
Se existe uma banda que eu me recrimino por gostar é o Pearl Jam. E olha que eu me libertei dos elos acidulantes da lisergia por causa deles e do Nirvana. Quando em visita à casa de uma tia em São Bernardo, os dois clips que me deixaram completamente mudo e alucinado foram Smells Like Teen Spirit e Jeremy. Mas depois de algum tempo descobrindo as coisas, eu me via em uma encruzilhada:
Como gostar de uma banda que tinha tudo para ser a maior farofa do mundo????
Se olharmos o passado de quase todos os integrantes da banda, eles nasceram no recheio de galeto do rock nos anos 80. Enquanto um lado dos independentes era movido à convulsões sônicas os outros iriam fundar o Pearl Jam.
E para piorar a situação, o movimento grunge, que foi a transformação do independente em mainstream teve em TEN, o disco de estréia da banda, a alavanca que a indústria queria para fazer o rock atingir às massas. É um disco que foi lançado fora de seu tempo certo, pois na verdade atualmente no rock falta um pouco dessa picardia juvenil em querer ser gigante sem perder a originalidade. Mas eu não gosto de Ten.......
Quando Eddie Vedder e a tropa perceberam a tramóia da indústria eles então resolveram tomar um lado B necessário, mas nada que eles gravassem poderia retirar aquele gosto de recheio de frango de domingo do som. Era inevitável que uma banda americana como eles invertessem todos os valores do som original (do mesmo jeito que o Green Day inverteu o punk anos depois). Por isso o nariz e pescoço torcidos por muita gente do mundo "muderninho e indie" em relação ao PJ. Mas eles mereciam isso de verdade?????
E a briga sempre foi essa, ser ou não uma banda de rock de arena misturada com uma veia punk de botique. Isso quase causou o fim, mas para o bem ou para o mal dizer de todos o PJ está aí até hoje.
E é nesse mal dizer que se esconde uma pequena falta de conhecimento em relação à discografia da banda. E isso é culpa de Ten, afinal de contas depois do segundo disco (Versus) a banda se enfiou em um auto limbo que restava apenas a imagem de Alive e Even Flow.
Mas existiu um disco que além de definir os caminhos que seriam percorridos por muito tempo, mostrou que sim eles não eram apenas filhos das calças do Bon Jovi......
VITOLOGY foi gravado durante a turnê do segundo disco. Muitas das músicas foram terminadas apenas vinte minutos antes das gravações e as brigas entre a banda começaram a aparecer de maneira mais aguda. O intermediário Stone Gossard, também guitarrista já não conseguia fazer com que o baterista Dave Ambruzesse conversasse com Vedder e Jeff Ament (o baixista) e para complicar ainda mais um pouco a situação, Mike McCready o outro guitarrista da banda se internou para tratamento contra cocaína e álcool. Nem precisa de uma bola mágica para perceber que isso seria uma tragédia sem limites.
E assim foi. O baterista foi despedido muito mais pela falta de comunicação com o resto da banda do que por outro problema. Eddie Vedder começou a tocar mais guitarras e tomar as decisões finais e sem comunicação as coisas foram ficando pesadas, até que Jack Irons (baterista que formou o Red Hot Chilli Peppers e indicou Vedder para o PJ) entrou em cena já no final das gravações. Longe da loucura dos Peppers, afinal de contas essa época foi o início da fase pesada de drogas de Anthony Kieds que acabou desembocando na morte do guitarrista Hillel Slovack por oversose (Under The Bridge fala sobre isso), Jack conseguiu unir a banda novamente.
E essa tensão é sentida em cada nota de Vitology, começando por LAST EXIT. Com uma letra que clama por algo que não é possível mais sentir, a banda começa com ecos de um punk domado, mas nem por isso menos sujo. Não havia nenhum solo de guitarra, a música era rápida e ponto final. O vocal gritado com nuances estranhas era o oposto do que havia em Ten. Talvez a banda buscasse paz, pois o verso "Let my spirit pass" é de uma força que destrói qualquer forma de compaixão. É doído até o ultimo fio de solidão.
A guarda não abaixa e o disco explode em uma canção mais rápida ainda. SPIN THE BLACK CIRCLE é uma homenagem anarquista ao vinil, com todos os ecos do punk ressoando pelos riffs que parecem gastar cada pedaço de pele dos dedos. Vitology foi lançado primeiro em vinil no dia 06 de dezembro de 1994, o ano da morte de Cobain. Depois apenas em cd e a banda ainda fez a caixinha do disco uma cópia (em papel) de um manuscrito médico de 1920. Essa busca pelo seminal, pelo início dos tempos é notada em todo o disco e essa canção é a formação genética inicial dessa característica.
