21 de abril de 2010

GD 36 VISIONÁRIOS ATEMPORAIS


Sair de casa durante um feriado pode ser uma coisa perigosa, ainda mais sabendo que você vai à um local onde as pessoas provavelmente acabarão esbarrando e tocando em você. O que para quem tem problemas com isso pode ser uma sensação de medo inerente. Mas sempre com a companhia certa as coisas se tornão mais calmas........
Cinco almas de pessoas formadas por gênios. Cada qual mantendo as características particulares, mas ao mesmo tempo fazendo em suas artes coisas que ultrapassam o limite do tempo.

Primeiro um rapaz de nome ANDREW WARHOLA.
Quando seus pais vieram de Varsóvia em 1928 para os Estados Unidos, talvez não imaginassem que seu filho seria o ícone que ainda não havia se formado. Mas sempre teve um rosto que mixava bem olhares claustrofóbicos com uma clareza de neurose calma. A exposição Andy Warhol, Mr. America que acontece na Estação Pinacoteca (largo General Osório, 66, Centro, São Paulo, SP, tel. (11) 3335-4990), além de ser a maior exposição do artista na América do Sul, nos leva ao mundo onde além de visionário pelo contexto, mostra a visão bem crítica de toda uma nação pelos olhos de Andy.
A distribuição de selos colantes logo na entrada (mesmo parecendo um ato retirado das páginas de 1984), mostra exatamente uma das visões que o artista tinha: todos terão seus adesivos colantes juntamente com seus quinze minutos de fama. Isso já faz com que o clima já adentre as nossas narinas, muito mais do que o cheiro de crack que exala dos cachimbos dos viciados que habitam a região da Pinacoteca.
A mostra expõe uma faceta de Andy que o fez criar as maiores obras: a serigrafia. E logo nas primeiras é possível acompanhar toda a evolução dele. Seja pelas críticas ao racismo americano com as fotografias de revoltas contra os brancos, ou como pela sede de miserabilidade que a sociedade desde aqueles tempos já fomentava. Os programas de mundo cão que temos atualmente nas televisões abertas já eram previstos por Andy (principalmente com as duas obras que estão na exposição Car Crash e Pink Car Crash). Do mesmo jeito que as duas fotografias com o tema suicídio jogam diretamente na cara da sociedade o seu auto desejo por catástrofes.
Mas também fica claro nesse primeiro momento que o artista gostava de desconstruir a imagem da violência, do mesmo jeito que Tarantino a desconstrói, ao torná-la mais palatável e necessária. Na sequência de fotos serigrafadas da cadeira elétrica, por exemplo, as imagens iniciam-se por cores mais claras onde o cenário todo que remete a violência dos atos é mostrado por inteiro até um momento onde uma tela escura não permite mais a visão da violência. Tudo parece muito simples, mas no fantástico mundo de Andy, nada é tão simples......A foto que mais impressiona nessa fase é a da obra Thirteen Most Wanted. Muito menos pela beleza da foto de um criminoso, mas sim pela capacidade de captar a humanidade dentro de uma pessoa que necesssariamente você não queria que casasse com a sua virginal filha. A explicação sobre a obra pelas próprias palavras de Andy diz tudo. As pessoas gostam de saber sobre criminosos do mesmo jeito que gostam dos detalhes das celebridades. Soco no seu estômago.......
E por falar em soco no estômago.......
Já volto a falar sobre isso.
Depois desse mar de criticismo em cima da sociedade moderna, a transição para as mais famosas obras é feita de maneira sutil. Os retratos de Marilyn Monroe (iniciados no dia da morte da atriz), assim como os do presidente assassinado Kennedy mostram que além da óbvia vanguarda por fazer duas HQ mórbidas, o artista estava iniciando uma outra veia de previsões.
Na obra sobre Kennedy, que é um misto de serigrafias com textos que parecem serem retirados de uma máquina que recebia as notícias nos tempos pré computadores (se você já assistiu ao filme Todos os Homens do Presidente, vai ver uma máquina dessas), esses textos são feitos de maneira rápida e com poucos caracteres. As frases são curtas e as informações são muitas. Alguém aí pensou Twitter?????
Do mesmo jeito que as imagens de Marilyn, conservada em beleza colorida, são uma síntese do que se tem hoje. Nos comunicamos por winks e emoticons dentro de conversadores binários, caricaturas de um escrita que um dia já foi necessária.

