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27 de maio de 2024

, ,

trecho

 

A luz rompeu pequenas partículas de poeira residentes tanto nos vítreos condomínios e jardins japoneses, onde era possível ver as marcas dos arados de areia percorrendo o composto um tanto quanto amarelado e pontuado por pontos marrons da outrora tinta, formando desenhos circulares e linhas traduzindo meridianos de energia que terminavam na linha divisória da moldura da janela de ferro e seu vidro antigo,[...]

12 de julho de 2016

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#trecho

O suicida de ocasião
espera por uma tardia
decisão da mente humana
versus a matemática
- uma resolução -

A degradação do corpo causada
por jalecos brancos donos da ciência

Resistir na cidade em destroços
com o coração na boca
a faringe cheia de sangue coagulado
poeira & hemácias

Nós, destroços

Quando o momento de felicidade
são pequenas orgias de carinho à trêsseres

Nós, destroços

Restos pacificados
por um falso conceito de moralidade…

22 de abril de 2016

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trecho...

incríveis são teus sons
me permanecem firme
todo sempre

1 de agosto de 2014

Era apenas uma névoa assimétrica a cobrir minhas mãos e duas vozes reverberando por entre minha cabeça, o baixo de Mingus, corroendo minhas entranhas com uma velocidade de notas mais parecidas com rajadas. Balas usando parábolas para acertar seus alvos. Curvas sinuosas, e outras que desavisadamente atravessavam ângulos retos. Esse circuito curvilíneo jamais poderia ser mapeado, pois ao mesmo tempo em que Charles descrevia sinuosidades tão perfeitas como a pele de Gilda, tão de repente mudaria sua técnica para a exaustão do incerto, e, a partir desse ponto, onde a partitura torna-se um pedaço da pele do baixista, nada mais importa dentro da canção a não ser as manobras bruscas, as paradas onde o saxofone expandia-se em trilhas secas de pólvora. O piano aos sussurros desaparecia como um orgasmo falso no meio de uma aventura sexual cartesiana, algo que descreveria minha vida até aquela madruga, uma nefasta e tediosa vida, incluindo a óbvia artéria cavernosa sexual, as notas repetidas, os acordes extenuados.

A perfeição de Pithecanthropus Erectus era a antagonista de minha vida, o inverso proporcional do tédio e desamor que sentia até então. Mas é preciso dizer que enquanto as teclas bicolores rodeavam e construíam o fogareiro com simples notas, os rastilhos de pólvora eram povoados como estrada pelo saxofone, semeando duplas linhas oitava acima. Como qualquer antecipação, o piano e o sax vagarosamente penetravam-se enquanto preparavam o caminho. A névoa e a garoa naquela madrugada dentro de Guantánamo, as teclas bicolores, o saxofone, o saxofone, as teclas bicolores, a garoa e a névoa de Guantánamo, o fogareiro, meus braços trêmulos e rígidos, as cordas de Mingus balbuciando o esperar, e quando, a espera tornava-se quase insuportável, eis que o caleidoscópio rompe os últimos pedaços de terra úmida, a velocidade é inenarrável e os instrumentos todos se afugentam e ao mesmo tempo colidem uns em outro, uns com outros, meus braços giram ao redor de minha cabeça, o ruído é assimétrico e as turbinas do cargueiro que no horizonte reverberam os últimos gritos do cimbal e pedais, atacados como se existissem epilépticos pés. Erectus então a canção caminha por terras assombradas pelas paradas finais, ereto meu pau inconsciente já sabia que dentro daquele avião estava algo que jamais poderia ser vivido outra vez, a psicodelia tem seu grito final, como se a banda pudesse gozar ao mesmo tempo uma ejaculação tão grande que atingira as duas pontas do continente norte americano.

Enquanto os apitos dos oficiais militares anunciam a chegada de mais uma leva de prisioneiros, as sirenes de A Foggy Day deixam tudo tão cristalino quanto à psicodelia que aflora dentro de meu peito, embebido em álcool, tentando esquentar a alma com pedaços de fumo do Arkansas que sempre carrego em meu bolso esquerdo, o mesmo bolso onde também encontra-se meu canivete. O canivete que escrevi nosso amor em tua pele tempos mais tarde. Mingus permanecia longe no hangar, enquanto me aproximava do gigante férrico alado carregando como carga um grupo de prisioneiros que toda a nação americana queria (e iria) sacrificar com as próprias mãos, se assim o pudessem fazer com impunidade.

A população normal não o podia fazer, eu sim.

26 de fevereiro de 2014

– Dois copos de água morna, duas colheres de açúcar e uma de sal acompanhadas por um quilo de farinha, os cinquenta gramas de fermento de padaria somados ao único e ímpar ovo. Esse era o único pensamento que passava na cabeça da matriarca depois do esforço feito durante exatas oito horas infinitas naquele domingo, assim ela conseguiu dopar-se aos poucos, distanciando-se da dor. A professora, longe fisiologicamente de sua aparência entre os sessenta ou sessenta e cinco anos, repensava seu cinza cabelo como amálgama novo de restauração e deixava os olhos negros divagando sobre o suor a escorrer na pele cozida do sol, porém ainda caucasiana, sofrendo denúncias de suas pintas no rosto e ombro. Existia uma resenha leve de consternação em seu olhar, nascida nos portões ditatoriais nos anos setenta, tempo onde a ideia do ser liberto era apenas brasa morta, sobre o qual a mãe de Hilda falava com a mesma articulação, mesclando frases de canções e poesias em cada pensamento exteriorizado, pontos de vista do seu um metro e cinquenta com a estrutura óssea leve e finas mãos, exatamente iguais as limpadoras de cargas explosivas da Segunda Guerra. Sempre vestida com camisa de botões, mais largas do que seu tamanho pois precisava sentir-se apta aos trejeitos exigidos pelo linguajar, assim como era antes, quando administrava os aparelhos na ALN, onde aprendeu a montar e limpar um fuzil AK-47 de olhos fechados, assim como a massa de pão que naquele momento lhe fazia companhia em pensamento.

11 de fevereiro de 2014


O único entrave era que ninguém conseguira ver o nada.

