Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

15 de maio de 2024

, ,

Helicóptero

O cálculo deveria ser impecável, não existe nem acolá nem entretanto que justifique um recuo. Tudo aquele dia havia levado lhe ao tracejado gráfico deste momento. A sequência era clara: primeiro encostaria as duas escápulas a serem separadas pela linha média da porta, flexionaria em, pelo menos, setenta e cinco graus o joelho para que desse modo o ângulo favorecesse a pressão do corpo sobre a madeira com maior segurança, depois, aumentaria o vetor apoiando a linha anterior do triângulo de sustentação do pé na borda da cerâmica e colocaria um pouco de joulestenia em seus músculos tibiais. Longe dos ouvidos era possível perceber um agudo rotacional percutindo o ar.


Visto que a biomecânica do quadril e pernas estava acertada, era hora de separar os trapezistas sem rede dos malabares com duas bolinhas de tênis. O copo de plástico, que se encontrava cheio, seria colocado na borda da boca e esta sustentaria o recipiente sem derramamento de líquido, enquanto sua mão esquerda alcançaria o frasco fechado ao mesmo tempo em que a direita empregaria menor esforço para recolher de seu bolso o pedaço de pano ainda vivo. O som ao longe tiquetaqueia mais perto, parecendo estar menos de duas corridas velocistas de distância. Impressionante mesmo é perceber que a largura dele elasticamente perseverou maiores tons. Sentiu um pequeno tremor em suas mãos, contudo erros não poderiam ser permitidos dentro do cubículo de trabalho, mesmo com aquele sonido. Movimentos de antecipação completos, restava agora jogar o osso para cima, esperar sua circulação em voltas até o espaço, para o abraçar em forma de nave espacial povoando de tecnologia aquele ato da peça.


Frasco sem tampa, pois cambaleava entre o indicador e médio, embalado no berço construído pelo polegar, permanece dormindo em salivar, o som do lado de fora desenha enfim seu tamanho em ferro, rotores e motores, que claramente evidenciam a presença de um helicóptero. Sobrevoando baixíssimo de hélices asssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssoviando pelos passantes do lado de fora. O pano então prestidigita uma queda e repousa na boca vítrea, o que conclui com sucesso todo o truque. Ouviu então um grito de socorro, uma voz ecoando frase complexa e desconexa sobre a hélice da aeronave ter decapitado uma pessoa, mas não só. Outra oralidade em pânico descreve aos berros a perda de duas pernas, mais uma frase, mais dois braços e um peito dilacerados. Mas já é tarde e o palco não espera e a nova receita deve ser aspirada sem pressa. Então a porta o abraça, carinhando a maçaneta de algodão-doce em suas orelhas, ele sente uma língua de azulejos tocar seus lábios. Esquece o triângulo de sustentação do pé, prefere o longo beijo cerâmico de Itatiaia. Abre os olhos e a vê, poderosa deusa mitológica que conduziu as amazonas de Madagascar, aquela ilha de amor. Não há mais corpo, não há mais ele, apenas um caleidoscópio de madeira onde músculos e serragem correm pelas mesmas veias. Tudo interrompido pelo pânico das ruas que invade a cabine. O cheiro do massacre entra pelo seu nariz e ele já não consegue permanecer ali. Precisa sair, ajudar aquelas pessoas mortas e salvar os feridos. Abre a porta, mas não consegue andar. O sangue civil pelas ventas e orifícios do asfalto são só finalizados quando o helicóptero bate contra um muro que usava bermuda preta e uma camiseta da banda Radiohead.


“Marcos, caraleo, fecha esses braços e para de girar, você está batendo em todo mundo”.

Ao longe um Fusca reverbera Olodum tocando Madagascar.

,

Shibari

 

Desabou no limite do calçamento.

Talvez por ter pouco espaço entre seu rosto e o meio-fio não conseguiu deslisar o corpo na direção dos trilhos da linha férrea, como costumava fazer nos dias onde percorria o trajeto da escola estadual até sua casa a pé. Ali, por entre os novelos matagais existiam três portais onde a eletricidade do escapar da cidade os atravessava várias vezes ao dia, vestidos por uma dúzia ou mais de vagões marcados com o logo da empresa ferroviária. Aquele dia contudo, não havia espaço. Sentiu as mãos rasparem asfalto abafando a queda, ouviu sangue escapando pelas rachaduras da pele, descendo pelo corredor de água na beirada da calçada. Baforou arremedo imagético das comportas na estação de tratamento d’água, instalada ao lado do campo de futebol de várzea, onde foi goleiro residente na cratera de lama, com seus óculos caindo enquanto o time adversário renegava um sossego. Ocasião onde o mesmo menino lhe deu uma mesma rasteira, exatamente igual hoje. Na lama, ouviu as águas da comporta. No asfalto ouviu seu sangue percorrer a Orlando Moretto. Rua inclinada da mesma forma que o viaduto, onde troncos da construção formavam malabares e plataformas que sobrevoavam a linha férrea, territórios para batalhas de trapezitas espiões filmadas por seus óculos grande oculares, enquanto o maquinista alumiava toda vegetação das encostas. Inclinada, como a cama do quarto onde ela dormia com o marido. A água na beirada da calçada corria-lhe os arranhões, o jato do chuveiro compunha bailados pelas escápulas desenhadas em ângulo reto das costas fechando as cortinas em suas mãos afastando as coxas hipertônicas daquela mulher. Passou a mão esfolada pela boca e sentiu o gosto da terra da rua Orlando Moretto em seus lábios ao tentar levantar-se. Memorizou aquele gosto dela de rebordo doce, o cedro que sorvia sua língua percorrendo a pele casada e por fim o enroscar dos pelos em seus dentes. Ao levantar-se, passou pelo menino que lhe derrubara. Não revidou, pois o congelado tempo permitiu que levitasse suspenso por um shibari, mesmo que no dia do seu espancamento por sete quarteirões o resgatou. Idêntico ao que levou-lhe a porta da casa dela, esperando seu marido e filho viajarem, para que pudessem viver nus durante uma vida inteira de oito horas. Perfeitamente iguais as que balançavam nas madeiras da construção do viaduto, que ao atritarem na estrutura, esfumaçavam-se. A memória do atrito nas paredes úmidas dela deslizando seus dedos esfolados no calçamento da rua Orlando Moretto, lembravam que a vida era pulso daquela língua valsando-o. Era essa memória que tentava sustentar por entre a fumaça da última pedra de crack queimando nas cinzas naquela lata de refrigerante, ecoando os carros na Avenida Nove de Julho, inclinada tal qual a rua Orlando Moretto.

