O nome já remete à uma participação de terceiros. Starts With You é a frase que, como em todos os manuscritos dedicados ao modo de vida sustentável parecem dizer, tudo requer uma ação individual. Mas onde acha-la quando o coletivo não funciona???
O festival SWU que começou nesse dia 09 de outubro (aniversário de um dos maiores pacifistas do mundo, John Lennon), tinha tudo para tornar-se uma evento grandioso e cheio de ações concretas. Provavelmente como sempre acontece, a sustentabilidade dessa vez pode não ter passado da porta do Fórum de debates.
O caminho de ida pela rodovia Castelo Branco (com os pedágios bem mais caros dos que os anunciados no post anterior, mas que ainda permanecem com os preços citados no site da rodovia), não apresentou maiores problemas. A discrepância se inicia quando abordamos a entrada do festival.
Sinalização deficiente e informações desencontradas. Mesmo assim o clima de ansiedade pela vontade de conhecer como será um festival dessa magnitude, não deixa a ranzinice nascer por entre os cíngulos. Mesmo porque uma vez lá dentro, o visual é realmente deslumbrante. A magnitude e a imponência, somados ao clima de sorrisos, canções e alegria, são viciantes. O contingente policial realmente é exacerbado, mas muito mais manso do que se imaginava. Nascimento deve estar mais preocupado com as bilheterias, pois não aportou em Itu.
Brinquedos funcionando, mesmo sendo réplicas. Mas nem tudo são rosas logo na entrada. A segregação começa pelo diminuto número de caixas e a presença de apenas uma praça de almentação. Que ao final da noite estava com o aspecto de praça de guerra. Se o intuito é começar as ações com você, ele esqueceu do que se trata. Milhares de pratos de papel, palitos e outros apetrechos alimentícios (inclusive restos de comida), decoravam o solo. Uma extensão das esculturas feitas com material reciclado, os habitantes temporários da Fazenda Maeda literalmente fizeram a vida imitar a arte. Nas duas outras praças de alimentação postadas na área VIP (ou Área "Primium" como o locutor insistia em chama-las), tudo mais calmo. Mas todos os que pagaram ingressos normais ao final da noite podiam ser escolhidos para participar daquela festa nobre.
Closes mostraram os rostos de três pessoas que poderiam ver o show do Rage Against The Machine na área especial. Cartas de alforria modernas, mesmo porque o que se viu depois foi uma verdadeira revolta comunista....
Mas os shows foram algo diferente. Nesse primeiro dia o GD postou-se à frente do palco principal. Acompanhando de perto quatro dos head liners. E o primeiro deles não decepcionou em nada.
Os INFECTIOUS GROOVES sentiam-se tão em casa que conversavam com a platéia como se estivessem conversando com seus compatriotas americanos. A banda que é uma das pioneiras em amálgamas de funk e punk é exatamante o retrato fiel de seu vocalista, Mike Muir (que faz parte de outro peso pesado, o SUICIDAL TENDENCIES). Energia sem tempo de respiração, pois a cozinha da banda é poderosa e rápida. Incorporando Iggy Pop o vocalista por duas vezes colocou o público em cima do palco. Mesmo com as cenas de ligeira truculência da segurança do festival. Mas o show mais lindo da noite ainda estava por vir.
Quando os MUTANTES subiram ao palco já era começo da noite e o frio já dizia que seria necessário muito mais do que simples calor humano para que tudo se tornasse mais aprazível. Mas no comando do carismático Sérgio Dias, a banda fez um show que se encaixa no adjetivo belo. Mesmo mal encaixada em uma noite onde o rock mais pesado predominava, destilaram hits e fez com que todo mundo se rendesse à maior banda de rock nacional de todos os tempos. Com uníssonos em ""Top Top"" e ""Balada de um Louco"", foram minutos de emoção incontida. Marejar as pupilas não era demérito e sim amostra de alma tocada fundo.
Do mesmo jeito que os LOS HERMANOS colocaram todo o festival para cantar junto em um show que mesmo sendo o mais do mesmo da banda, mostra que o público fiel dificilmente vai deixa-los. ""O Vencedor"", ""Morena"" e ""Retrato para Ia-iá"" foram apenas alguns exemplos desse messianismo dos cariocas.
Porém, a sensação de desastre eminente, não se afastava. E minutos antes da apresentação do RAGE AGAINST THE MACHINE algo diferente acontecia. A aglomeração tornavasse cada vez maior, o que já era um fato esperado. Mas se a organização do evento fosse diferente talvez as cenas posteriores não tivessem acontecido. A banda comandada por Zack de La Rocha e Tom Morello é visceral e hipnotizante, juntamente com a estrela vermelha ao fundo, torna-se experimento de massas. A energia é papável e vulcânica, transpassando cada pedaço de tecido e alojando-se dentro de cada tronco frio. Um cérebro quimicamente alterado e os riffs tectônicos de Morello fazem o chão da Fazenda Maeda uma espécie de pólvora. A grade frontal que separa as pessoas ruiu e um tsunami humano toma conta da frente do palco. Nesse minuto, pessoas não resistem e desmaiam. Carregadas pela multidão em um anti-mosh subversivo, a onda gigante de pessoas então volta com força para trás, comprimindo quem estava longe do tumulto. A banda para, pede paz e calma. Silêncio...
Três passos para trás depois, Zack entoa outro mantra, mas apenas para seus companheiros, pois as falhas no som (que já haviam começado no show dos Los Hermanos) exterminam completamente a audição. Mais uma vez a banda para. Morello olha ao redor. Mais um recomeço.
O show termina com ""Freedom"" e ""Killing In The Name Of"", mas mesmo sendo uma catárse imensa, o anti-clímax agora impera.
Um gosto amargo misturado com a terra dentro da boca não permite que se vá embora satisfeito. Uma confusão por não saber ao certo se o público não está preparado para esse tipo de evento no Brasil, ou se a produção do festival, não preparou-se devidamente (e os realizadores do SWU estiveram no Coachella esse ano).
Filas enormes, comida crua e revistas que duravam séculos, talvez ludovicamente tenham deixado a revolta tomar conta do povo. Mas se o movimento começa com você, onde está então o personagem principal?
A impressão que fica é que o slogan do festival por enquanto é vazio. Nem você organização, ou você público começaram algo. Bandas sensacionais, organização e consientização nem tanto assim....
Amanhã tem mais......