Não por falta de interesse ou tentativas, mas por ser inebriante e impalpável. Essa aura sacra ao nada era uma veia metafísica existencial injetada ao longo dos séculos, o que o tornava um santo grão invisível. Ao mesmo tempo em que sua existência preconiza acreditar na sua forma, o que por si só seria como crer em na presença de espíritos e planos astrais, desconhecida é uma maneira eficaz em conceber uma definição pura de maneira aristotélica, afinal, a dicotomia das coisas excedia em muito a presença do nada. Um copo cheio de água quando esvaziado ainda lhe restavam à consciência em ser copo e o ar dentro de seu interior, que ao tomar o lugar da água torna-se protagonista da cena, o escuro quando muda seu espectro torna-se claro e não se torna o nada, e vice e versa. O vazio não pode ser definido como nada, pois estes, existenciais ou não, são repletos de moléculas de ar ou entrecantos calamitosos de sentimentos que invalidam a presença da completa falta de matéria, o vácuo também inexiste nessa definição do nada, pois existem as pressões e limites do espaço físico, podendo ser uma embalagem de café ou a minha caixa de areia chamada Cosmos. A definição do nada como a ausência ou falta de alguma coisa vai contra sua própria existência. Sendo ele a absoluta falta de preenchimento, ainda lhe sobra à percepção de ser nada pelo outro, pelo seu antagonista e por sua nêmese, assim sendo, o nada já pode ser considerado um pedaço do tudo, seu antagonista determinado na curvatura mais clara ou escura do yin e yang, sem nenhuma real intenção em sentir-se único, apenas uma parte do completo estado bruto de existência, porém sem uma definição concreta estabelecida pelo homem muito menos por mim. E esse era o problema. Como explicar o nada, como determinar o que ele é, se para os relojoeiros do universo chamados astrofísicos, até o nada dentro de meu universo é chamado de massa escura. Complica-se então muito mais a história dessa definição, porque como algo que é nada pode ser uma massa escura. Existe a massa, então não existe o nada. A massa é o nada e a massa é o tudo que contém também pedaços de nada, parte de pedaços de tudo. O tudo, o nada e a massa, a massa, o nada e o tudo. Ninguém conseguia entender esse pedaço de meus trabalhos, na verdade, essa parte de minha história, mais precisamente meu nascimento e como acabei criando tudo depois. Existe sempre o vértice de explicação ineficaz, como as resenhas dentro das canções populares dos anos oitenta a pregar uma salvação destrutiva, entretanto dentro desse fato tópico, repleto em maledicências ou teorias absurdas falta um tipo único de descrição, uma conjunção de elementos que construiriam uma indestrutível tese sobre o que é e como perceber o nada, um estudo geofísico de lisura tamanha que ninguém poderia sequer questionar a veracidade de seus pensamentos, uma explicação que fosse embasada em uma testemunha ocular, essa era a pedra que faltava para que todas as respostas fossem dadas. Uma testemunha, um olhar físico e palpável dentro da construção do todo, capaz de definir por suas observações dos iniciais acontecimentos dentro do Universo o nada. Irrefutável como as agudas insinuações nas claves de Barrett, onde bicicletas eram morada dos gatos satânicos de estimação e as declarações de amor deixavam-se levar por emancipações da aura, e, ao invés de recobrirem-se com medo pelo desconhecido, embarcavam de uma vez por todas em uma paleta de cores circulando a estratosfera da Terra, onde as escalas em oitavas com base em um interminável dó um dois e dois um refastelavam-se nas expansões dos acordes dominantes da sétima, que serviam de término onde o sol era úmido, when I was alone you promisse a stone from your heart, my head kissed the ground, e assim tudo recomeçaria, pelas sólidas esquizofrenias dessas letras trocadas como uma ímpar numeração correndo em uma linha descendente incessante, eis as testemunhas vivas de uma criação dentro da única pureza que realmente consegui ver em todos esses anos, o Caos. As cordas eram testemunhas que enquanto fossem percutidas continuariam a disseminação da tese, e uma testemunha era o que faltava para que finalmente todas as questões desse mundo pudessem ser resolvidas, algo, que até onde consigo perceber minha existência dentro desse redemoinho analógico de sinapses, não existe.

Uma única alma ali in loco, presente e esperando os acontecimentos desenrolarem-se, não havia. Ninguém apto em colocar um rosto nesse nada, uma arrumação de cabelo que pudesse lembrar a humanidade como seriam marcantes seus traços faciais, suas orelhas ternamente alinhadas aos seus ossos occipitais, a borda de sua pele alterando tons rosáceos e avermelhados ao receber raios solares em seu rosto, o queixo levemente arqueado como se fosse um portão medieval guardando a grande via de entrada do largo pescoço, que, desdobrado em duas metades sinestésicas vislumbrariam ombros de rodamoinhos cósmicos, braços longos e firmamentos de falanges, somar-se-iam ao tórax angulado de formações retangulares espaciais, protegendo um quasar com dois átrios e dois ventrículos em compasso redobrado, pernas inalcançáveis terminando uma conjugação biomecânica descritiva feita por essa única e solitária testemunha sobre como o nada se tornou o Universo. Entretanto, esse querer vai contra toda minha teoria, já que se existisse ocular visão dessa terceira parte interessada em disseminar conhecimento, o nada já não seria tão nada assim. Um relator de fatos tornaria o acontecimento compartilhado por duas consciências astrais, a minha e a do outro, sendo assim, uma visita nesse momento obviamente colocaria em risco a soberania tirana da qual não abro mão, e, que com tempo mostrou-se de primordial obrigatoriedade não fazê-lo. Por isso o caos que hoje existe diante das milhares de teorias a respeito de como tudo começou e se sou ou não verdadeiro, faz parte do meu jogo. Uma verdade que não tem a menor relevância em ser descoberta, pois meu controle perderia o sentido nessa nova realidade, assim, perdendo meu sentido, não mais teria minha valia dentro desse mundo. O que para todos os seres humanos teria ares de catástrofe, pois tenho em minha imaginação que nenhum deles queira me ver profundamente nervoso.