,

Synapses

 Já me pusera apreensiva antes mesmo de bater à porta, tudo isso por conta de uma história que nem ao certo sei ser verdadeira sobre como este específico chefe simplesmente esganou um de seus estagiários após severa crise, onde o resultado externo fora O Corpo cercado por seis policiais que tencionaram a possibilidade dele ter matado alguém dentro do seu apartamento, devido aos gritos ouvidos do lado de fora, que no final das contas eram Do Corpo mesmo. Recontei por seis vezes os azulejos azuis que cobriam a parede da entrada do departamento, fazendo questão de também enumerar todas as flores delicadas que os adornavam. Minhas mãos suadas por demais, quase nem conseguem abrir a maçaneta quando o berro do chefe mandou-me entrar. Enquanto caminhava pela sala completamente escura, uma voz forçosamente massificada, rouca e falha me recebe.


“Bom dia estagiária Synapse Modular Dexa. Bem vinda a Alphaville, megalópole cosmopolita planejada e regida pelo computador central Alpha 60 e suas regências…”. A frase não se completa pois uma risada solitária ecoa pelos cantos enquanto entrei vagarosamente fechando os olhos em suspiro pensando como é que fui parar com um homem que se pensa engraçado. “Meu Deus estagiária, bem vinda, eu não consigo parar de fazer isso com todos vocês, mas vocês dessa geração nova, deve ser pelo sono, não conseguem ter senso de humor”.


“Bom dia senhor…”.

“Senhor ACTH, SENHOR ACTH”.

“Me desculpe, senhor acth”.

“Já sei que você é daquelas me too”.

“Como, senhor?”.

“Nada, vem logo aqui!”.

“Mas a sala toda está escura”.

“Dá o primeiro passo, por favor….senhorite”.


Já tomada de horror trabalhista, ao caminhar em frente uma luz acendeu-se em meu macacão. Iluminando a sala, visto que a luz era bem ampla, pude ver com mais detalhes, o lugar tomado de painéis separados em sequências que obedeciam uma numeração e cada número, em ordem crescente, era desenhado com uma única fonte, e estabeleciam relações matemáticas entre si. Por exemplo, a sequência intitulada “Preparação do café da manhã”, terminava no botão de número 18496 intitulado “Colocando a caneca de café com a mão esquerda na mesa, deixando a alça do lado de fora”, ligando-se ao 136 da sequência “Banho”, onde se lia “Lavando o primeiro metatarso da mão esquerda”. Tudo isso disposto em duas fileiras de painéis que tomavam conta da sala. Havia espaço para circulação pela sala, e só. Chamou-me atenção um botão enorme vermelho cercado por uma caixa de acrílico, com os dizeres escritos em um pedaço de esparadrapo logo abaixo, “Black Sabbath”.


“Bom, como você já percebeu estagiária, estamos ainda em momentos antes da luz adentrar a sala. Isso deve ocorrer assim que a primeira pálpebra abrir, em exatos doze minutos quando esse medidor aqui escritor ”Sonho” zerar a contagem. Quero já deixar claro o seguinte: tudo aqui segue uma ordem específica e essa ordem deve ser seguida de maneira perfeita. Não há espaço para manobra, muito menos para jeitinho. O Corpo depende da nossa eficiência para que aquele botão jamais seja acionado. Por isso, desde já siga estritamente minhas ordens e permaneça atenta aos tempos exatos do acionamento dos botões sequenciais. Deles depende tudo, ainda mais hoje, que temos um novo evento”.


“Novo?”.


“Sim, hoje na aula da pós-graduação, O Corpo terá que apresentar um texto. Como ele não o escreveu ainda e temos pelo menos mais oito horas de eventos que ocorrerão ao longo do dia, e estes pedem uma sequência exata de ações, todo cuidado é pouco. Com calma e sem nenhum tipo de chilique de estagiária, tudo deve correr bem”.


Eu só pensava como ia ser lindo o processo trabalhista, era a única coisa que me fazia continuar ali.


“Pois bem, como é que é… Synapse Dexa, vamos lá. Repassando: Primeiro o café da manhã depois, por favor atenha-se especificamente ao passeio com o cachorro, pois este está velhinho e há uma sequência lógica de passos dados pelo Corpo quando o cão tropeça. Há e não esqueça de apertar esse botão azulado aqui de procedimento novo, o sinal da cruz”.

“Sinal da cruz, senhor acth, mas O Corpo não é ateu?”.

“Esse departamento não discute isso, apenas criamos as sequências lógicas que devem ser seguidas para que não ocorra a morte do indivíduo”. Voltando, depois disso os atendimentos e sempre todos em ordem alfabética, lembre-se sempre entre procedimentos, existe aquela sequência mais gasta, por ser usada com mais frequência, chamada “Lavando as Mãos”. Primordial para que tudo corra bem. No treinamento você recebeu todo o procedimento das refeições e da escovação de dentes. Lembrar que, o fio dental deve começar pelo lado esquerdo superior da boca, e passar sempre em números ímpares pelos vãos dos dentes. Jamais me aperte esse botão em vezes pares, pois o procedimento tem que se reiniciado e já tivemos problemas de gengivites por sangramentos”.

“Sim senhor”.

“O dia deve ocorrer sem maiores problemas, visto que as sequências estão muito bem equacionadas, meu temor é quando ele começar a escrever a tarefa. Veja bem, é método, então O Corpo vai tentar, mesmo com um rascunho feito, fazer algo fora dos padrões, pois temos um problema sério de sabotagem dentro da empresa e já há uns anos temos que lidar com ataques terroristas. Eles surgem do nada em grupos pequenos de sinapses, com uns macacões coloridos, jogando tinta explosiva em todas as salas do departamento. Se chamam V.I.D.A.S.. E mesmo com anos de emprego, eu jamais vi grupo tão coeso assim. O Corpo frequenta um lugar onde sempre conversa com outro Corpo, me parece feminino, onde escuta e fala muito, chora de vez em quando e sempre depois de períodos onde ocorrem essas conversas os ataques terroristas ocorrem. Por isso desse enorme botão vermelho, aliás gostou da referência?”

“Na verdade eu não entend…”.

“Meu SAIS ESSA GERAÇÃO…..PARANOIA, a música do Black Sabbath. Sempre que esses ataques terroristas ocorrem, apertamos esse botão para que as sequências todas voltem mais fortes ainda”.

“Entendi”.

“Pois bem, fique atenta pois tenho a impressão que eles devem chegar hoje com força”.