Mas a luta entre ser uma banda de rock americana não havia ido embora e NOT FOR YOU é isso. Pretensamente involutária em ser um hino aos jovens perdidos do grunge, a canção desacelera e pela primeira vez existe um solo mais longo. E a letra que era endereçada as gravadoras não deixava dúvidas que sim existia dentro do PJ uma grande celeuma sobre ser grande e independente, entre escrever canções acessíveis ou hinos poderosos como o Sonic Youth. Mas a luta entre as raízes e as vontades sempre ocasionaram as melhores canções dentro da banda.
TREMOR CHRIST é uma prova disso. A arritmia da bateria levada pela desconexa guitarra mostra que a violência vocal de Vedder poderia ser contida, mas talvez nunca calada totalmente. Se existe uma canção que mostre uma identidade, essa é a ideal. Mesmo anos depois quando o PJ resolveu que era a hora de assumir-se banda de rock fácil e sem rodeios, a canção ainda mantém uma força poderosa que lentamente vai tomando o formato de onda, que quebra em direções precisas e velozes. Como não deixar seu peito se abater por uma pancada que mostra em muitas vezes aquilo que você é capaz de sentir em horas alarmantes. Catarse sonora certa por entre as reclamações sobre a pureza e capacidade de uma banda. O falso refrão aos poucos vai despindo sua pele até que um grito prenda sua alma ao redor da sua essência. Mesmo porque como já diz a canção os menores oceanos produzem as maiores ondas.......
O round perdido pela pretensão de se mostrar uma banda qualquer aparece em NOTHINGMAN. Uma balada mais bela do que Black e com uma levada igualmente radifônica, mesmo sendo extremamente fácil para torcer o nariz de qualquer fã dos Toy Dolls. Quando Eddie Vedder explica o sentido dessa canção (sobre amar alguém de verdade e não fazer nada de ruim, pois se não você terá nada), aquela imagem que ele passava de não messias entra em contradição.
E o som do PJ vai junto, pois como uma banda que veio de um movimento onde o barulho era a tônica é capaz de falar sobre amor?
Isso era no mínimo incoerência, mas onde ela está quando se tem o dobro da idade das pessoas que estão olhando para o palco na direção de uma banda. O rock não tem coerência e se tivesse quiçá fosse tão belo quanto essa canção.
WHIPPING retoma a pancadaria, esse choramingo violento mostra que realmente por trás de toda a condição truculenta na alma, naquele momento, o som da banda estava sendo definido. Esse disco é um divisor de águas pelo que se viu depois, onde o Pearl Jam decidiu definitavente esquecer as esquisices de No Code e seguir o caminho mais pesado ao mesmo tempo palatável que Yeld mostrou. Whipping é exatamente o nascimento disso, afinal de contas as notas dessa canção estão todas espalhadas nos discos posteriores.
Mas as esquisitices ainda se manifestavam em músicas como PRY, TO. Uma oração que clama por privacidade (P-R-I-V-A-C-Y é a única coisa que se ouve). Um minuto e vinte e mais nada.
Riffs que colabam-se entre si, ritmos que não agridem mas possuem uma vontade libertar-se de amarras inconscientes de uma maneira ímpar. Tudo isso em uma canção que acabou se tornando um dos hinos cantados em uníssono pelos fãs, CORDUROY. A luta contra a fama que "a banda não queria", dilacera cada verso. "Take my hand, not my picture", "Can't buy what I want 'cos it's free" são pequenas confissões. E isso talvez explique a adoração que as pessoas nutrem pela banda mesmo depois de vinte anos. Quando se é capaz de identificar algo que faz com que você consiga sentir seus dilemas estranhamente sendo colocados na sua frente através de uma música, isso dispara uma reação dentro de seu ventrículo que por muitas vezes desclora seu peito em lágrimas ou nervosismo. Mas nunca se faz presente a imagem do impassível, mesmo porque não é possível se inverter o sentimento latente dentro do peito.
A tentativa um pouco frustrada de se mostrar "indie" demais escapa em BUGS, uma canção que parece ter sido feita para desconstruir a imagem da banda como queridinha. Tudo muito estranho e isso voltaria no final de disco, mas antes......
SATAN'S BED. Uma nota bem vagarosa youthiana se ouve nessa canção que tem toda a força e pancadaria das bandas que tocavam alto. A entrada errada da bateria apenas dá uma sujeira para a canção sadomasoquista do disco. Mesmo sendo sobre força interior e mais uma vez o amor pela vida, existe uma cadência primal dentro dela que faz com que seja muito boa de se ouvir em tempos de revolta juvenil incandescente. O rock foi feito para isso.
BETTERMAN é outra daquelas que demarcam o território por onde a banda seguiria. Refrão cantado em coro, versos que colam dentro do ouvido de qualquer fã menos afoito. Muita melodia melosa e muita vontade de parecer trilha de novela mexicana onde a personagem principal é rejeitada por todos. Mesmo a letra falando sobre violência familiar. Tudo muito fácil, muito limpo demais e muito descartável.