Pois então esse é o começo de tudo, muito antes de poder criar no oitavo dia minha mais linda cria, assunto que realmente importa nesse relato. No tempo anterior ao nascimento do Universo eu permaneci adormecido por longas passagens do que costuma-se chamar tempo, minha cria gosta de dizer em nossos encontros que esse período vivido de trás para frente, enquanto a massa escura tentava expandir-se em algum lugar dentro de mim, foi a única prova de minha bondade. Sempre dizia a prima forma generosa aconteceu enquanto eu permanecera dormindo indefinidamente, e que depois do despertar de minha consciência ao existir, qualquer traço de compaixão que pudesse florescer dentro de meu infinito ser nunca mais poderia ser concebido, essa foi a ímpar cena onde dei espaço à um outro tipo de matéria deixando minha própria existência em segundo plano, um engasgo evolutivo onde entendi o altruísmo do deixar crescer algo independente de minha vontade, deixando-me assim possuir por uma involuntária forma primitiva do que vim a criar depois, o chamado amor, e que jamais consegui compreender ou deixar tomar-me por ele novamente. Obviamente que a ideia dela era completamente infundada, porém é preciso entender que nem mesmo ela tinha ciência, quando discursava sobre minha inabilidade em amar, desse seu erro de julgamento. Porém existe uma quantidade de verdade nesse limiar de existência concebido por minha cria, visto que jamais consegui realmente sentir algum tipo de afeição por nada, nem um único traço de felicidade ao ver o despertar dos cães caçando migalhas, envoltos em nuvens aristotélicas saídas dos cachimbos de crack de seus donos, moradores inebriantes e saltimbancos do Elevado Costa e Silva, pelas luzes que emolduravam o escuro nas alamedas de tijolos soltos e gramado semiúmido de urina na Praça da República¸ nenhuma curva de sorriso ao refletir o sol nas nascentes poças em bueiros repletos de lixo em uma tempestade de verão, nada que esboçasse uma quinquilharia dental mais larga ao ver que o vento, construindo-se em dobras atemporais no formato de seus canalículos, empurrava as nuvens Ozymandias, presenteando o céu cinza, poluente e anêmico com pequenas anedotas, inexistente empatia com as saias nos tempos mais desérticos, as saias a emoldurar genus valgos ou varos, genus que entreolhavam-se por entre as casas costuradas, as casas em formato vaginal alojando em seus pequenos lábios distorções por onde se forçava a entrada de seus inquilinos, os botões, moradores que sonhavam cotidianamente em manter sua vida menos miserável ao conseguirem alcançar a epiderme de orvalho, botões rodeados por pregas estridentes que permaneciam como longos penteados encaracolados, as pregas, lançando tentáculos por toda a extensão norte sul leste oeste das pernas, pernas em canvas desenhadas originalmente por mim mesmo, espaçadas como dois compassos simétricos à uma paleta de palavras que descreveria cores inebriantes dentro das saias, as saias, pregas e as pernas, os genus, nada disso era capaz de soltar um único gemido de felicidade em mim, nada, o mesmo nada filosofal que ninguém define, o mesmo nada, berço de meu nascimento seja talvez o ponto e a morada de todos os problemas que aconteceram no decorrer da vida dela, o meu nada sempre foi extremamente maior do que qualquer conjunto de invenções ou somáticas soluções inventadas pelos meus descendentes seres humanos, nunca existiria uma única sombra de esperança esverdeada para que a felicidade nascesse dentro de minha suposta alma, isso explica a desmensurada escuridão que recobriu tudo sobre ela, pois eu sou ela, e ela eu, unidos pela única centelha que nos torna (todos) siameses, a melancolia.