“Mas tem algum sinal de que o grupo apareça?”.

“Ter não tem, mas está sentindo esse cheiro?”. “Então, sempre que esse cheiro se torna mais forte, eles atacam”.

Eu sabia que cheiro era aquele, eu tinha certeza agora que todo meu treinamento estava certo e que jamais poderia estar no lugar errado, aliás, jamais poderia estar errada. E como seria maravilhoso poder matar dois malditos coelhos com uma cajadada só. Primeiro um chefe maldito, capitalista porco e depois poder fazer valer tudo aquilo que acredito e tenho por mais amor. Retiro o frasco do bolso, o aperto, direciono a luz para certificar-me que peguei o certo pela manhã. Sim, era esse. Abro um leve sorriso quando leio: FRASCO 134 A. V.I.D.A.S. EXTRATO DE ISRS E CLOMIPRAMINA.

x

,

Os Originais

CENA. SÃO PAULO. INT./EXT. DIA/NOITE.


Os olhos abertos, no calendário dia quarenta e oito de fevereiro de dois mil e vinte e quatro. O alarme não mais ressoa, martela. John Cale e seu Drone ressoam. As mãos aos fios de cabelo para depois perfazerem os olhos amontoados em restilo de sono. Um dedo correndo pela lateral da têmpora esquerda, encontra a curva da orelha que coça no mesmo tempo da luz refletindo no tímpano. Os sons do corpo lento, os cintilares do colchão de molas ensacadas e suas manchas na epiderme. Não lembrava se era café ou não, mas os dedos ainda procuravam fósseis dentro de suas entradas capilares. Fecha os olhos novamente e lateralmente vagueia seu corpo até encontrar a borda da cama, enquanto seus joelhos acertam um minúsculo ângulo de escape onde os artelhos consigam sentir completamente o piso gélido do quarto.

“I don’t know, just where I’m going.

But I’m gonna try for the kingdoom if I can”. 


Os passos então entrelaçam a inércia 

enquanto as mentiras enrolam a língua. 

“’Cos it makes feel like I’m a man”. 


Os pés então cortam o chão, descem as escadas.


Trôpegos se colocam                                                                            “When I’m rushing on my run

violentos andares                                                                                    When I feel like Jesus son

enquanto mãos alcançam

a escova, passa pelos                                                                              And I’ll tell you things

dentes, calça os sapatos,                                                                         aren’t quite the same,

desentorta a gola                                                                                    When I’m rushing on my run

da camisa,                                                                                              When I feel like Jesus’s son

ajeita a barra calça,                                                                                Well I guess I just don’t know

corre,                                                                                                      Well I guess I just don’t know”

empurra o tempo,

lança a mochila, desafia

a gravidade das escadarias

enquanto transpõe por dentro

o muro da entrada, porém

escuta de novo aquela voz:


ONDE ESTÃO OS ORIGINAIS!!!!!


Enquanto o autor recorre ao controle de ansiedade para que possa caminhar com mais paciência, percorre mentalmente todas aquelas flores e folhas do calçamento. Os pedregulhos soltos e as formas saturadas das cores enquanto rios correm pelo meio fio. Somem preocupações enquanto recolhe seus pensamentos em Amanda, pois precisa permanentemente percorrer precoces pesadelos sobre ela estar ou não na porta de entrada da loja. Como o sol resvalaria nos tons vermelhos e como a luz se esconderia nas mechas ainda desbravando a coloração inicial. A calçada então se abre, lajotas elevam-se enquanto o autor gorjeia alguns sons como se fosse alvo trinado em tom menor vindo de um bambu rebatendo o vento de outono. Onde estará Amanda. Onde estará aquela torneira que ela tanto amava abrir e recobrir o apartamento de agrupamentos de água que quase não lhe cabiam nas mãos enquanto gritava que o autor precisava viver. 


“I have made the big decision, 

I’m gonna try nullify my life”.


Amanda corria,                                                                           “Cause when the blood begans to flow

escorria pela                                                                                  When it shoots up the drooper’s neck

vida, recobrava                                                                             When I’m closing in on death,

os tornozelos                                                                                 And you can’t help me

em pulos                                                                                        not you guys

assombrosos,                                                                                 or all your sweet girls with

enquanto movia                                                                             your sweet talk

seus lábios                                                                                     You can all go take a walk

em mares                                                                                       and I guess I just don’t know

de cantigas                                                                                     and I guess I just don’t know

cantigas e

cantigas,

não há espaço

não há morte

não há sorte

apenas ela

apenas seu corpo

apenas seu nexo

o perplexo ser

enquanto ela explode

a vida nele.

Mas mesmo assim, aquela voz, aquela maldita voz:


ONDE ESTÃO OS ORIGINAIS AUTOR

ONDE ESTÃO OS SETE MIL REAIS AUTOR

AUTOR!


A voz em seu pescoço, o arremessa na parede lateral e tenta fugir desesperada pela rua. Não vê o caminhão de reciclados que passava e arrebenta sua coluna cervical, cortando sua cabeça. Ainda assim suplicava pelo autor.


FADE OUT.


Os olhos abertos, no calendário quarenta e oito de fevereiro de dois mil e vinte e quatro. O alarme não mais ressoa, martela. John Cale e seu Drone ressoam.

9 de janeiro de 2024

, ,

O cheiro

Andava em desalento na calçada. Apenas resvalava no cotidiano, pois eram demais os pensamentos em toda fúria da discussão. Ao entrar, novamente perpassando-a, não notou o bilhete na mesa, colocado embaixo do cinzeiro que jamais estivera ali. Somente o cheiro da gaveta impregnava a casa.

4 de março de 2017

,

exercício de micro conto 2

Cinco da manhã. Ainda sem sol (ou estrelas) Walkíria arremessa a lata de cerveja no painel, que alumiava ternos olhares trocados. Ela duro e bicos rijos, ele de narinas brancas nas bordas. Walkíria urra e sai. Eles partem.