Mas então como não se emocionar com o mar de mais de cem mil pessoas que assistiram aos shows da banda no Brasil e cantaram essa música junto com a banda em um volume tão alto que todas as gargantas sangravam emoções. Como é que se pode tarjar uma banda de farofa se ela é capaz de despertar tamanha comoção e formar uma onda humana de sentimentos que deslocaria uma cidade inteira. Serão todos pessoas melosas românticas demais, ou talvez sejam tão vivas que sentem cada nota como se fosse uma parte delas mesmas.
TREMOR CHRIST é uma prova disso. A arritmia da bateria levada pela desconexa guitarra mostra que a violência vocal de Vedder poderia ser contida, mas talvez nunca calada totalmente. Se existe uma canção que mostre uma identidade, essa é a ideal. Mesmo anos depois quando o PJ resolveu que era a hora de assumir-se banda de rock fácil e sem rodeios, a canção ainda mantém uma força poderosa que lentamente vai tomando o formato de onda, que quebra em direções precisas e velozes. Como não deixar seu peito se abater por uma pancada que mostra em muitas vezes aquilo que você é capaz de sentir em horas alarmantes. Catarse sonora certa por entre as reclamações sobre a pureza e capacidade de uma banda. O falso refrão aos poucos vai despindo sua pele até que um grito prenda sua alma ao redor da sua essência. Mesmo porque como já diz a canção os menores oceanos produzem as maiores ondas.......
O round perdido pela pretensão de se mostrar uma banda qualquer aparece em NOTHINGMAN. Uma balada mais bela do que Black e com uma levada igualmente radifônica, mesmo sendo extremamente fácil para torcer o nariz de qualquer fã dos Toy Dolls. Quando Eddie Vedder explica o sentido dessa canção (sobre amar alguém de verdade e não fazer nada de ruim, pois se não você terá nada), aquela imagem que ele passava de não messias entra em contradição.
E o som do PJ vai junto, pois como uma banda que veio de um movimento onde o barulho era a tônica é capaz de falar sobre amor?
Isso era no mínimo incoerência, mas onde ela está quando se tem o dobro da idade das pessoas que estão olhando para o palco na direção de uma banda. O rock não tem coerência e se tivesse quiçá fosse tão belo quanto essa canção.
WHIPPING retoma a pancadaria, esse choramingo violento mostra que realmente por trás de toda a condição truculenta na alma, naquele momento, o som da banda estava sendo definido. Esse disco é um divisor de águas pelo que se viu depois, onde o Pearl Jam decidiu definitavente esquecer as esquisices de No Code e seguir o caminho mais pesado ao mesmo tempo palatável que Yeld mostrou. Whipping é exatamente o nascimento disso, afinal de contas as notas dessa canção estão todas espalhadas nos discos posteriores.
Mas as esquisitices ainda se manifestavam em músicas como PRY, TO. Uma oração que clama por privacidade (P-R-I-V-A-C-Y é a única coisa que se ouve). Um minuto e vinte e mais nada.
Riffs que colabam-se entre si, ritmos que não agridem mas possuem uma vontade libertar-se de amarras inconscientes de uma maneira ímpar. Tudo isso em uma canção que acabou se tornando um dos hinos cantados em uníssono pelos fãs, CORDUROY. A luta contra a fama que "a banda não queria", dilacera cada verso. "Take my hand, not my picture", "Can't buy what I want 'cos it's free" são pequenas confissões. E isso talvez explique a adoração que as pessoas nutrem pela banda mesmo depois de vinte anos. Quando se é capaz de identificar algo que faz com que você consiga sentir seus dilemas estranhamente sendo colocados na sua frente através de uma música, isso dispara uma reação dentro de seu ventrículo que por muitas vezes desclora seu peito em lágrimas ou nervosismo. Mas nunca se faz presente a imagem do impassível, mesmo porque não é possível se inverter o sentimento latente dentro do peito.
A tentativa um pouco frustrada de se mostrar "indie" demais escapa em BUGS, uma canção que parece ter sido feita para desconstruir a imagem da banda como queridinha. Tudo muito estranho e isso voltaria no final de disco, mas antes......
SATAN'S BED. Uma nota bem vagarosa youthiana se ouve nessa canção que tem toda a força e pancadaria das bandas que tocavam alto. A entrada errada da bateria apenas dá uma sujeira para a canção sadomasoquista do disco. Mesmo sendo sobre força interior e mais uma vez o amor pela vida, existe uma cadência primal dentro dela que faz com que seja muito boa de se ouvir em tempos de revolta juvenil incandescente. O rock foi feito para isso.
