Brasa de artelhos tortos
mãos
atadas
dedos presos ao calabouço
navio
negreiro
um antigo senhor de engenho
ainda
chibata
não mais homens deuses
ébano em sangue
agora apenas a genética
do
medo & dor
aplicada aos que restaram
mulheres errantes
aprisionadas pós proa
tratadas como resto
como nada
antigo sinhô agora não
latifundiário
herdeiro Bandeirante
estupro
escravas brancas europeias pobres
chão de terra
senzala latino americana
arrumadeira amante sangue
passadeira de brasa
futura artrose
na casa grande de outrora
esposa irmã
castigos velhos chapéu
o suor nas costas
chibata moderna
canaviais mucamas imigrantes
hierarquia
nascida na pré coluna social
jantares exclusivos
Guadalupe sua pele escarificada
mãos tortas do passado sórdido
empregada aprendiz
do ódio branco...
***
... De seu útero cinco filhos
um homem morto
Casada em
genética patriarcal
a chibata atrás da porta
Caixeiro viajante
nos bares
personificação da bondade
Núpcias onde
jamais se via a pele
nua...
O bar onde o
cartesiano desaparecia
seu Reino em casa
Guadalupe &
As Sobras
que lhe proveram a carapaça
Lhe deixaram
apenas o machismo
dentro de um litro de bebida
Velha amiga curandeira
embebia fraldas e aniquilava germes
O fim débil
que ainda longe
acenava...
Como a Terra
dentro do navio
a foice que usava no canavial
Vestimentas
de prostituta particular
a pele escarificada como A Cristo de vagina
Guadalupe
& As Sobras de uma vida
a violência misógina passada como luz
Salvação
do destino sujo
casamentos baseados me falta de escolaridade
Religião cega... Terços imagens
vil massacre encefálico
Faringe muda do gritar sem eco
perdida na evolução do mundo
Jamais ensinada como seguir em frente
sempre uma mulher nascida para ser NADA...
Filhas em série abortadas da liberdade
cornucópia em simulacro
Aristocracia o estupro filosófico social
rabo adentro
pelo patrão e marido provedores
Traço meritocrático da Guerra
pelo melhor dos descendentes
Pobres descendentes... Joguetes
do sêmen de um fazendeiro usado com arma
as normas religiosas de uma sociedade de bem...
***
... se pudesse lhe salvaria
Uma máquina do tempo
levaria tua alma
embora
Mostrador de quilombo moderno
tornaria sua morte
menos dolorosa
Aquele esquecimento
sempre uma forma
D’alma apagar tudo que viveste
então essa dor de não querer
Viver na forca essa maldita vida
torna o ar em
lágrimas
O resto em afasia do corpo
... se pudesse lhe salvaria
Antes mesmo de saber quem era
mas é tarde e já
és morta
Vivo então de rancor autodidata
pois assim a
raiva me dói menos
Ao saber como fostes tratada
tu que tolhias vontades
Tu que cozias polentas em ranço
tu que trocavas
fraldas como um diabo
Tu que socavas rostos com demoníaca força
... se pudesse lhe salvaria
Do machismo e da misoginia
que passastes como
meritocracia
Para todas as suas filhas
que fizeram delas
patriarcais madres
De racismo rancor & superficial estamparia.