19 de julho de 2016

A Mão Esquerda

08h15min PM

Poderiam ser aliterações e mais considerações, atrasos em descrições e milhares de palavras metafóricas, porém era apenas calçamento. Carcomido por entre os dias e pancadas de chuva daquele maio, mantendo inerte em movimento quem passava, unindo-se aos cantos das paredes de outrora novos prédios. Sem existência de separação aparente por entre as arestas, não havia coloração entre os espaços deixados pelas nuvens mais baixas. Apenas existia o caminho por onde as almofadas de suas patas passavam, mesmo porque, sua visão de mundo era limitada à paleta simples de primárias cores, além disso, seria caleidoscópio de preto e branco. Mas essa ligeira falta de virtude oftálmica nunca impediu Fonseca de caminhar. Era inerente ao comportamento, seu instinto mais básico era apenas seguir.
Cheirar e seguir. Nada importava.
A não ser os pequenos obstáculos sobrepostos por entre o calçamento. Uma pequena poça, um poste ou uma árvore deslocando suas raízes acima da superfície, debatendo seu espaço com os restos dos ladrilhos das calçadas ou até uma desavisada sacola de passante a atravessar seu caminho naquela noite. Curiosidade segura por uma guia avermelhada e a mochila xadrez onde seus donos levavam acepipes a apetrechos. O ar levemente frio noturno rebatendo as nuances cruas da carne nos espetos de madeira, as vozes ressoando alto das crianças ou as buzinas ecoando terremotos automotores. Entretanto nada parecia abalar a confiança daquele boxer branco de um ano e meio. Seguia do mesmo jeito que o concreto era apenas concreto, do mesmo jeito que o asfalto era apenas asfalto. Caminhava pata após pata, cheiro após cheiro, de quando em quando olhando no rosto de seus donos. A cidade rugia, mas nada disso importava. Uma simbiose entre o casal de namorados e seu cão jamais parada seria naquela noite. A língua em desabalada salivação no canto esquerdo da boca, o arfar da homeostase pulmonar no branco canino e os passos. E era de se admirar como aqueles três seres tinham passos tão determinados. Como samurais malandros, sem a desabalada carreira dos que correm atrás de seus cachorros. Uma poderosa horda de andarilhos da metrópole, sem a menor possibilidade de tornarem-se estacionários. Entretanto, uma voz na fronteira entre o amargo e o senil atravessa seus ouvidos médios, rasgando a tranquilidade como uma navalha oxidada e sem corte através de um pedaço de tecido branco:
- Nossa, que cachorro bonitão!

10h19min PM

-Eu não acredito!?
O tom de reprovação que agora repousa por entre suas sinapses lhe parece de uma familiaridade doentia. Mas ela estava certa, não podia negar que pela lógica do mundo seu ato estragara uma bela noite. Iam tempos longos desde que saíram juntos com o cachorro. Fonseca, o boxer, olhava sem entender o que significavam aqueles grunhidos tão carregados de remorso e ódio, desferidos pelos dois humanos. Para ele, a sensação do calor nos corpos dos donos exalando aromas conhecidos por ruas escuras era a felicidade última dentro de sua vida.
Seria algo que ele fizera?
Porém se assim fosse, as lindas sobrancelhas de sua dona reprovariam suas ações diretamente em suas retinas, e não nas de seu dono. Os dois vestidos com agasalhos, ele preto e o dela vinho, com suas calças jeans surradas de passeio público e as mãos a conter uma simetria que espantava até quem os conhecia pela primeira vez. Nessa noite entretanto suas alturas que normalmente eram equivalentes, separavam uma mulher em fúria e um menino desolado em seu tropeço mais agudo. O cão assenta-se em suas patas traseiras e observa a feição de seu dono corar em público. Fonseca não saberia diferenciar aquela cor de sua guia, nem ao menos se os dois fossem dispostos em paralelo. O silêncio do erro adormece a tentativa cândida do beijo reconciliador, estremece a repulsa da pele um do outro. Fonseca apenas sente que algo não está certo naquele quadro. Olha, deixa sua cabeça pender para o lado direito, como sempre faz quando quer acertar o foco das coisas que vê ou ouve, mas nada parece acertar aquela situação.
Seria hora de pular no colo deles?
De rolar envolto em algum truque aprendido?
Confuso o boxer apenas espera, entretanto, as palavras de seus donos soam e ressoam cada vez mais tensas. O cão apenas espera como sempre esperou. Como sempre esperou muitas vezes desde que nasceu. Quando o dono do canil o arrancou de sua mãe e deixou-o sem forças no frio litorâneo, como esperou nos dias onde sua vida por um fio estava naquela mesa de cirurgia ou quando seus donos o deixaram no hotel para cães, onde sofreu dezenas de queimaduras pelo desleixo dos tratadores. Como sempre esperou, Fonseca espera novamente. Estático e paciente, um monge ensaiando o sorriso reconciliador.
- Me desculpa, eu volto correndo pra casa e vocês esperam aqui. Volto logo, antes das dez e meia.
Os solavancos das cordas vocais dele enchem o ar de arrependimento.
- Toma conta da mamãe Fonseca.
Ao sair o dono só conseguia pensar o quanto sua autoconfiança não lhe serviria de nada no caminho de volta para casa. Mas não poderia perder mais tempo, afinal de contas a loja para cães fecharia às dez e meia e o cachorro ainda não comera e poderia nem comer se ele não conseguisse voltar a tempo de comprar a ração especial para o intestino. Ele apenas escuta o fungar de Fonseca, ligeiramente entediado por mais uma vez falhar na sua tarefa de manter seus donos juntos. Mas o boxer não sabe das nuances econômicas nem dos relacionamentos entre humanos, ele sente tudo incondicionalmente intenso, e, naquele momento, apenas olha para sua dona como se dissesse que tudo ia acabar bem, porque eles eram as melhores coisas que poderiam ter acontecido na vida de um cachorro. E mesmo sem saber, Fonseca, além do amor que sentiam um pelo outro, era a melhor coisa na vida deles.
Aquela noite serviria como prova.

09h13min PM

- Você não achou meio estranho, aquele senhor falar que tem o boxer dele desde os dois meses? Pergunta pertinente, afinal de contas o desmame de um filhote ocorre algum tempo depois.
- Definitivamente achei estranho, porque como é que o filhote terminou de mamar então? Ela respondia confirmando as suspeitas de que aquele senhor não era um apreciador da raça.
- O que você acha Fonseca? Ao ser chamado, como sempre fazia, o cão virou-se para eles. Um pouco ressabiado ainda, afinal de contas, o que seus donos queriam com ele já que pelo seu entendimento a opinião ou ações dele não importavam. Ou o que era pior, os humanos sequer agiram de outra forma por causa de sua investida certeira. Preferiram continuar conversando enquanto atravessavam o calçamento e o asfalto. O cão não conseguia expressar sua vontade com palavras, mas se pudesse diria que seus donos deveriam prestar mais atenção em seus atos, principalmente naquele momento em especial do passeio, porque ele precisava achar um bom lugar para fazer suas necessidades.