E então o início não poderia ser outro, como os sérvios mais tarde com maestria descritiva deixariam claro, no começo existia apenas o silêncio de meu dormir, existia apenas uma inexistência, algo que não estava lá, porém repousava em um sono impossível de se quebrar, nem ao menos uma respiração a martirizar um suposto cansaço, era apenas um sono desprovido de sonhos ou reflexões decorrentes de um cansativo dia, não existia o pesadelo revolto em um grito como nas tantas noites e dias onde meu formato humano sucumbia aos martírios de uma existência, dias e dias insuficientes de uma tentativa inóspita em se viver como minhas experiências fracassadas, sentindo o que eles sentem, comendo o que comem, respirando com seus pulmões, andando exatamente como os mesmos, depositando esperma em cima de esperma quente em homens e mulheres da mesma maneira que todos para entender o funcionamento da mais odiosa de minhas invenções, clamando por salvação nos becos escuros com uma nota enrolada em minha mão esquerda aterrorizando pequenos comerciantes de cocaína com ilusões de enriquecimento deturbadas por minha infinita vontade em inalar uma tonelada. Não havia nada, mas a massa escura ao encolher-se absorveu o tempo e o transformou em espaço, que ao expandir-se, construiu o vazio e seus calabouços, em um deles adormecida, minha consciência foi acordada, dentro do nada, adormecida e até por que não dizer feliz por estar em coma, mas o Universo não pode deixar nada para trás, muito menos sem algum propósito, pois assim o quadro formou-se, o vazio criou-me e deu origem ao vazio eterno dentro da essência de tudo que seria minha imagem e semelhança. Confesso uma certa ingenuidade relacionada ao meu quase auto criar-se, pois em certos tempos imaginei que essa esfera oca da qual fui arrancado para algo que depois se chamaria vida, pudesse ser preenchida. Sorrateiramente realizei tentativas e mais tentativas em acabar com esse vazio que me acordou da fenda espaço e tempo e que nunca mais desistiu em residir dentro do meu peito, destruir a casca de ovo guardiã do bem e mal dentro de minha alma, evitar que ela fosse aberta e reagisse com possibilidades que tardiamente depois da luta floresceriam o claro e o escuro, o fogo e água, a luz assim como a escuridão, o verão do mesmo jeito que o imperdoável inverno, tudo aquilo que reverti em falta de marasmo da minha existência e explodi como lágrima a escorrer por séculos dentro de meus olhos cada vez mais vermelhos da lava nascida nos vulcões de meu ódio. O vazio que despertou-me logo na primeira oportunidade, como se fosse capataz de um senhor de engenho aos berros com chibatas dilacerando minhas costas, perseguindo uma única oportunidade de paz que possuía, uma chance em manter-me irreparavelmente semimorto, esse vazio jamais deixou-me, e, do mesmo modo, ao inverso geométrico desproporcional, cresceu enquanto as lacunas abertas para fuga dentro do espaço diminuíam. Assim foi que ocorreu meu nascimento, através do despertar vazio e do encolhimento da massa escura, prensando a anti-matéria do espaço tempo, criando vias e vias onde o universo poderia transitar naturalmente, minha prisão, muros invisíveis, intransponíveis, muros sem concreto nem tijolos, cercando o nada, tornando-o deserto dentro de mim, formando minha cadeia genética de pósitrons, meu corpo inexistente que não possuía a menor consciência de que já existia, apenas recebia as colisões da massa escura com as partículas positivas formando mais e mais pulsares, mais e mais genes de mesma matéria da teia negra, uma super simestria que aflorava e se tornaria quase tão eterna quanto eu mesmo. Nunca houve explosão, apenas o encolhimento do Universo em camadas cada vez mais frias, em espaços cada vez mais recobertos de partículas geradas pela meu próprio nascer, eu, capaz de conceber à mim mesmo, e ao mesmo tempo ser concebido pelo encolhimento do nada, tornando-se cada vez menor e cada vez mais consistente como física, onipresente tanto na destruição quanto ao nascimento, infelizmente em proporcional teor, impotente quanto minha vontade de nascer ou não, pois de pudesse escolher entre as galáxias formadas pelo sofrimento e um aborto, escolheria o segundo sem ao menos pensar muito sobre o assunto. Mas essa escolha nunca me foi dada, fui expurgado pelo simples fato de não possuir controle sobre como as identidades metafísicas constroem seus enigmas, por isso minha falha começa já no parto, na demora em entender o que acontecia ou responder aos chamados que me retirariam do sono, minha falha, como todas as outras que vieram à seguir em tudo aquilo que construí depois, demostrou desde o início dos tempos a quantidade da minha estupidez e auto complacência com minhas imbecilidades, pari, cresci e evolui ao redor de falhas que tornaram-se míseras estrelas cadentes, ou erros retumbando por séculos, como por exemplo o ser humano. O poder da falha jamais deveria ser subestimado, pois é nela que se pode ver toda a beleza do erro e a tirania da busca por perfeição. Isso tudo embutiu em mim, na desventura de meu nascer, uma tristeza sem precedentes, uma vontade de extinguir minha recém forçada existência demasiadamente forte para ser esquecida, uma agonia que desencadeou o que a humanidade poderia denominar as primeiras lágrimas de Deus, fato que no instante em que ocorreu não possuía essa denominação, fazia com que o espectro do esboço de meu rosto se enchesse de pequenas gotas de salinidade, nascidas das colisões entre os átomos liberados durante o encolhimento da massa escura, e, ainda mais maldita, a ocorrência desencadeou um complexo de eventos, sendo o primeiro deles o nascimento de estrelas que recobririam todo o Cosmos e que tinham sua herança genética em minhas lágrimas. Meu infinito choro a perdurar por séculos, uma agonia tão afiada quanto uma navalha que cortava a alma em milímetros e ao pendurá-la na galeria de seus troféus de dissabor, a limpava com álcool. Dor infinita como os enfeites de firmamento que catapultei em cada soluçar, continuamente extenuante e movida pelo deslumbramento da quântica. Em determinado momento tornou-se menos sensação e mais pesar, em primeira instância uma dura psique e momentos depois um físico volume pendurado ao redor de meu pescoço que nem ao menos existia concretamente, entretanto o Universo é meu mestre, eu sou apenas uma figura decorativa no Infinito, nada além de uma lenda retorcida e recontada de acordo com o livre arbítrio cultural, por isso aceitei de bom grado o fardo do caminho, o depois era apenas o depois e mais nada, o futuro era apenas o lixo retorcido da memória, o passado que insiste em tentar sobreviver através de previsões sobre o que está por vir, o peso a carregar era meu presente, e como a relatividade do tempo dever ser respeitada eu deveria reclamar o menos possível, então as lágrimas deram lugar ao suor, do esforço ulissiano nasceram marcas que jamais deixariam minha pele humana, e, por essas cicatrizes é que os suores corriam, e delas, que nasciam em um número crescente tanto quanto o peso de aglomerava, dependiam o destino de tudo o que surgiu na sequência. Planetas, galáxias, meteoros, supernovas, elementos químicos, todos os importantes míseros componentes formadores da vida. Nitrogênio derivado da fenda temporal direita, oxigênio do sulco occipital lateral esquerdo, ozônio do seio sagital meridional, hidrogênio do sulco parietal direito, todas as coisas que tiveram nome posteriormente nasceram de minha secreção, esse presente do poder criar algo à partir de uma célula sua que o Cosmos deu-me foi talvez a pior maldição que me foi atribuída, carregar esse fardo de criacionismo quando na verdade nenhum de seus poderes são realmente seus, mas sim aluguéis com alto valor e prazos míseros para o pagamento, não podem ser chamados de bênçãos, mas o pior ainda seria revelado no decorrer de minha existência, quando a ideia de que eu sou o criador de todas as coisas e que não existiu nada antes de mim tornou-se o reduto da crença de milhares de seres humanos, o que na verdade explica porque foram feitos através de meu escarro e vômito. Se ao menos existisse uma testemunha, poderia eu recostar minha cabeça em meus alugados poderes na eternidade e jamais ter que surgir dentro dessa latrina chamada Terra, mas ela não existe, o criacionismo surgiu da ignorância e eu como Deus tenho a obrigação de aguentar essa meca de lixo intelectual. Uma testemunha definiria minha posição de instrumento da metafísica biomecânica quântica do surgimento do Universo, jamais me colocaria na posição de onipotente, onipresente e engenheiro das Galáxias, porém essa maldita testemunha não existe, e assim sigo vazio, o mundo repleto de ignorantes e minha existência ligada à deles por toda a eternidade. Jamais imaginei tamanho sofrimento.

7 de fevereiro de 2014

Antes do nascimento do Universo eu permaneci adormecido por longas passagens do que costuma-se chamar tempo, minha cria gosta de dizer em nossos encontros que esse período vivido de trás para frente, enquanto a massa escura tentava expandir-se em algum lugar dentro de mim, foi a única prova de minha bondade. Sempre dizia a prima forma generosa aconteceu enquanto eu permanecera dormindo indefinidamente, e que depois do despertar de minha consciência ao existir, qualquer traço de compaixão que pudesse florescer dentro de meu infinito ser nunca mais poderia ser concebido, essa foi a ímpar cena onde dei espaço à um outro tipo de matéria deixando minha própria existência em segundo plano, um engasgo evolutivo onde entendi o altruísmo do deixar crescer algo externo independente de minha vontade, deixando-me assim possuir por uma involuntária forma primitiva do que vim a criar depois, o chamado amor, e que jamais consegui compreender ou deixar tomar-me por ele novamente. Obviamente que a ideia dela era completamente infundada, porém é preciso entender que nem mesmo ela tinha ciência, quando discursava sobre minha inabilidade em amar, desse seu erro de julgamento. Porém existe uma quantidade de verdade nesse conceito de existência concebido por minha cria, visto que jamais consegui realmente sentir algum tipo de afeição por nada, nem um único traço de felicidade ao ver o despertar dos cães caçando migalhas, envoltos em nuvens aristotélicas saídas dos cachimbos de crack de seus donos, moradores inebriantes e saltimbancos do Elevado Costa e Silva, pelas luzes que emolduravam o escuro nas alamedas de tijolos soltos e gramado semiúmido de urina na Praça da República¸ nenhuma curva de sorriso ao refletir o sol nas nascentes poças em bueiros repletos de lixo em uma tempestade de verão, nada que esboçasse uma quinquilharia dental mais larga ao ver que o vento, construindo-se em dobras atemporais no formato de seus canalículos, empurrava com maestria as nuvens Ozymandias, presenteando o céu cinza, poluente e anêmico com pequenas anedotas, inexistente empatia com as saias nos tempos mais desérticos, as saias a emoldurar genus valgos ou varos, genus que entreolhavam-se por entre as casas costuradas, as casas em formato vaginal alojando em seus pequenos lábios distorções por onde se forçava a entrada de seus inquilinos, os botões, moradores que sonhavam cotidianamente em manter sua vida menos miserável ao conseguirem alcançar a epiderme de orvalho, botões rodeados por pregas estridentes que permaneciam como longos penteados encaracolados, as pregas, lançando tentáculos por toda a extensão norte sul leste oeste das pernas, pernas em canvas desenhadas originalmente por mim mesmo, espaçadas como dois compassos simétricos à uma paleta de palavras que descreveria cores inebriantes dentro das saias, as saias, pregas e as pernas, os genus, nada disso era capaz de soltar um único gemido de felicidade em mim, nada, o mesmo nada filosofal que ninguém define, o mesmo nada, berço de meu nascimento, seja esse talvez o ponto e a morada de todos os problemas que aconteceram no decorrer da vida dela, o meu nada sempre foi extremamente maior do que qualquer conjunto de invenções ou somáticas soluções inventadas pelos meus descendentes seres humanos, nunca existiria uma única sombra de esperança esverdeada para que a felicidade nascesse dentro de minha suposta alma, isso explica a desmensurada escuridão que recobriu tudo sobre ela, pois eu sou ela, e ela eu, unidos pela única centelha que nos torna (todos) siameses, a melancolia.

