Existiu uma diferença básica entre os shows de hoje e ontem no festival SWU. Não havia aquele clima de guerrilha camuflada, mas a noção de que ainda estamos longe de um modelo ideal de funcionamento é evidente.
Em comum os dois dias acumulam reclamações dos frequentadores do festival. Sejam elas dispostas na entrada ou na saída.
E nem por nenhum centésimo de segundo imagine meu cético leitor, que isso passe por qualquer falta de boa vontade. Impossível não possui-la, quando demora-se duas horas e alguns minutos para percorrer exatos seis quilometros. Gralhas em um caminho recoberto de poeira e espera.
As revistas hoje feitas pela Polícia Militar cheiravam à Hollywood. De costas para a fila de entrada e encarando todo o enorme público preso nas catacras, a frase era apenas uma:
"De costas e mão na cabeça".
Tomaram-me as duas canetas (uma inclusive um presente), meu bloco acabou em eu sozinho, o que não impediu a grama que é queimada em sedas, adentrar o recinto em grande quantidade. Hoje a espada e a maconha foram mais fortes que a pena.
Mas na verdade depois de dois dias, seu corpo pede um pouco de calma. Então mesmo sem poder conferir Luisa Maita e Tulipa Ruiz, devido ao engarrafamento que dobrava a rodovia, restou o doce alento de Regina Spektor.
E como é de uma beleza moldada em algodão e carisma o show dessa russa. Simples palco onde apenas um violino, contra baixo e bateria distante formam uma irmandade que acalenta. A cantora em muitos momentos durante o show, parece não acreditar na devoção e nas palmas da platéia. Fidelity, Samsom, On the Radio foram algumas das canções recebidas por uma coleção de palmas e coros. A voz de Regina é bálsamo e a emoção no rosto nada frio da cantora, mostrava que havia ali uma simetria perfeita. Ela agradece em todas as canções e é difícil não marejar diante de tamanha sinceridade de alma e sentimentos. A fazenda Maeda parece transformar-se em um pequeno palco intimista, mas com brilho imenso.
Hoje o festival foi marcado por músicos de primeira. A prova cabal dessa afirmação foi a banda que acompanhou a cantora Joss Stone. Em vestido longo e descalça, a britânica foi capitaneada por um combo com cheiro de soul que pulsava em cada batida. O trio de backings vocals era um espetáculo à parte, com as suas coreografias e mantendo o calor do palco, afinal de contas até Joss admitiu o frio desértico que assolava a Fazenda Maeda hoje. Se por um lado Regina é o doce, Joss é infernal. A cantora tem algo que hipnotiza e a platéia já estava ganha logo na abertura com Super Duper Love. Ela faz o que bem entende com a voz e basta fechar os olhos e imaginar-se em alguma sessão de gravação da Motown nos anos 60.
De humor impecável e abusando das fantasias dos marmanjos presentes, a cantora amarrou a bandeira brasileira no pedestal do microfone e misturou soul e reggae quando citou Bob Marley. O cutucão na gravadora com a frase agradecendo o público por ser apaixonado pela música, fechou uma apresentação cravada de suingue.
O mesmo suingue que não pode ser atribuído à Dave Matthews e sua banda. As raízes do folk e blues que são a tônica do trabalho da banda aparecem em cada canção. A platéia brasileira aclama a banda em cada uma delas. Crash Into Me como sempre é um dos maiores hits de Dave e assim é tratada pelo público, do mesmo jeito que toda a apresentação. Não há como discutir o talento e a maestria dos músicos, afinal de contas os solos improvisados e a mítica das notas é pulsante. Mas fica sempre aquele gosto de mais do mesmo.
Tecnicamente falando é uma das melhores apresentações do dia, mas por muitas vezes a paixão cede lugar a técnica. E o momento mais visceral acaba sendo a cover de Bob Dylan de All Along The Watchtower, imortalizada por Hendrix.
O que não impediu o público de verter lágrimas durante o show.
Era chegado o momento de saber se os meninos seriam separados dos homens. Quando o Kings Of Leon veio ao Brasil pela primeira vez, no extinto Tim Festival, a banda estava com o sensacional Aha Shaker Heartbreaker na bagagem. Talvez o melhor disco, tão grandioso quanto a quantidade de cocaína usada. O show foi insosso e modorrento, amargo na boca da platéia. Hoje os Followill possuem status de gigante e o palco (que veio completíssimo) é prova disso. De uma beleza ímpar e com uma produção impecável. Mas...
A banda está afiada, com a vontade de mostrar-se um conjunto de músicos de primeira linha. Conseguem, afinal de contas, o início com as canções lado B é inusitado. Mas o som do festival mais uma vez não colabora e tudo parece diminuir a animação. Nem a versão de Molly's Chamber parece surtir efeito. E nem adianta cobrar de Caleb uma desvairada e visceral apresentação, pois a banda tem esse ar naturalmente blasé. O vocalista está com a garganta cada vez melhor, mas essa falta de energia explosiva muitas vezes compromete.
Nesse segundo dia de festival, entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos. Onde as lonas das tendas abertas tornaram-se banheiros públicos e os homens não apresentavam sinais de cavalheirismo algum, as mulheres resolveram mostrar que com potentes vozes e doces atos, a beleza das notas está garantida.
Amanhã....ahh amanhã tem Queens Of The Stone Age e Pixies, precisa de mais alguma coisa!!!!!