Para Fonseca o que acontecera alguns minutos atrás já não mais interessava. Sua vida era recoberta de segundos mais rápidos do que o calendário humano e ele sentia o tempo como uma rajada do vento no outono. Ligeiro e com velocidade constante, que, chegando de repente, não pode ser interrompido muito menos domado. O tempo para o cão era uma comodidade que não existia. Sentir o tiquetaquear das horas, minutos e segundos era impossível, pois o boxer era apenas intensos sentimentos e a vida dele era muito mais grandiosa do que algo encarcerado dentro de um relógio.
- Mas também namorada, o cara me pareceu um pouco bêbado.
- Não achei que estava bêbado não. Eu achei que ele estava mentindo apenas para puxar assunto.
- Verdade, pode ser mesmo.
Enquanto eles decidiam se aquele senhor tinha passado por tantas aflições, Fonseca levantava sua pata esquerda e aliviava-se. Olhando para seus dois donos apenas, nada mais. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde os dois entenderiam.
- O que mais me deixou com vergonha, foi o Fonseca tentando pegar a marmita do homem. Completa a namorada. - Aliás, é muito estranho isso, porque eu já vi ele tentar pegar bolsas e brincar com vestidos das pessoas que estavam passando, mas nunca o vi tentar comer alguma coisa de alguém.
- Verdade Amanda, estranho isso. - Estava com fome Fonseca?
O cão apenas funga e espera.

08h35min PM

Andava, sentia o asfalto correndo debaixo de suas patas. Relaxado com as orelhas para trás não se preocupava com nada, a não ser um possível encontro com os meninos que viviam jogando bola na esquina. Mas isso também não importava. Muito menos aquele convidativo vaso de árvore. Queria mesmo continuar andando, pata por pata, passo depois de passo. Seus instintos o deixavam tranquilo, porém alerta aos acontecimentos que rodeavam o canto de seus olhos e narinas. O casal continuava a caminhar ao seu lado. Até que a guia avermelhada começa a ganhar um pouco mais de tensão. Fonseca parece diminuir o ritmo, mas a avermelhada fita ainda não estava tensionada em sua totalidade. Quando os segundos desse ato pareciam chegar ao fim, o boxer dá uma guinada para o lado esquerdo tão rapidamente, que seu dono quase tem o ombro deslocado. Como se avistasse uma presa, o cão avança. Mas quem iria acreditar que estava caçando?
Algo morto por milhares de lambidas. O dono tenta corrigir, porém trinta e dois quilos de músculos não deixam. Impassível o cão tenta desvencilhar-se da guia. Pula, e vira-se definitivamente para trás. É um homem que passa ao lado deles. O casal então solta a guia, porque sabem que seu cachorro adora brincar com as pessoas. Porém, o dono tenta corrigir o cão em sua tentativa de escalada pelo alto corpo daquele homem.
- Nossa, que cachorro bonitão, eu tinha um desses, mas morreu faz tempo. - Criei ele desde os dois meses de idade, chamava Buda, mas era caramelo. - Esse é lindo mesmo hein!
A voz entre a navalha e o amargo corta o ar. Ele era um senhor que não passava dos 50 anos. Uma camisa social abotoada milimetricamente até seu pescoço e seu olhar desviando-se de cada baforada de ar frio que poderia levá-lo ao encontro dos olhos daquele casal e seu boxer branco. As pernas altas e o tronco longilíneo mostravam uma imponência diante da vida, que o marcara em cada cicatriz de seu rosto. Ele não parava enquanto pronunciava as frases de espanto e afeição. Como o casal e seu cachorro, parecia ter tudo sob controle. Sabia o que fazia e para onde ia.
- Obrigado. O casal quase que ao mesmo tempo reduz uma reposta que tomaria séculos de contentamento se fossem explicar o que se passara com o mascote do momento de sua chegada, até o espaço de felicidade que estavam.
- Isso é uma marmita. O homem então respondia a pergunta que ninguém fez, pois Fonseca iniciava uma farejada minuciosa em sua mão esquerda. - Ele é lindo mesmo, vem cá menino vem cá brincar, você gostou da minha marmita, não é verdade? Dizia o passante ao tentar manter sua mão esquerda no alto, enquanto Fonseca tentava a todo custo alcançá-la. Pulando e arfando. Seu dono tenta corrigir, sua dona diz não com mais rispidez, porém o boxer branco é metódico o suficiente para ser implacável. Pula, arfa e tenta agarrar a mão do homem desenhando ângulos de biomecânica complexa, vértices de quadriláteros em fechadas curvas com sua coluna elástica, patas cortando o ar em um acorde de mandíbula estridente, percutindo levemente nas bordas da camisa desse anônimo cidadão que ao ser atingido por uma das enormes espadas manuais titubeia e quase cai, mas rapidamente concentrasse e se mantém em pé.
- Fonseca não! A dona repete.
- Não tem problema eles são assim mesmo. Repete o homem.
Canino então tenta mais uma vez, e dessa será definitiva. Ele avança em direção à mão esquerda. Na primeira tentativa quase abocanha, e só não o faz, porque seu dono dá um puxão forte na guia. Frustrado com a tentativa de dominação, o cão avança, latindo em um soneto mórbido de insanidade, estridente como um guarda do inferno repleto de ódio e sangue em suas narinas.
- Fonseca, chega, chega, sentado. A ordem do dono corado de vergonha pelo mau comportamento do cão ressoa seguido do pedido de desculpas.
-Não tem problema, eles são assim mesmo. O homem então se afasta e segue seu caminho, deixando o cachorro com os olhos inundados em quase raiva. Fonseca então novamente se senta, para e olha para seus donos. A marmita na mão esquerda parece cada vez mais longe e o olhar do boxer cada vez mais desolado.

10h26min PM

A sorte do rapaz é que a casa deles ficava relativamente perto da loja de animais e seu caminho seria feito em tempo hábil. A vergonha de seu erro ainda corroía seu estômago e a acidez fluía inadvertidamente pelo seu corpo. Em sua cabeça nada encaixava. Ele saíra de casa com tudo na mochila, todos os apetrechos. Os preparativos para a passagem pela loja foram todos minuciosamente programados e estava tudo em seu lugar. No caminho solitário de volta para a casa, ele vasculhou por todos os pedaços de chão que poderia procurar. Refez todo o caminho do passeio e nada encontrou. O que poderia ter acontecido?
Ele só deu conta de que alguma coisa faltava, quando já estavam no interior da loja. Sozinho ele novamente olha para chão enquanto retorna aos braços de sua amada nervosa e seu fiel escudeiro de tropeções, Fonseca. Um raio bate em sua cabeça sem avisar.
Em voz alta ele exclama:
- Eu coloquei o...
Não consegue terminar a frase. O espanto prende sua respiração e ele sente seu corpo todo estremecer, mais pelo baque invadindo seu cérebro ao descobrir alguma coisa que parecia impossível, menos pela sensação tátil que naquele instante ocorria nas pontas de seus dedos. O bolso atrás em sua calça estava furado.