5 de fevereiro de 2014

Uma única alma ali in loco, presente e esperando os acontecimentos desenrolarem-se, não havia. Ninguém apto em colocar um rosto nesse nada, uma arrumação de cabelo que pudesse lembrar a humanidade como seriam marcantes seus traços faciais, suas orelhas ternamente alinhadas aos seus ossos occipitais, a borda de sua pele alterando tons rosáceos e avermelhados ao receber raios solares em seu rosto, o queixo levemente arqueado como se fosse um portão medieval guardando a grande via de entrada do largo pescoço, que, desdobrado em duas metades sinestésicas vislumbrariam ombros de rodamoinhos cósmicos, braços longos e firmamentos de falanges, somar-se-iam ao tórax angulado de formações retangulares espaciais, protegendo um quasar com dois átrios e dois ventrículos em compasso redobrado, pernas inalcançáveis terminando uma conjugação biomecânica dessa única e solitária testemunha sobre como o nada se tornou o Universo. Entretanto, esse querer vai contra toda minha teoria, já que se existisse ocular visão dessa terceira parte interessada em disseminar conhecimento, o nada já não seria tão nada assim. Um relator de fatos tornaria o acontecimento compartilhado por duas consciências astrais, a minha e a do outro, sendo assim, uma visita nesse momento obviamente colocaria em risco a soberania tirana da qual não abro mão, e, que com tempo mostrou-se de primordial obrigatoriedade não fazê-lo. Por isso o caos que hoje existe diante das milhares de teorias a respeito de como tudo começou e se sou ou não verdadeiro, faz parte do meu jogo. Uma verdade que não tem a menor relevância em ser descoberta, pois meu controle perderia o sentido nessa nova realidade, assim, perdendo meu sentido, não mais teria minha valia dentro desse mundo. O que para todos os seres humanos teria ares de catástrofe, pois tenho em minha imaginação que nenhum deles queira me ver profundamente nervoso. Pois que seja então esse o começo de tudo, muito antes de poder criar no oitavo dia minha mais linda cria, assunto que realmente importa nesse relato.

4 de fevereiro de 2014

Existe sempre o vértice de explicação ineficaz, como as resenhas dentro das canções populares dos anos oitenta a pregar uma salvação destrutiva, entretanto dentro desse fato tópico, repleto em maledicências ou teorias absurdas falta um tipo único de descrição, uma conjunção de elementos que construiriam uma indestrutível tese sobre o que é e como perceber o nada, um estudo geofísico de lisura tamanha que ninguém poderia sequer questionar a veracidade de seus pensamentos, uma explicação que fosse embasada em uma testemunha ocular, essa era a pedra que faltava para que todas as respostas fossem dadas. Uma testemunha, um olhar físico e palpável dentro da construção do todo, capaz de definir por suas observações dos iniciais acontecimentos dentro do Universo o nada. Irrefutável como as agudas insinuações nas claves de Barrett, onde bicicletas eram morada dos gatos satânicos de estimação e as declarações de amor deixavam-se levar por emancipações da aura, e, ao invés de recobrirem-se com medo pelo desconhecido, embarcavam de uma vez por todas em uma paleta de cores circulando a estratosfera da Terra, onde as escalas em oitavas com base em um interminável dó um dois e dois um refastelavam-se nas expansões dos acordes dominantes da sétima, que serviam de término onde o sol era úmido, when I was alone you promisse a stone from your heart, my head kissed the ground, e assim tudo recomeçaria, pelas sólidas estocadas esquizofrênicas dessas letras trocadas como uma ímpar numeração correndo em uma linha descendente incessante, eis as testemunhas vivas de uma criação dentro da única pureza que realmente consegui ver em todos esses anos, o Caos. As cordas eram testemunhas que enquanto fossem percutidas continuariam a disseminação da tese, e uma testemunha era o que faltava para que finalmente todas as questões desse mundo pudessem ser resolvidas, algo, que até onde consigo perceber minha existência dentro desse redemoinho analógico de sinapses, não existe. Uma única alma ali in loco, presente e esperando os acontecimentos desenrolarem-se, não havia. Ninguém apto em colocar um rosto nesse nada, uma arrumação de cabelo que pudesse lembrar a humanidade como seriam marcantes seus traços faciais, suas orelhas ternamente alinhadas aos seus ossos occipitais, a borda de sua pele alterando tons rosáceos e avermelhados ao receber raios solares em seu rosto, o queixo levemente arqueado como se fosse um portão medieval guardando a grande via de entrada...

(continua...)

3 de fevereiro de 2014


O único entrave era que ninguém conseguira ver o nada.