BETTERMAN é outra daquelas que demarcam o território por onde a banda seguiria. Refrão cantado em coro, versos que colam dentro do ouvido de qualquer fã menos afoito. Muita melodia melosa e muita vontade de parecer trilha de novela mexicana onde a personagem principal é rejeitada por todos. Mesmo a letra falando sobre violência familiar. Tudo muito fácil, muito limpo demais e muito descartável.
Mas então como não se emocionar com o mar de mais de cem mil pessoas que assistiram aos shows da banda no Brasil e cantaram essa música junto com a banda em um volume tão alto que todas as gargantas sangravam emoções. Como é que se pode tarjar uma banda de farofa se ela é capaz de despertar tamanha comoção e formar uma onda humana de sentimentos que deslocaria uma cidade inteira. Serão todos pessoas melosas românticas demais, ou talvez sejam tão vivas que sentem cada nota como se fosse uma parte delas mesmas.
AYE DAVANITA é uma quase preparação para a última canção, com mais ritmos tribais de fachada por entre uma sobra de estúdio que acabou entrando como desconstrução. Nada mais justo para essa tentativa de fugir do inevitável. Talvez em canções como essa é que a mídia americana se baseou para muitas vezes chamar o disco de ridículo, mas não compromete tanto assim.
E aí chegamos na maior encruzilhada dentro de Vitology, IMMORTALITY.
Por mais que não se queira é inevitável que tudo nessa canção nos lembre da morte de Kurt. É preciso lembrar que pouco tempo antes de morrer, Kurt havia conversado com Eddie Vedder e desfeito um equívoco feito pela mídia decorrente de uma entrevista do líder nirvânico. Quase que o Nirvana e o Pearl Jam foram feitos os Beatles e Stones do grunge.
Durante uma entrevista para a Rolling Stone americana, Cobain disse que não gostava do Pearl Jam e de seu vocalista, pois a banda não significava nada que não fosse muito comercial e ruim demais. Algum tempo depois em um festival onde as duas bandas estavam juntas, reza a lenda que Courtney Love e a esposa de Vedder resolveram essa pendenga colocando os dois para conversar. Algum tempo depois Kurt declarou que não gostava das músicas mas que Vedder e a banda eram caras bacanas e tudo mais. A morte dele levou o vocalista do PJ à uma depressão que quase custou o final da banda, e tudo isso reflete na letra dessa canção que por mais que ninguém afirme tem endereço certo. Mesmo porque a letra da canção que foi gravada é diferente da original.
E aí chegamos na maior encruzilhada dentro de Vitology, IMMORTALITY.
Por mais que não se queira é inevitável que tudo nessa canção nos lembre da morte de Kurt. É preciso lembrar que pouco tempo antes de morrer, Kurt havia conversado com Eddie Vedder e desfeito um equívoco feito pela mídia decorrente de uma entrevista do líder nirvânico. Quase que o Nirvana e o Pearl Jam foram feitos os Beatles e Stones do grunge.
Durante uma entrevista para a Rolling Stone americana, Cobain disse que não gostava do Pearl Jam e de seu vocalista, pois a banda não significava nada que não fosse muito comercial e ruim demais. Algum tempo depois em um festival onde as duas bandas estavam juntas, reza a lenda que Courtney Love e a esposa de Vedder resolveram essa pendenga colocando os dois para conversar. Algum tempo depois Kurt declarou que não gostava das músicas mas que Vedder e a banda eram caras bacanas e tudo mais. A morte dele levou o vocalista do PJ à uma depressão que quase custou o final da banda, e tudo isso reflete na letra dessa canção que por mais que ninguém afirme tem endereço certo. Mesmo porque a letra da canção que foi gravada é diferente da original.
HEY FOXYMOPHANDLEMAMA é uma mistura de baterias e guitarras desvinculadas de sonoridade fácil, parece muito mais uma sobra colocada às pressas para cobrir um buraco deixado pela saída do baterista, mais nada além disso. Poderia muito bem ter sido deixada de lado, mas esses não eram os planos.
VITALOGY é muitas vezes brilhante como registro de maturidade e outras vezes parece uma tentativa frustrada de se desvincular de uma imagem famosa. Uma coisa é certa, mesmo hoje o disco guarda uma raivosa e poderosa coleção de canções com uma veia punk muito potente que ainda faz com que você se desloque emocionalmente dentro de sentimentos poderosos e infinitos de alma.
Mais de cem mil pessoas não podem estar erradas........
VITALOGY é muitas vezes brilhante como registro de maturidade e outras vezes parece uma tentativa frustrada de se desvincular de uma imagem famosa. Uma coisa é certa, mesmo hoje o disco guarda uma raivosa e poderosa coleção de canções com uma veia punk muito potente que ainda faz com que você se desloque emocionalmente dentro de sentimentos poderosos e infinitos de alma.
Mais de cem mil pessoas não podem estar erradas........