11h00min PM

Fonseca naquele instante experimentava a sensação de felicidade mais intensa na sua vida. Pelo menos até que o último segundo acabasse, depois disso, seria outra sensação inigualável e assim sucessivamente. Corria atrás de sua bola predileta pela garagem. Gostava de apoiar-se nas pernas de seus donos, e, quando ouvia a palavra certa na entonação apropriada, tomava impulso nas tíbias desavisadas. Foguete branco com pintinhas pretas enlaçadas, assim era a noite do boxer. Uma sucessão de bolas lançadas até o desabar final de sua barriga no chão frio. Feliz corre, sente a língua molhada bater em seu focinho. Morreria ali de felicidade completa se assim fosse necessário. Porém o cão trapezista de coração, não irá.
Anos muitos ainda seriam necessários para que a brincadeira da garagem chegasse ao fim. Fonseca os tinha em suas patas e não os deixaria escapar. Ele não se importava o quanto iriam durar, apenas faria com que fossem eternos em sua vida finita. Ele corria então cada vez com mais vontade e força. Mas se pudesse, além de tudo, diferenciar os fonemas humanos, descobriria que sua dona perdoou a falha de seu dono e que entenderam como perderam a quantia de cem reais do bolso rasgado da calça. Como sempre, a dona entendeu tudo primeiro:
- Olha só namorado, o cara viu que o bolso da sua calça estava rasgado e que a nota estava saindo dele, foi chegando bem devagar e aos poucos alcançou o dinheiro, a rua estava movimentada e nós não prestamos atenção no que acontecia atrás da gente, ele arriscou.
O cão chega do lado deles com a bola repleta em saliva canina e espera enquanto Amanda continua:
- Mas o Fonseca sentiu um cheiro diferente, virou e viu o senhor tocando na sua calça, ele não quis brincar com o homem, ele queria morder a mão esquerda dele porque era nela que ele escondeu a nota de cem. - Para o Fonseca o homem estava atacando a matilha, e ele, protegendo-a.
- Isso bate mesmo com o comportamento dele, ele viu o cara pegando o dinheiro, o homem tentou disfarçar, mas o Fonseca sabia da verdade, não queria comer a marmita e sim queria mostrar pra gente o que ele tirou do meu bolso e que estava naquela mão.
- E se pensarmos bem. Pondera a namorada. - Ele salvou a gente de alguma coisa pior, vai que o cara tenta fazer outra coisa.
Fonseca solta a bola de sua boca. Seus olhos parecem ligar-se de maneira visceral ao coração de seus dois donos. O sorriso deles denuncia que o cão estava certo e ele sabe disso. Como se fosse capaz de identificar os fonemas e entender as palavras pula diretamente no colo dos humanos e os lambe sem parar. A impressão é de que nesse momento ele sorri um sorriso muito mais de satisfação, por perceber que a alma deles entendeu suas ações, do que por pura e simples arrelia. Não existe medida ou metragem capaz de mensurar o que ocorre dentro de células caninas nesses momentos chaves dentro de sua existência. Nem existirão métricas germinativas de pensamento ou formulações físicas capazes de entender o processo de criação da convenção chamada vida. O contato entre a pele branca, morena e os pelos brancos de um focinho indomável, a medida sem exaustão de toques, sensações e anseio pelo encontro no final de um dia qualquer. São pequenos fonemas distribuídos por escalas musicais inaudíveis dentro do correr veloz dos dias. Contrações em encurtamento de miosina e actina, dentro de um músculo estriado pulsante, onde suas cavidades necessitam do preenchimento para viverem. Preenchimento que ocorre ali, produzido por aqueles três seres inteiros em suas imperfeições, ligando-se através da elétrica felicidade a percorrer o chão frio de uma cidade. A vida que por sua natureza incerta cria talhos incertos aos humanos, matreira dessa vez, produziu uma ligação de entrecantos tão poderosa quanto inquebrável.

FIM...

26 de setembro de 2014

,

micro conto...

"...não, é porque eu não aguento mais essa merda,
estou com fome e acabou meu cigarro, e,
se a gente for ficar nessa merda,
eu prefiro ficar nela de estômago cheio e com cigarros.
...estamos nessa merda porque
você ainda é imaturo e age como tal...
...estamos assim não por isso, estamos assim porque
no seu mundo todos são filhos da puta e vacas...
...são três anos tentando me enlouquecer, um dia,
um dia você consegue...
...não posso fazer algo que já está feito,
pois você,
já é mentalmente desequilibrada...
...obviamente que sou, afinal de contas, desde quando,
você comeu  aquela vaca da revista que você escrevia,
eu fiquei assim...
...você diz que eu comi, eu te digo que nunca houve nada,
que não sou seu ex marido,
ou qualquer equivalente...
...e já disse descobre o fundo dessa história, corre atrás,
pergunte, pressione, fale com as pessoas envolvidas,
mas faça isso de maneira que a verdade não te escape...
...e ainda continuo com fome e sem cigarros..."

26 de fevereiro de 2014

– Dois copos de água morna, duas colheres de açúcar e uma de sal acompanhadas por um quilo de farinha, os cinquenta gramas de fermento de padaria somados ao único e ímpar ovo. Esse era o único pensamento que passava na cabeça da matriarca depois do esforço feito durante exatas oito horas infinitas naquele domingo, assim ela conseguiu dopar-se aos poucos, distanciando-se da dor. A professora, longe fisiologicamente de sua aparência entre os sessenta ou sessenta e cinco anos, repensava seu cinza cabelo como amálgama novo de restauração e deixava os olhos negros divagando sobre o suor a escorrer na pele cozida do sol, porém ainda caucasiana, sofrendo denúncias de suas pintas no rosto e ombro. Existia uma resenha leve de consternação em seu olhar, nascida nos portões ditatoriais nos anos setenta, tempo onde a ideia do ser liberto era apenas brasa morta, sobre o qual a mãe de Hilda falava com a mesma articulação, mesclando frases de canções e poesias em cada pensamento exteriorizado, pontos de vista do seu um metro e cinquenta com a estrutura óssea leve e finas mãos, exatamente iguais as limpadoras de cargas explosivas da Segunda Guerra. Sempre vestida com camisa de botões, mais largas do que seu tamanho pois precisava sentir-se apta aos trejeitos exigidos pelo linguajar, assim como era antes, quando administrava os aparelhos na ALN, onde aprendeu a montar e limpar um fuzil AK-47 de olhos fechados, assim como a massa de pão que naquele momento lhe fazia companhia em pensamento.