Não por falta de interesse ou tentativas, mas por ser inebriante e impalpável. Essa aura sacra ao nada era uma veia metafísica existencial injetada ao longo dos séculos, o que o tornava um santo grão invisível. Ao mesmo tempo em que sua existência preconiza acreditar na sua forma, o que por si só seria como crer em na presença de espíritos e planos astrais, desconhecida é uma maneira eficaz em conceber uma definição pura de maneira aristotélica, afinal, a dicotomia das coisas excedia em muito a presença do nada. Um copo cheio de água quando esvaziado ainda lhe restavam à consciência em ser copo e o ar dentro de seu interior, que ao tomar o lugar da água torna-se protagonista da cena, o escuro quando muda seu espectro torna-se claro e não se torna o nada, e vice e versa. O vazio não pode ser definido como nada, pois estes, existenciais ou não, são repletos de moléculas de ar ou entrecantos calamitosos de sentimentos que invalidam a presença da completa falta de matéria, o vácuo também inexiste nessa definição do nada, pois existem as pressões e limites do espaço físico, podendo ser uma embalagem de café ou a minha caixa de areia chamada Cosmos. A definição do nada como a ausência ou falta de alguma coisa vai contra sua própria existência. Sendo ele a absoluta falta de preenchimento, ainda lhe sobra à percepção de ser nada pelo outro, pelo seu antagonista e por sua nêmese, assim sendo, o nada já pode ser considerado um pedaço do tudo, seu antagonista determinado na curvatura mais clara ou escura do yin e yang, sem nenhuma real intenção em sentir-se único, apenas uma parte do completo estado bruto de existência, porém sem uma definição concreta estabelecida pelo homem muito menos por mim. E esse era o problema. Como explicar o nada, como determinar o que ele é, se para os relojoeiros do universo chamados astrofísicos, até o nada dentro de meu universo é chamado de massa escura. Complica-se muito mais a história dessa definição, porque como algo que é nada pode ser uma massa escura. Existe a massa, então não existe o nada. A massa é o nada e a massa é o tudo que contém também pedaços de nada, parte de pedaços de tudo. O tudo, o nada e a massa, a massa, o nada e o tudo. Ninguém conseguia entender esse pedaço de meus trabalhos, na verdade, essa parte de minha história, mais precisamente meu nascimento e como acabei criando tudo depois.

(continua...)

29 de janeiro de 2014

2

A primeira coisa que ele inventou, contou-me isso depois de algum tempo que nos conhecemos, foi o cigarro. Muito antes de colocar sobre a terra a primeira versão de pornografia com objetivos masturbatórios, onde um casal transava inadvertidamente por entre as matas, rios e lagos em sua maioria quase todos desabitados quando não com alguns répteis apenas. No tempo onde o par romântico robótico, um homem e a mulher de sua costela, costumavam enveredar em atos sexuais quilométricos, ele por vezes voltava ao velho vício de gênese prima, envolvendo o bastonete de nicotina por entre seus longos dedos, girando-o quase sempre em sentido anti-horário, equilibrando suas habilidades de maneira singular. Conseguia manter esse foco ao fio de longas horas ou submerso nos estrondos proferidos pelos gemidos da mulher e o do homem, que nada mais sabiam sobre o lugar onde estavam, a não ser que as sensações que retesavam seus corpos os levavam sempre para o mesmo lugar hermeticamente fechado de ações únicas. Ele a tocava, ela o tocava, ele a sentia em bicos, lábios grandes e pequenos, ela o sentia em escrotos e glande, ele a penetrava, ela o penetrava, afinal, os longos dedos dela eram uma cópia fiel dos mesmos trapezistas de cigarro que seu criador possuía, e assim pela sua lógica mitótica de criação, seria capaz de sentir o penetrar de um homem e o ser penetrado por uma mulher, mesmo que fossem apenas as falanges dela. Ele me contou que logo no começo das relações sexuais dos dois, muitas vezes passava horas e horas fumando e sentindo o gosto de seus dedos, desenhando em sua boca a sua própria boca, como uma oração dita inúmeras vezes, uma reza destilada em fumaça nos cantos dos lábios sempre no sentido anti-horário, a saliva era morna e cheirava ao âmbar das árvores como um melaço resfriando-se, as unhas entumecidas roçando a língua dele deixavam notas das folhas e orvalho seco, sentia a sujeira misturando-se à saliva e os gemidos do homem cada vez mais fortes enquanto a mulher o recebia em sua boca com seus dedos em riste, o cigarro pela metade, a nicotina que invadia suas sinapses cada vez mais profundas, o feminino e o masculino dentro do seu corpo e indivisíveis, a pele dos nós nos dedos da mulher era suave e as pequenas rugas davam uma sensação de pressão, que somada ao trago do cigarro revelava uma nuance que ele descobrira naquele instante, algo jamais pensando ou produzido por ele desde os tempos da primeira cria. No sexto dia ele iniciou a criação da beleza através de todas aquelas sensações em helicoidais formas de fumaça e urros, seus dois escravos dentro daquela Terra, suas duas míseras escarradas inoculadas e confeccionadas como seres humanos dissolvendo-se em suores, intocados por tecidos ou folhas a recobrir seus corpos, soltos no ar como dois homicidas trapezistas apenas capazes de sentir o acelerar do sangue na direção de seus sexos quando no limite. A mulher redesenhava a anatomia do homem com seus dedos, a maneira em seda como percorria as arestas quase fechadas em vácuo do interior dele eram tão sublimes que ele, enquanto assistia e sentia, quase terminou o cigarro em uma só tragada. Mas esperou, segurou com seus dedos o final, enforcando o tecido mais escuro e sentindo o entumecer frenético dos trovões, era preciso esperar, esperar pela mulher desejar a língua com saliva ácida, deixar escorrer por cima do homem, recobrindo toda a extensão dele, o cigarro marcava a boca do criador, seco, despregava alguns pedaços da pele de sua boca e estampava seu sangue na nicotina, a mulher em alquimia aperta a criatura masculina mais forte e suas falanges já não esperam mais, desdobram-se em clavas dentro do homem, o homem já não mais existe, dissolve-se no submundo da fisiologia, a mulher vulcaniza-o, e enfim ele já não é mais nada, não precisa ser mais nada, ela sente sua mão esquerda abrir-se pela pressão causada durante o rodopiar final dele, o criador prepara-se, a mulher enovela sua língua e a falange ereta parte ao equinócio, o apocalipse, o gênesis e o meio, tudo em química na língua da mulher, que só após esse dia ganharia um nome. O homem acabaria recebendo uma denominação apenas por questão de ordem, não por gosto de seu criador.

Não existiu depois desse episódio mais alguma intenção dele em estabelecer preceitos ou castas nas gerações futuras, porém o criador já sabia que por longos anos algum tipo de cocaína ideológica seria necessária para que certos escarros humanos possam viver sem saber de tudo isso que ele vivenciara, mas Andy não está preocupado com isso agora, ele apenas sente suas criações, os pedaços delirantes de sua lisergia em movimento, engole o último pedaço de nicotina.

