Existe um tecido no corpo humano que chama-se fáscia. Uma conjunção de colágeno que percorre o corpo todo e que ainda possui funções inexatas. Alguns cientistas comprovam que esse linha fibrótica, mantérm o equilíbrio músculo esquelético, outros afirmam categoricamente que ela possui funções posturais e imunológicas.
Pois bem meu balsâmico leitor, minha fáscia dói em lugares onde jamais imaginei que existisse uma articulação. O caminho de volta da Fazenda Maeda transbordou a perda de calor do corpo por cada poro. Mostrando que apesar da pequena quantia de três dias, meus sexagenários músculos (mesmo não possuindo essa idade cronológica) parecem sentir cada fibra esticar, fazendo de minha carcaça uma marionete de mim mesmo.
Existe uma razão para todo esse dolorido pós Festival SWU. Mas isso é assunto para depois...
Primeiro, não adiantava mudar o horário, chegar mais cedo ou mais tarde daria na mesma.A organização continuava no mesmo esquema another brick in the wall de ser. Milhares de pessoas estacionadas nas filas sem andar e informações desencontradas na revista fizeram com que a entrada no último dia do festival (para quem chegou cedo), demora-se uma hora.
E hoje (ontem) mesmo sendo o melhor dia do festival com uma larga diferença para o segundo (que foi o primeiro), foi um dia ingrato. Por poder assistir aos Autoramas aqui em São Paulo, foi dolorida a decisão em favor de Yo La Tengo. Do mesmo jeito que foi duro não conseguir entrar e perder Alain Johanes. O que também aconteceu nos dias anteriores. Pois Superguidis, Macaco Bong e ainda no segundo dia Bomba Estéreo, Tulipa Ruiz e Luisa Maita. Nem precisa dizer que a desargonização do festival é a única coisa em comum entre todas as opiniões dos transeuntes. Mas o assunto agora é o Yo La Tengo....
É preciso ter no mínimo coragem para entrar em um festival, olhar o horário de seu show e perceber que você vai tocar depois de uma atração de rap (o insípido Rahzel) e antes de uma banda venerada pelos fãs do tal metal. E todo mundo sabe (principalmente o Carlinhos Brown), o que é tocar antes de bandas de peso. Mas não basta ter culhão, é necessário ser Ira Kaplan.
O vocalista e guitarrista da banda, acompanhado da formação que dura já há vinte e seis anos com
Georgia Hubley (bateria) e James McNew (baixo), começa o show de maneira distorcida. O som não ajuda novamente, mas From A Motel 6 foi tocada com a perfeição que é peculiar ao grupo.
Segue-se então um set list que "lembrava" o Sonic Youth. Muita distorção pesada e alta, com a banda cada vez maior diante dos fãs do Avenged Sevenfold.A batalha estava começando, pois durante o show todo onde a banda destilou canções como Periodically Double or Triple e Sugarcube, as forças contrárias estavam em trajeto de colisão. Podia-se ver Ira cinicamente "provocando" a platéia, como se exclamasse:
"Vocês querem metaleira distorcida, pois tomem mais uma!!!!"
O embate final foi feito com os quinze minutos de Pass the Hatchet, I Think I'm Goodkind. Educados, durante o solo alongado (e propopsital de Ira Kaplan), dedos em riste e vaias. Mas não ouvia-se as vozes, o som que ecoava dentro das caixas de ressonâncias auditivas era a distorção insandecida do guitarrista. As vaias aumentavam, o solo ficava mais alto, mais longo e mais visceral. Ira quebra as cordas da guitarra, larga o instrumento no chão berrando distorção. O Yo La Tengo não precisa de dedos em riste, precisa de espaço de propagação. A outra guitarra termina o solo nas costas do vocalista gritando. Não tem como não aplaudir de pé esse cara que em nenhum momento apresentou um terço da má educação dos fervorosos do metal. A banda sai forte e ganha por longa margem a batalha contra os fãs mal educados de bandas medianas.
Mas eis que surgem do outro lado do palco os metralhas irmãos Cavalera e sua conspiração. Que parece ter ficado clara para mim.
O Cavalera Conspiracy é uma banda de covers do Sepultura com metade da banda original. Na verdade o cover é licença poética, pois as canções em sua maioria são de Max. Então essa traquinagem é bem vinda e sensacional. Tudo acalmado com o poderio de fogo de Igor e guturalidade seminal de Max. Dreads, navalhas faríngeas e peso. Um show que além do público hipnotizado, trincou os tímpanos. Testimony, Roots Bloody Roots e algumas canções novas saciaram o gosto.
E assim encaminhou-se para o maior paradoxo pessoal da noite, o show da banda Avenged Sevenfold. O som da banda não é palatável, muito menos de fácil digetão. A banda que já tem estrada em quilometragem , comandou um ritual com uma orda insandecidade de fãs. Mas longe do clima de guerrilha do Rage Against The Machine.
Talvez porque a noite mais metaleira do festival, tenha sido a mais família. Afinal de contas não eram poucos os pais que acompanhavam seus filhos com as camisetas da banda.O Avenged Sevenfold jamais me fará comprar discos, mas o show foi empolgante e a catarse com os fãs é digna de nota.