17 de dezembro de 2013

,

Microconto...

A mãe destilava uma cara onde desenhado estava seu desejo em ter a filha sovada por mel e farinha, como se rainha fosse, cercada de escravos

12 de novembro de 2013

,

Outro microconto...

Sentia o gosto do cheiro de metal na ferida em seu lábio superior direito, teve assim a certeza de que o fim chegara e poderia parar de correr.

14 de fevereiro de 2013

, ,

A cria do oitavo dia...


E era assim que ela estava.
Dentro de seu casulo, protegida por todas as paredes da casa. Não tinha em seus olhos mais nada, a não ser duas pupilas sólidas que a levavam em direções e lugares de onde ela não poderiam mais sair. A escolha dela tinha sido única e concreta. Nada mais valeria a pena, se não fosse daquele jeito. Nada seria tão laconicamente visceral, antes do deserto nascer. Ele veio com força de doze trabalhos, em oceano devastado por geleiras e anemofilizado pelo vento. O mesmo que cortava a janela de seu apartamento, deixando a sensação de riso nervoso. Na sua frente apenas um quadro comprado porque ela simplesmente achava que as pessoas não entendiam o que ele passava, por isso tinha que ser apenas de Phoebe e mais ninguém. Lembrou quando o viu ao redor dos pseudo-intelectuais do comércio, salivando como coiotes em cima de peles soltas. Sem saber o que as cálidas cores costuravam. Ela riu internamente, pois sabia que não era uma questão de admirá-lo. Permanecer dentro dele era primordial. Phoebe sempre gostou de encarar a pintura com suas cores e tentar ficar o maior tempo possível dentro delas. Isso calava suas paranóias e acalmava seu corpo latente. Hoje ela não iria sair tão facilmente, pois o caminhar seria executado dentro da tela.
No segundo onde a pálpebra fechou-se pela terceira vez, ela colidiu com a tela. Estacionou o endoesqueleto em frente à parede morna e sudorípara. Fixamente marcando as margens da tela, ela suspirou lentamente.
Com os pulmões todos cheios, amarrou seu escafandro, checou os fios e saltou para o mar de tinta. Sentiu suas mãos fundindo-se a cada gota, passou por entre os verdes, vermelhos e azuis. Seus pulmões enchiam-se com oxigênio eletrolítico, que vagarosamente absorvia os bronquíolos, preenchendo cada hematose pulmonar com partículas com as variadas colorações. Seu torso nu deixava exposto o tingir de cada centímetro da epiderme, mudando a coloração em cada batimento. Então finalmente, mergulhou no vasto mar em névoa arroxeada. A água era calma.
O ar abundante em seu tubo de oxigênio, a deixava flutuar por mais espaço. Phoebe agora tinha o controle de todo o mundo em sua volta. Rainha de copas submarina, imersa dentro de um corpo que se dissolvia e solidificava quando ela queria. Ousou tomar formas e retirar pedaços. Ser algo a mais dentro da água. Deixava a força lisérgica salinizada do oceano fazer sua parte. Suas mãos eram extensões de um molde que mudava a cada segundo, deixando sua alma em mosaico. Metamorficamente ela observa o local onde agora não mais usa suas habilidades natatórias, mas sim anda por entre o fundo do oceano arroxeado.
Um bairro estava instalado na camada mais profunda, alguns centímetros da borda inferior esquerda do quadro. As ruas eram calmas e carros astrais circulavam sem escapamento, com suas rodas em liga leve de plástico. Dando passagem sempre que um cardume atravessava a grande camada de cimento formado por nuvens pavimentares.
Phoebe observava tudo atenta, maravilhando-se a cada detalhe. Olhou para cima. O fio que trazia o ar para dentro da água, ainda pairava na borda do quadro. Ela tinha o controle.
Pelo menos esse era o pensamento nesse instante.
Passando por entre as casas, viu seu jardim. O mesmo que acolheu o seu nascimento. Olhou novamente e viu seu pai abraçar Lorna com carinho em furor, trazendo um rubor catatônico em sua face. Eles então se amaram assim, enfurecidamente ao ar livre, sob a face derretida de um sol cristalizado, que iluminava o jardim naquela noite. Os dois, pai e Lorna, trocaram juras de todos os amores que nunca tiveram. Olhares ternos quando acenaram por entre os cavalos marinhos cocainômanos, que estavam presos em túbulos ligados ao centro nervoso de algumas algas fixadas no fundo do mar.
Phoebe passou pela varanda e correu por entre os pinheiros, livre de amarras. Rápida, sentia todo o ar passar por cada poro e cada gota do oceano fundir-se ao suor.
Atravessou sua antiga casa e sentiu todo o desespero ir embora. A calma instalara-se de maneira definitiva. Chegou como a amiga de sempre.
Phoebe estava salva enfim.
No fim do quarteirão ela percebeu algo diferente. A rua acabava em duas cascatas de estrelas marinhas, que na sua trajetória descendente batiam por toda a extensão dos rochedos. A cada pancada, um pedaço de sua estrutura tornava-se lama. Esse pedaço estelar em brasa durante o caminho tomava a forma sólida e escura, fazendo com que o chão ao redor das duas quedas fosse todo transpassado por buracos. Ela atravessa as duas cachoeiras com um sentido de medo. Mudança dramática na trama que poderia ser roteiro de um filme repleto de infantilismos. Mas Phoebe sabia que essas cenas não eram Disney e sim Romero.
Depois das quedas, apenas o chão árido. Então ela entendeu a calma e olhou para aquele deserto. Permaneceu incerta, mas a sensação de paz com sua vida passada a deixava plena em forças para o andar. Sabia que mais profundo ainda dentro do deserto deveria guiar seu escafandro. Ao atravessar a cascata, escutou pela última vez aquela velha voz lhe dizer eu te amo.
Secou seus pés na entrada, caminhou por entre as flores de pedra e as escolas velhas com jovens dentro de cada janela.