Ele gostava de me contar isso sempre nas primeiras vezes que nos encontramos, talvez por achar que fosse me sentir chocada com alguma coisa, porém sempre disse a ele que isso era apenas exibicionismo e que se fosse contar algo que ele me contasse como inventou primeiro o câncer e só depois o amor. Andy nunca gostou de ser interrompido, muito menos chamado de imperfeito, também nunca fora motivo de alguma alegria por parte de sua alma (se é que a possuía) questionamentos quanto sua postura diante da ordem como todas as coisas foram criadas ou até dos motivos - estes muito mais torpes do que qualquer ser humano pudesse imaginar -. Contentava-se em dar esparsas explicações e como todo menino com uma eterna dose de egocentrismo, inúmeras vezes durante nossas conversas ele simplesmente dizia que as coisas eram assim, pois elas deveriam ser assim de acordo com a sua vontade, e, sempre ao dizer isso usava uma de suas mais irônicas frases:
“Está na Bíblia lembra?”.

O sorriso em seus olhos quando ele dizia isso era a única coisa que me levava mais próxima a ele. O cinismo daquele que as pessoas chamavam de Deus era a ímpar característica que tínhamos em comum, talvez até um pouco do sadismo ou da genética suicida, porém era só. Isso avivava minha memória durante o tempo deitada no quarto do hospital, pois ficava a lembrar de quando comecei a entender quem era realmente esse ser que as pessoas temiam e que para mim não passava de um drogado sadomasoquista que sempre aparecia em minha frente usando um boné sujo de caminhoneiro e barba por fazer de duas semanas, sempre fumando um maldito cigarro Marlboro Lights, o que me irritava mais ainda, afinal de contas como o maldito ser onipresente e que nunca contrairia câncer de pulmão, tinha a capacidade de fumar algo que parecia menos um cigarro e mais uma latrina.

5 de novembro de 2013

1
Prefácio

O sangue morto descansava no palato.
Mais importante do que tentar abrir os olhos, era precisar se estava viva ou não. Uns poucos suspiros herméticos ainda não encontravam reverberação dentro do peito, e, menos por precaução e mais por uma lacerante fraqueza, não conseguia sequer levantar os braços para tentar enxergá-los. O que acabaria tornando-se uma tarefa ainda mais ingrata, afinal de contas os olhos estavam tão embaçados e cobertos por algum tipo de pomada, dificultando ainda mais as frustrantes tentativas em manter uma conversa racional com o meio ambiente. Homeostasia enfraquecida pela inércia do tentar morrer em cada inspiração forçada, a incapacidade de cortar-se ao meio e sobreviver colocadas em jogo naqueles iniciais instantes, onde marejados olhos em vão moviam-se. Existia um reconforto por estar deitada sem nenhuma sensação de esforço corroendo os músculos, porém era só isso. Uma bolha de tempo onde estava imersa. O mundo resumia-se apenas nas tentativas de entender onde estava e como estava.

4 de novembro de 2013

2 Amarente...

O dia em que resolvi escrever sobre minha vida não haviam nuvens e tudo resumia-se ao contrariar o erros da naureza. Acordada com a sensação de que os minutos não corriam mais rápidos que nada. Naquela quarta acordei no automático. As roupas não foram escolhidas, em inércia colocadas e nem ao menos fora eu a vestir-me. O céu de uma cidade qualquer, que hoje eu não sei se lembro, um beijo cortou minha alma e me disse: "Hoje não é dia de nada, hoje é dia de sobreviver". Revoltei-me com a ordem. Como assim sobreviver apenas, depois de tudo que passei para chegar até aqui, eu queria mais. Queria sempre mais de mim e de todos. Queria todos acordados e dançando como Björk, todas as minhas veias gozando pelo quente afago das nuvens. Queria elas explodindo pela ação de qualquer agulha. Eu não poderia deixar esse céu cinza demolir-me por completo. A possibilidade em voltar ao início, dentro daquele misógino útero de repressão em lava não era um opção atraente. Seria muito mais útil o suicídio.
Entretanto, sai no automático de casa. Caminhando por entre os carvalhos e roseiras em minha rua em direção à garagem. Muito perto do meu café predileto, logo pela manhã. Passei por ele sem ao menos esboçar um bom dia. Sei que meu desjejum ficou de cartola fora da cabeça, pedindo conselhos aquele famoso chapeleiro de Alice. Mas era assim que eu queria, despida de nutrientes. Nessa manhã percebi a aproximação de minha história com vontade em deixar neste mundo meu grito. Não era misericórdia, muito menos uma tentativa de catedrática erudição ou redenção com data de validade expirando em fungos acéfalos. Porque um grito é a forma mais primal de ligação entre os seres humanos. Apenas um grito, o mais possível pedaço de estrutura da alma. Um não calar, vomitar ou esparramar pelas bordas da vida uma ejaculação quente e modorrenta. Um berro gutural nascido em ressurreição, como se possível fosse despedaçar a pela e unir suas células em uma onda reflexiva e refratária de som. Isso seria enfim nascer e nunca mais voltar. Isso seria enfim a morte desses artefatos de tortura que prenderam durante anos meu corpo em desafinação.
Olhava os rostos nas ruas e sabia que muitos daqueles que me viam, entendiam o que eu era. Porque os reflexos de seus espelhos, ali jogados estavam. Nas suas caras, em pleno dia. E quando eu olhava bem dentro de seus olhos eles me diziam que éramos iguais. Um sinônimo humano que deambula pelas lateralidades do mundo. Fenocópia desigual do seu terceiro corpo. Então eu sabia que minha história era a mais comum, mesmo assim universal. Porém universalidade jamais será o que todos querem, pois em cada descobrir-se em minha face, as pessoas retiravam seus olhares e isolavam meu sorriso em uma cela de segregação invisível. Como se escrava fosse minha alma e essa denegação fosse uma chibata. Sentia dentro de mim cada empalamento de ódio por mostrar que era eu um pedaço de todos e que eles eram um pedaço de mim. Nossas vidas amalgamadas segundo a segundo por algo que jamais veremos. Naquela quarta morri novamente, violentamente e pausadamente. Foi o dia onde entendi os porquês em tudo aquilo. Percebi que todas as dores, cortes, agulhas, tesouras, pós mágicos, dedais, marionetes, colunas sociais, igrejas matrizes, chiquinhos padres, tatuagens, amigos mortos, amores postos, narizes sangrando, veias pulsando, dores abertas pelo tempo, pulmões em colapso, não eram nada e jamais significariam alguma coisa, pois quando descobrem-se iguais ao outro dentro da alma, as pessoas tendem ao homicídio coletivo e higienista. Rezam de joelhos em suas igrejas pedindo um mundo mais unido, porém ao ver meu rosto igual ao deles, sentem asco.
Nessa quarta que entendi, nada daquilo que experimentei e o que tornei-me seria de valia aos olhos terceiros, como sempre. O cotidiano da aceitação sempre foi imperfeito e assim as pessoas conseguem um equilíbrio com suas próprias neuroses, impedindo-as de viver da maneira que realmente interessa. Livres de amarras. Nessa quarta eu já sei a resposta. Foda-se Andy, foda-se o cartesianismo. Sou livre como nunca jamais serão nenhum destes que veem meu reflexo com sendo eles mesmos e vomitam distorções normativas.
Amarente sim e para sempre. Amar rente...

