Era apenas uma névoa assimétrica a cobrir minhas mãos e duas vozes reverberando por entre minha cabeça, o baixo de Mingus, corroendo minhas entranhas com uma velocidade de notas mais parecidas com rajadas. Balas usando parábolas para acertar seus alvos. Curvas sinuosas, e outras que desavisadamente atravessavam ângulos retos. Esse circuito curvilíneo jamais poderia ser mapeado, pois ao mesmo tempo em que Charles descrevia sinuosidades tão perfeitas como a pele de Gilda, tão de repente mudaria sua técnica para a exaustão do incerto, e, a partir desse ponto, onde a partitura torna-se um pedaço da pele do baixista, nada mais importa dentro da canção a não ser as manobras bruscas, as paradas onde o saxofone expandia-se em trilhas secas de pólvora. O piano aos sussurros desaparecia como um orgasmo falso no meio de uma aventura sexual cartesiana, algo que descreveria minha vida até aquela madruga, uma nefasta e tediosa vida, incluindo a óbvia artéria cavernosa sexual, as notas repetidas, os acordes extenuados.
A perfeição de Pithecanthropus Erectus era a antagonista de minha vida, o inverso proporcional do tédio e desamor que sentia até então.
Mas é preciso dizer que enquanto as teclas bicolores rodeavam e construíam o fogareiro com simples notas, os rastilhos de pólvora eram povoados como estrada pelo saxofone, semeando duplas linhas oitava acima. Como qualquer antecipação, o piano e o sax vagarosamente penetravam-se enquanto preparavam o caminho. A névoa e a garoa naquela madrugada dentro de Guantánamo, as teclas bicolores, o saxofone, o saxofone, as teclas bicolores, a garoa e a névoa de Guantánamo, o fogareiro, meus braços trêmulos e rígidos, as cordas de Mingus balbuciando o esperar, e quando, a espera tornava-se quase insuportável, eis que o caleidoscópio rompe os últimos pedaços de terra úmida, a velocidade é inenarrável e os instrumentos todos se afugentam e ao mesmo tempo colidem uns em outro, uns com outros, meus braços giram ao redor de minha cabeça, o ruído é assimétrico e as turbinas do cargueiro que no horizonte reverberam os últimos gritos do cimbal e pedais, atacados como se existissem epilépticos pés. Erectus então a canção caminha por terras assombradas pelas paradas finais, ereto meu pau inconsciente já sabia que dentro daquele avião estava algo que jamais poderia ser vivido outra vez, a psicodelia tem seu grito final, como se a banda pudesse gozar ao mesmo tempo uma ejaculação tão grande que atingira as duas pontas do continente norte americano.
Enquanto os apitos dos oficiais militares anunciam a chegada de mais uma leva de prisioneiros, as sirenes de A Foggy Day deixam tudo tão cristalino quanto à psicodelia que aflora dentro de meu peito, embebido em álcool, tentando esquentar a alma com pedaços de fumo do Arkansas que sempre carrego em meu bolso esquerdo, o mesmo bolso onde também encontra-se meu canivete. O canivete que escrevi nosso amor em tua pele tempos mais tarde. Mingus permanecia longe no hangar, enquanto me aproximava do gigante férrico alado carregando como carga um grupo de prisioneiros que toda a nação americana queria (e iria) sacrificar com as próprias mãos, se assim o pudessem fazer com impunidade.
A população normal não o podia fazer, eu sim.