E por mais clichê que possa parecer, quando o festival deixou o tom político ou a pompa de apresentações "elegantes", acabou funcionando melhor. Mas isso não apaga três dias de organização horrível.
Mas aos show...
Os americanos do Incubus, fizeram um show competente e só. Talvez pela questão do tempo reduzido em uma escalação que é no mínimo uma grande confusão, a banda desfilou algumas das canções mais bacanas do repertório. Drive (cantada em uníssono), Anna Molly, Wish You Here foram pequenas jóias para um público feminino que a cada suspiro de Brandon Boyd, gritava em plenos pulmões.
Mas aí o mundo tomou um rumo diferente.....
Eram exatamente 20h e 58m, quando o Palco Ar teve suas luzes apagadas. Mas dessa vez não havia nenhum comercial de cerveja, muito menos as mensagens em favor da sustentabilidade, aquela que vai fazer Seu Maeda perder o sono por ter que limpar as toneladas de lixo que sobraram no espaço. Apenas um vazio e a aglomeração de pessoas que aproximavam-se para ver um dos mais esperados shows do dia, o Queens Of The Stone Age.
Josh Homme, líder e único remanescente da formação original (porque não dizer dono da marca), é um cara no mínimo marrento. Já não é de hoje que a banda tem um histórico de fazer apenas aquilo que quer e seu líder não ser o mais lembrado pela simpatia. No dvd Over The Hills and Through The Woods, gravação de um show em Londres, Josh para a apresentação e confronta uma pessoa da platéia que estava jogando coisas no palco. E não faz isso do jeito mais educado. Então já era de esperar-se que a banda não entraria no palco se alguma coisa estivesse de errado.
Nem é preciso dizer que o som do festival estava em mais um dia de problemas. Aliás fica aqui a dúvida.
O que compromete mais o som?
As gravações para os canais Globo, ou as mudanças nos acertos para cada banda?
Passada quase uma hora e após algumas vaias pesadas. Josh Homme, Troy Van Leeuwen, Joey Castillo, Dean Fertita e Michael Shuman entraram. Como se soubessem extamente o que aconteceria nos próximos minutos, um barbado Homme empunha a guitarra e cumprimenta a platéia. Então inicia-se aí uma experiência que foi no mínimo devastadora.
Fell Good Hit For The Summer e The Lost Art Of Keeping Secrets (as duas primeiras de Rated) já incendiaram o público. Joey Castillo, o motor de explosão da banda, desde 3's and 7's comandava o ritmo que em cada acorde aumentaria em velocidade e força. A formação atual é menos visceral do que a que tinha Nick Olivieri, mas é tão redonda e concisa, que é capaz de deixar um set list que teve que ser cortado em mais de meia hora, inesquecível. Do mesmo jeito que as versões mais longas de canções como I Think I Lost My Headache são sensoriais.
Não existe uma única célula dentro de seu corpo que não seja arrancada da epiderme, convulsionada em riffs pesados com solos cheios de maestria feitos por Troy e reposta em seu corpo em forma de catarse coletiva. Durante o solo de No One Knows, todo o festival acompanhou nas palmas (e quando eu escrevo todo mundo, foi todo mundo). O final do show com Go With The Flow, No One Knows e A Song For The Dead é disparado um dos melhores momentos de todos os tempos, no assunto shows no Brasil. Pesado, inesquecível e a melhor apresentação do festival sem sombra de dúvida.
Como superar um show como o do QOTSA seria uma tarefa impossível. Não para um quarteto de Boston que tem na bagagem um set list que é no mínimo histórico. Os Pixies não só emocionaram o público como também contaram a história da música alternativa em uma hora e meia. E o set list foi uma belezura só. Debaser, Tame, Hey, U-Mass, Here Comes Your Man, Gigantic, Monkey Gonne To Heaven, Nimrod's Son, Wave Of Mutilation, Caribou, La La Love You, Crackity Jones, Where Is My Mind, Bone Machine, Velouria, Number 13 Baby, Gounge Away, Mr. Grieves e Vamos. Mesmo não estando na ordem e faltando Planet Of Sound, é nótório que depois dessa dupla de shows ninguém mais queria saber de Linkin Park e Tiësto (a não ser os fãs). Aliás mais uma para a conta das presepadas envolvendo a organização do evento, quem em sã consciência fecharia um festival com essas duas atrações???
O Festival SWU apenas disse à que veio no último dia, muito mais pelas bandas sensacionais e históricas do que pela organização que mais uma fez teve problemas com o som (o que já virou pleonasmo), com a entrada das pessoas e com a revista (dessa vez a caneta passou). Existem histórias de bastidores que devem ser apuradas e os erros devem ser corrigidos imediatamente. Se o ano que vem o festival voltar, aprender com os erros é virtude.
Porque por mais que a intenção por trás desse festival (a sustentabilidade) seja nobre e inédita, não pode-se esquecer que os problemas foram muitos. E eu volto a insistir na tecla de que a frase "se você não quer perrengue não saia de casa", não pode ser usada quando o assunto é aglomerar milhares de pessoas.