Não saberia dizer quando tornei-me eu. Mas sabia dizer quando sentira o amor pela primeira vez. Não aquilo com o vizinho de cerca, que se revelou um mero coadjuvante. Mas sim aquele que devasta. Tira sua cabeça de qualquer atmosfera elevada em dez a vinte três moléculas, jamais apagado das cadeiras escolares, as mesmas que me jogavam na infância. Sempre lembrei a primeira vez em que descobri o amor Scarlett O’Hara. Lisergia de perder-se dentro de um ser completamente novo, sentir-se inteira, pulsar a vida de dentro de um corpo cansado da guerra. Muito mais que sentir na alma, amar era rente. Mas não foi sempre assim. Descobri isto não da melhor maneira, nem da mais rápida. Porque simplesmente não sabia o que era, nunca sentira de verdade, era apenas esboço seco.

Folhas amontoando-se na varanda. Uma noção de amor não passava do seguir platonicamente as figuras que mais chamavam a atenção, naquele cinza quarteirão onde tinha minha morada secreta. O casarão quase repousando na esquina da rua, onde minha paciência inesgotável jazia lenta através do corpo roto. As paredes perdendo a tinta por entre o concreto em cores arenosas e vermelhas da poeira no outono. O eco dos ventos no assoalho onde me deitava, enterrada os fones de ouvido repassando o dedos em cada célula de areia a fundir-se com minha alma. Aquela casa foi meu refúgio durante anos, enquanto deteriorava-se a de meus pais. Descoberta nas minhas fugas de socorro, era minha alva mater de redenção. O lugar onde eu podia viver tudo aquilo que sonhara antes mesmo de acontecer, as danças mais lindas e canções mais apaixonadas eram apenas minhas. A menina escondida por entre o rosto marcado de cicatrizes e escaras psicológicas dentro daquelas paredes envelhecidas tornava-se ímpar. Amada como o corte mais profundo da navalha na carne, aquela casa sempre foi o local onde conhecia todos aqueles por quem me apaixonava e jamais conseguiria fisicamente chegar perto. Conversava com todos eles, sozinha dentro de uma casa abandonada. Não sabia o gosto dos lábios de meus amantes, mas já vivera todas as cenas dentro em meus cobertores. Em noites onde a lua e o frio faziam da sacada floresta. Era assim sozinha que imaginava. Não sabia se conseguiria amar alguém, afinal de contas sempre fui ensinada que não deveria. Programada para ser um monstro, anormal. Não passava de sombra por entre os mundos. Mas dentro de mim sabia que não, mas não sabia ainda. Imaginava que tudo o que aconteceu iria acontecer, porém jamais imaginei que tudo começaria dentro do meu território particular e escondido. Uma mudança que iria durar anos teve seu início no tempo onde eu mais tentava dizimar meu corpo por entre as madeiras daquela velha casa abandonada. Não são assim que as verdadeiras mudanças devem ser?

Por entre abertas tardes, quando não me escondia, percebi por entre a sacada de sonhos, que alguém pelas beiradas espreitava sem querer. Passando pela calçada nem a notou instantaneamente. Passara apenas olhando quanto o prédio vizinho crescera nesses últimos meses. Concreto e madeira de lei, trazida ilegalmente. Tinha pelo menos alguns grandes andares completamente prontos. Homens perambulando pelos parapeitos herméticos e abertos em seus capacetes. Ele adorava pensar que os operários nasciam com asas embutidas, caso o acaso trouxesse uma queda. Pensava como seria morar naquele prédio. Sobre a piscina e seus círculos químicos denunciantes, a quadra aonde poderia jogar aquele gol a gol com seu vizinho chapado. Pensava nos churrascos na sacada, suspirava. Depois abria um sorriso e sabia, jamais.

"Essa vida cartesiana não me pega".

Assim continuou sem perceber que estava sendo observado havia algumas semanas. Uma pequena flor de lótus balançava por entre a sacada. Não havia escapatória. Sempre soube que seu destino era ele e mais nenhum seria possível. O choro do conformismo latia como cão vadio por entre as pernas. Eu era uma menina que crescia dentro de uma armadura. Não ganhara nada além de dor, mas enfim era a minha vida.

13 de fevereiro de 2013


Pois o amor, insolúvel edema de uma lesão em segunda intenção negando-se à fechar suas bordas não coaguladas, arrebata, afaga e por fim dissolve a epiderme dessa alma aberta. Semelhante à escrita em itálico, com suas formas arredondadas e favoráveis aos olhos descobrirem suas curvas mais bem definidas e reais. A escrita não pode ser mais ou menos verdadeira, assim como a alma, que como as letras é argamassa moldável, transitando entre as mãos do passado e presente. Um coágulo vivo a pulsar por ente os dias dentro de sua mais escondida artéria, a vida que escorre para não mais voltar os segundos perdidos por entre lembranças do passado, que insiste em tornar-se homicida do presente.
Porém incrível é perceber como essa armadura formada pelo viver o agora, aos poucos consegue irromper a afasia do corpo teimoso e alcoólico. Uma desunião entre o que se foi e o que se é tão visceral, que possivelmente existirão dois reflexos de duas pessoas diferentes vivendo por debaixo dos mesmo sistema linfático poroso. Não existem ligações sulfúricas demais a unir essas duas psicoses. O passado escárnio do presente e o presente escárnio do passado. Um a rir do outro como dois irmãos gêmeos univitelinos ligados pelas vísceras. Sangrando em cada pedaço das suas entranhas a raiva por estarem colabados por uma membrana única, e ao mesmo tempo, jamais tocarem-se. Uma fenda de era geológica a separar duas entidades diferentes vivendo no mesmo corpo.
Por entre pedaços restantes da halitose parca e seca do vento naquele varanico em agosto, o dilema mostrava-se ainda mais dilacerante…