individualismo e acham que as pessoas tem que seguir uma conduta moral prescrita, são pertencentes ao mesmo lixo do nazismo. Xingar, apedrejar e malhar pessoas por sua conduta sexual ou sua opinião é uma atitude primata que permanece aguda em todos. Sejam eles fãs de bandas emocore ou cidadãos de cidades interioranas cancerígenas.

Ninguém discute que estamos perdendo a corrida pela formação de novos seres em pessoas boas, justas e inteligentes. Ninguém debate uma melhora na formação acadêmica ou caseira das pessoas, afinal de contas assistir ao vídeo sexual e malhar a pessoa é muito melhor do que informar-se e criar uma mente com educação mínima. Não existe mais a conversa.

Tudo virou apenas um amontoado de xingamentos xenofóbicos de baixo calão, por isso que certas cidades do interior precisam ser destruídas. Para que se comece do zero, de novo. Com tolerância e sem julgamentos. Educar e crescer como indivíduos que gostam também de sexo oral.