29 de setembro de 2010

GD 60 QUANDO AS FOTOS JÁ NÃO SERVEM MAIS....

 Desde quando comecei essa sacripanta vida de cronista de música, há dois anos e meio atrás, muita coisa mudou em mim mesmo quando vou assistir à um show de rock. Os ângulos do lugar agora mostram-se equações matemáticas de resolução eclesiástica, com o intuito de conseguir uma melhor foto ou um melhor ponto de filmagem. Preocupa-me se as pessoas irão conseguir ver o que estou mostrando nos vídeos e nas fotos, uma preocupação beirando a paranóia. Então em meus momentos de William Miller, minha ânima Penny Lane fica um pouco deslocada. Uma tiny dancer out of my hands....

E isso ficou claro na noite de ontem no COMITÊ CLUB, quando pela primeira vez em minha vida, poderia assistir uma banda que me acompanha desde os primórdios masturbatórios adolescentes. J.Mascis, Lou Barlow e Murphy, o trio que sempre despejou sônicas interpretações e calmaria atordoante diante de minha cabeça estariam ali. Em poucos minutos aquela sensação de reencontrar velhos amigos sempre presentes em alma, mas não em corpo, invadiria cada pedaço de meu estômago. Mas William Miller....



E assim foram as quatro primeiras músicas (Thumb, Be There All The Time, In a Jar e Little Fury Things). Um misto de alegria incontida e frustração por não conseguir um melhor ângulo, uma melhor cena ou porque o equipamento não ajudava muito. Mas aí algo aconteceu no meio da canção FEEL THE PAIN.

Encostado por entre um trôpego equilíbrio chapliniano banhado em água para aplacar o calor, eu olhei a platéia e ao mesmo tempo, o rosto de J.Mascis. O guitarrista e herói de uma geração parece não mudar de expressão o tempo todo. Mas não é uma polaróide de apatia e conformismo. Como um monge budista ele transparece uma calma, que parece jamais poder ser destruída. Nem pelo som ruim da casa, muito menos pelo calor. Um monge sapiente de que nada poderá ser feito, se a pregação em forma de quilométricos solos de guitarra formando lâminas afiadas que cortam o ar com um poderia atômico constante, não for feita nota por nota. Captando coração por coração, fundindo alma por alma dentro daquele círculo de calor infernal e dantesco.
Se Constantine pudesse empunhar uma guitarra, ele reencarnaria na forma de J.Mascis.



São longas notas que transbordam pelo palco e chegam nas bocas e ouvidos de todos, que nesse momento formam uma orda humana que sobe ao palco, joga-se por entre os braços de um público mal tratado pela casa, que se liberta elevando a platéia de mão em mão, na direção dos celestiais acordes. Em um lugar onde todos estavam presos por entre gárgulas que administram podremente casas noturnas, o DINOSAUR JR foi libertação de endoesqueletos lotados de sinapses arteriais repletas de vida e pulsação.

O contraponto para a meditação das distorções de Mascis, era Lou Barlow. O mesmo que nos anos 90 foi mandado embora da banda, parece transpasssar seu corpo durante o show todo por uma máquina do tempo. Observa-lo empunhando cifóticamente o baixo, é ver um adolescente enfurecido esmigalhando o instrumento em cada acorde grave que suas cordas em lava entoam. Os gritos e as evocações exorcizantes pingavam alma por entre o suor lateral de seus longos cabelos encaracolados. Roberto dizia que embaixo dos caracóis de Caê, havia um sorriso, nos de Barlou há plutônio que exterioriza 1,21 GIGAWATTS de potência.

Murphy, o baterista samurai que já na segunda canção despia-se de todo o contato manufaturado, lascerou a pele da bateria por mais de hora e meia de cirúrgicas viradas. Talvez sua perfeição tenha ficado aborrecida pela qualidade de som do lugar, mas  isso não impediu que seus braços quase cibórgicos, entoassem mantras cataclísmicos.



Larguei a máquina de lado, não consegui mais sequer gravar um vídeo. O show do Dinosaur Jr. foi uma experiência de catarse coletiva intensa em cada sinapse aferente. Efetivamente eferente motriz de contrações ventriculares apaixonadas em cada garganta que entoava as letras. Uma entrega da platéia por entre os acordes barulhentos e distorções inimagináveis destiladas por Mascis e seus comparsas.

Uma sinagoga em cúpula evangelista, que pregou durante quase duas horas as escrituras talhadas em aço de como uma banda de rock deve ser. Dinosaur Jr. não são apenas três excepcionais músicos, mas sim uma confraria de mágicos que são primordiais ainda dentro do cenário, tanto quanto eram há duas décadas atrás.

Se por acaso seu ouvido saiu zunindo ontem do forno micro ondas do Comitê Club, fique sabendo que mais do que as distorções de uma banda, esse é o eco de seu coração libertado pedaço por pedaço por riffs tectônicos.
Dispenso as fotos, elas já não me servem mais, prefiro ter minha alma marcada por cordas...