24 de junho de 2010

GD 45 FUTEBOL E GRILHÕES


É quase inapelável o apelo pela Copa do Mundo nesse mês. Milhares de mensagens no twitter, papites e cornetas. As especialidades sobre táticas, métodos, beleza masculina (pelas torcedoras ocasionais ou não da Itália) e até uma campanha que acabou tornando-se mundial sobre o famoso locutor nacional foram fatos que assolaram essas últimas semanas.
Por mais que a famigerada Jabulanni seja a desculpa perfeita para o horário do almoço mais longo, uma coisa é certa:
Ninguém sai ileso da Copa da Mundo.
Mas mesmo assim, certas coisas parecem não mudar por mais que o mundo seja cada vez menor.

Os grilhões que usurparam por séculos o continente africano, parecem não querer largar o osso tão cedo.
Sempre que assistíamos um time de futebol africano jogar, uma característica sempre saltava aos olhos. O atrevimento que todos tinham contra seus adversários. Jogadores que tentavam sempre o drible mesmo que fossem trôpegos e tortuosos, uma malemolência espevitada dentro do quadrilátero de grama que por muitas vezes deixavam atônitos seus marcadores. Não havia uma técnica poderosa, muito menos um conjunto espetacular. Existia uma energia libertadora que forçava os marcadores africanos, permanecerem atentos. E sempre que podiam as seleções africanas aprontavam muito contra os times europeus e sul americanos. O Brasil sofria agruras em Olimpíadas e na Copa de 2006, Costa do Marfim deu um trabalho enorme para a poderosa Argentina.
Inconsequentes e moleques, os africanos pareciam ser uma esperança contra a pragmática visão européia que sempre se viu no futebol.

Mas algo mudou. Caucasianos técnicos europeus aportaram nas costas africanas e como os desbravadores náufragos europeus, lideraram as esquadras de ébano. Não mais atrevimento e sim uma rotina pragmática que assusta. A força física tornou-se uma constante dentro do futebol nesses últimos tempos e assim os colonizadores com seus nomes terminados em Ic ou Orlov propuseram uma nova ordem mundial aos africanos. Não existe a molecagem, apenas uma catedrática maneira de jogar.
O resultado não seria diferente dos anos em que negros eram separados em castas dos brancos. Com a exceção de Gana, todos os países africanos estão fora do torneio. O que os une, além da desclassificação, é o fato de que todas as seleções contam com os técnicos bandeirantes colonizadores. Um resquício que descaracterizou o futebol da terra mãe e mostra que ainda por mais que Mandela tenha lutado, os brancos caucasianos continuam a transmutar de maneira errônea as gênesa africana.
Gana se mostra como uma verdadeira frente de resistência dentro da história. Seu técnico, o sérvio Milovan Rajevac mostra-se um verdadeiro Schindler. Usurpando a matéria prima, mas avançando seu time para as próximas fases.
Resta-nos agora torcer para que como Mandela, o futebol africano redescubra seu caminho de volta em direção às suas origens cheias de traquinagens que deixavam seus adversários com a pulga atrás da orelha e temerosos. Se é que o futebol tem um aspecto político, essa libertação das correntes técnicas na África deve ser cada vez mais pensada.