
Sempre existem possibilidades infinitas de formação de sinapses dentro de paletas multicoloridas de tons e sons. Elas sempre acontecem da maneira mais inesperada possível. E no caso da banda de Sacramento !!!, o pontapé inicial para as mutações começa logo do nome.
Já de cara o grupo formado por Nic Offer, Allan Wilson, Mario Andreoni, Tyler Pope, Justin Van Der Volgen, Dan Gorman e Jerry Fuchs oferece a oportunidade de fazer com que o ouvinte escolha como o nome da banda deve soar. E a brincadeira tem apenas uma regra, o som deve ser o de palavras repetidas três vezes. Pow Pow Pow, o mais conhecido Chk Chk Chk, ou variações como Uh Uh Uh. Enfim, uma infinidade de possibilidades.
Mas dentro desse contexto lúdico, a banda não oferece apenas uma conexão infindável de nomes. Essa miscelânea de impulsos neurológicos nervosos transparece em cada nota do novo trabalho da banda, que tem lançamento previsto para agosto. STRANGER WEATHER, ISN'T IT???? é um caldeirão sonoro que se devidamente catalogado, preencheria pelo menos três décadas de história da música. Não apenas uma evolução barulhenta para o primeiro disco da banda, lançado em 2007 (Myth Takes), mas sim uma reunião poderosa de cadências que afastam qualquer tentativa de qualificação ou comparação.
Influências são milhares e em toneladas acachapantes. Logo na primeira canção, AM/FM, um funk lisérgico de proporções épicas, a banda já deixa claro qual é o objetivo primordial dentro do disco. Alquimia bombástica através de dez faixas que farão parafrases e metáforas dentro de seus ouvidos.
THE MOST CERTAIN SURE se inicia em tempos onde os clubes regados à cocaína e amor livre ainda tinham espaço dentro de uma cultura que começava a se chamar disco. Mas essa canção, que tem todos os ingredientes de um The Phenomenal Handclap Band aposta na complexidade de solos espaciais e potentes viradas que transcendem o tempo em que são tocadas. O uso dos sintetizadores aqui são de vital importância para que esse clima de completa hipnose depeche modeana permaneça por entre as notas.
Já em WANNAGAIN WANNAGAIN, uma bateria funkeada e pós roqueira se apresenta martelando terrenos jazzísticos em companhia de milhares de acordes de um baixo bate estaca. Densidade extrema em solos de guitarras que são simples, mas fazem parte de um conexto muito mais paranóico do que se pode imaginar. As mudanças são como um batalhão de bolas de pista de dança pudessem destilar jatos e mais jatos de claves de sol em explosões cataclísmicas.
JAMIE, MY INTENTIONS ARE BASS mostra claramente que esse transe em forma de beats é catalisador de batidas ininterruptas de pés nervosos. A linha marcada pelo baixo dá todas as cartas dentro dessa canção. Um aglomerado muito mais pós punk do que se parece, escondido através de uma aura dançante.
Essa canção poderia até ser o monstro de sete cabeças do disco, tamanha as mudanças e referências que explodem por entre os acordes. Uma pitada de funk, outra de anos 80 cheios de delineador negro de olhos. Encaixa bem dentro do contexto do disco, mas obviamente é uma das menos digeríveis.
E por falar em digestão, HOLLOW tem uma densidade muito extrema pra que se pareça apenas uma canção retirada de algum trabalho mais difícil de Prince. Com os dois pés no final dos anos 80 e na Factory pré explosão dos Happy Mondays, essa faixa conduz uma eletricidade intrínseca muito grande. Seja pelos acordes mais pesados ou pela quantidade de citações à house music seminal embalado em batidas de rap. Muita mistura???? Provavelmente , mas a maestria como é conduzida a canção é inebriante.
JUMP BACK é o exemplo mais soturno dessa característica. Feita para encher pistas de dança onde as roupas pretas parecem ser a tônica, essa música foi feita como registro histórico. Você é embalado por pelo menos uns oito movimentos dentro da história da música e assim você consegue caminhar por todos os entrecantos possíveis. Existe uma sintonia fina entre as batidas e seu cérebro, que podem ser viciantes na medida inexata.
EVEN JUDAS GAVE JESUS A KISS mostra exatamente essa capacidade de movimentação de épocas que acontece com o !!!. Suingues de riffs levemente funkeados, com backing vocals removidos de climáticas nuvens de ritmos. Extremamente inteligentes, as mudanças não chegam aos patamares da genialidade mas uma canção que se move atráves da névoa, já é metade do caminho andado. THE HAMMER, pronuncia uma volta quase que new age aos balanços tortos. Crescendo de neo psicodelia dançante, essa faixa tem vários contrapontos e novamente as metalizações é que são embebidas em líquidos que se movimentam depressa demais para que se ouse ficar parado. Não existe a possibilidade de ficar impassível à essa descida aos círculos mais perigosos de um inferno dantesco que explode em ritmos alucinadamente metafóricos tribais.
Se existe uma definição ao termo rock que faz dançar, essa faixa mostra que sinapses caóticas são eternamente mutáveis e possíveis. A faixa te conduz por terrenos que explodem a cada dois minutos. Barricadas compostas de pílulas em forma de minas terrestres prontas para que cores explodam por entre cada giro de cíngulo do seu cérebro. Ludovico você venceu.......
BLUE a faixa bônus é apenas uma pequena cereja dentro de uma granada de mão que provavelmente vai decapitar qualquer tentativa de marasmo eloquente. Não será possível não ver com olhos multifocais as canções dessa banda depois da audição de Stranger Weather, Isn't It?
O !!! dessa vez mostra que é possível sim inverter a rotação de sua cabeça, por entre um bombardeio de citações e acordes que transportam por épocas não conectadas. Um disco que não serve apenas para animar uma festa, mas sim para mudar conceitos dentro de sua alma..........