Mas voltando ao soco no estômago....
Quando em 1965 Warhol decidiu que não mais seria um serigrafista e sim um diretor de cinema, é que talvez a parte mais criticada dele se tornaria visível.
A mais difícil também de se entender.
Nesse tempo a famosa Factory já existia e a busca dele por dinheiro e fama apenas faziam com que as pessoas descoladas e indies da época circulassem ao seu redor. Ele era sim um catalisador de pessoas, isso fica claro em qualquer livro que você lê sobre a época.
As pessoas o usavam pelo mito alternativo, ele usava as pessoas por que tirava tudo o que achava necessário para que as suas obras continuassem. Mas o que fazer depois com elas era uma quase tragédia grega.
Dessa fase existem obras sensacionais, como a série de polaróides com inúmeros auto retratos e fotos de uma menina que por muito tempo foi a musa vampirizada e vampira de Andy:

Edie Sedgwick
A Factory Girl original, foi musa de Andy até a chegada de Nico do Velvet Underground. E ao olharmos as fotos, filmes e Screen Tests (uma série de filmes de 3 minutos onde Andy captava os rostos das pessoas aleatóriamente), fica fácil perceber porque o mundo girava ao redor dele e de Edie. Dificil não se enamorar pelos olhos enormes ou a pequena pinta ao lado do rosto dela. Um arcanjo medieval torneado por curvas leves como nuvem formada pelos cabelos curtos e propositalmente desajeitados. Como qualquer perigosa ninfa, Edie é capaz mesmo depois de muito tempo fazer com que os homens se apaixonem por ela perdidamente.
Mas a faceta ligeiramente detestável de Andy fica evidente nessa parte da exposição. O fato de que provavelmente ele usava todos ao seu redor e retirava tudo o que queria, para que depois que não precisasse mais deles fossem descartados. Como em uma polaróide gasta pelo tempo, o que interessava era apenas o hoje e mais nada. Como diria os Sex Pistols, no future.......

E mesmo assim ainda é possível evidenciar mais uma das críticas do artista. Não é isso mesmo que acontece hoje em dia?????
Paparazzis correndo atrás de uma cena??
Usando pessoas para conseguir um melhor escândalo???
As pessoas não costumam usar as outras para que consigam as coisas????
Não é essa a maior crítica à sociedade atual??
A de que não existe mais nada que não seja tapinhas nas costas de seres com interesses em se tornar famosos???
Você já não ouviu a expressão que hoje em dia tudo são apenas hypsters e wannabes????
Pois bem, mais uma vez mesmo sendo arrogante e por muitas vezes de atitudes um tanto quanto asquerosas, Andy criticava a postura de seu tempo e criava uma visão que seria determinante como marco histórico.

Uma exposição que retrata o tempo atual muito antes mesmo dele acontecer. Andy Warhol era tudo:
Visionário, especulador, arrogante, hypster e wannabe. Mas teve a coragem de assumir isso e a frase que inicia a exposição também poderia servir para fecha-la. Nela ele diz que o que importa são apenas as fotos, não há nada além disso. O que Andy era estava lá.
O mais profundo, além de não existir era moldado como ele contava e ele mudava a história toda a vez....


E a história dos nossos segundos gênios será contada mais uma vez por outro ponto de vista.

THE BEATLES HIDDEN GALLERY
.
Nessa semana, mais precisamente dia 28 uma coleção de fotos dos Beatles vai ser lançada. As fotos originais feitas entre 1963 e 1964, durante uma turnê dos Quatro Gênios de Liverpool. Todas em preto e branco, fotografadas por Paul Berriff. Ele trabalhou como documentarista da BBC e fotógrafo.
São inéditas, com a banda muito à vontade e com toda aquela fúria incontrolável dos tempos que os Beatles começavam a mudar o mundo da música para que nunca mais fosse como antes. O início da lenda está todo lá. Um concurso on line se encarregou de escolher todas as fotos que serão usadas dentro do livro. E se você tem muita grana vai preparando o bolso, porque os precinhos variam de 500 à 2500 libras.
Mas do mesmo jeito que a exposição em SP, o livro mostra momentos onde a genialidade de uma banda e um artista que captaram o momento e transformaram em algo que ultrapassou os limites de um país e se tornou universal.......