Aproximou-se do edifício que perdia alguns pedaços com o passar do tempo. O prédio despedaçado nascia por entre as nuvens de poeira seca. As paredes tinham uma coloração amarelada devido à ação dos ventos e eram cheias de poças de areia, como se cada uma segurasse um pedaço dos tijolos, que se despedaçavam formando um mosaico assimétrico em cada metro de todo o prédio. A escola não tinha muros, muito menos um pátio. Apenas ouviam-se os ecos de palavras jogadas aos ventos. Um silêncio pavoroso e vazio ao passar pela porta da frente.
Corredores como se o prédio fosse um hotel fora de temporada no meio de uma montanha gelada. Apenas o vento rei conversava com todas as quinas de portas entreabertas e de cores variadas. Em cada porta números em sequência. Em cada número uma diferente sala de aula e em casa sala, um jovem realizando uma tarefa diferente.
Uma menina de olhos brilhantes e lacrimosos costurava um vestido verde com fitas. Quando pronto, ele desfazia-se por entre o ar. Assim ela poderia começar a costurar o mesmo vestido novamente.
“Ela não sabe o que aconteceu”.
Phoebe assusta-se com a voz que lhe sussurra a frase, olha para trás e não vê ninguém. Apenas um boné do Mudhoney.
Ela se aproxima da menina, que a olha com seus olhos esperançosos e diz:
“Hoje meu bloco vai sair e não serei sozinha. Tornar-me-ei o maior estandarte”.
Phoebe se afasta. Não entendia.
Olhou em outra sala e viu um menino e suas tatuagens vivas contorcendo-se dentro da pele. Pareciam querer sair do seu corpo. O menino olha com um sorriso e sente cada partícula de tinta tentar arrebentar sua pele. Coloca seu lenço escondendo a boca, pois não quer gritar a dor. Tem uma máquina de tatuar em sua mão direita e desenha com ela em dermes artificiais.
“Estou preparando minha mudança e vou treinar nas costas de duas pessoas”. “Trabalho grande que vai me tomar tempo, mas serei lembrado por eles”. “O mundo jamais se esquecerá”.
Phoebe continuava sem saber por que do deserto trazer essas pessoas.
“Ele não sabe”. “Quer apenas sair”. “Está faminto”.
Ela vira-se novamente e não existe corpo para essa voz, apenas um boné.
Phoebe sai da escola e caminha por entre a areia fria. As estrelas lhe anunciam a chegada da aridez. Ao longe uma voz, tangenciando. Uma familiar, a voz de Andy Kaufman
Ela não acredita.
Seu pensamento obtuso e anasalado não consegue entender. Tudo isso foi obra dele. Estou em uma armadilha cínica, ela pensa. Decide então voltar.
Nesse momento seu escafandro solta-se e ela vê o fio desaparecer na borda do quadro.
Respira, mas sem o cinto de segurança. Vira-se então ao encontro dele.
“Demorou demais para chegar”. Exclama Andy.
“Não queria te encontrar”
“Ninguém quer, mas é inevitável”. “Eu sempre estou lá”. Nesse momento ele acende um cigarro e oferece.
"Não, obrigado”. ”Você sabe que eu não fumo, nunca gostei”.
“Você nunca gostou do seu corpo, mas sempre o usou também”. “Aliás, eu preciso te perguntar, como é que ele aguentou tudo isso?”. “Já sei”. “Eu te fiz forte!”. “A genética é uma das minhas maiores criações, você não acha?”.
“Na verdade eu preciso te contar um segredo”, diz Phoebe, “Meu corpo aguentou porque eu quis que ele agüentasse”. “Ele só suportou aquilo que eu queria, apenas passou por onde desejei”. “Ele mudou porque assim foi feita a minha vontade”. “E não a sua”.
"Na verdade você se engana padmé”. “Se eu te criei, só aguentou porque eu a fiz assim”. Andy traga o cigarro e solta a fumaça em forma de crucifixos, que sangram um óleo amendoado cheio de hemácias.
“Você não cansa de admirar seu próprio umbigo, é isso?”. “A humildade não foi uma das coisas que você pregou?”.
“Me reponde uma coisa então amada Phoebe”. “Onde a humildade te levou?”. “Onde a lealdade te trouxe?”. “O que seu sarcasmo ensaiado e escrito por Nietzsche te mostrou?”.  “Diga-me por que eu quero entender”. “E você sabe que definitivamente, a sua vida não foi pautada por coisas que eu possa chamar felicidade eterna”. “Eu diria que a sua vida foi pautada pelo just 'cos you feel doesn't mean it's there”.
Nesse momento Andy estala os dedos, Thom Yorke cantarola.
Andy continua. “Mas não precisa responder, eu falo”.
“Tudo isso te trouxe até mim”. “Você voltou aqui exatamente por que todas essas coisas não te trouxeram nada”. “Tudo o que eu fiz foi isso, te mostrar algo”. “E você nunca foi capaz de entender”. “Toda a vez em que soprava aos seus ouvidos o quanto te amava, você deveria acreditar”. “Deveria ser muito mais forte do que foi”. “Mas a sua resposta foi como a de todos os humanos”. “Foi fraca e você sucumbiu ao desejo do mundano, da imagem”. “Você não foi capaz de entender, que antes de mudar isso, tinha que mudar a fraqueza”. “Você perdeu sua alma em uma mesa de baralho cirúrgico e isso eu nunca te mostrei”. “Eu nunca quis”. “Você pergunta sobre humildade”. “A minha acabou junto com a inocência, ao ver meu filho no deserto ser tentado pelo meu yang”. “Ele não sucumbiu e mesmo assim foi dilacerado pela humanidade”. “Desse dia em diante, vocês são meus ratinhos dentro da roda”. “São a minha ira, minha vingança”. “Eu os criei a minha imagem e semelhança para poder fazer vocês refletirem no espelho e terem a vergonha em saber disso”. “O livre arbítrio é minha maior vendeta”.
Andy acende um cigarro com o filtro do outro.
“Escolhas Phoebe, eu te dei escolhas e você não as quis”. “Preferiu o caminho mais doloroso”. “Não que não tenha me deleitado, na minha roupa de látex preta, vendo tudo isso”. “Eu pensava que você transcenderia”. “Tinha esperança em você, mas eu deveria deixar minha esperança enterrada junto com meu ódio”. “Dentro do meu peito e escondida”.
“Sabe, eu ainda tentei te mostrar isso agora mesmo”. “Levei você para aquele prédio velho, onde os mortos não sabem que estão mortos”. “Onde as pessoas querem desesperadamente ter aquilo que eu te dei em abundância, a vida”. “Todos eles morreram antes de terminarem a maior de todas as passagens, que é viver em plenitude”. “Achei que te jogando tudo isso na cara, essa conversa não seria necessária”. “Que você entenderia”.
“Mas me enganei de novo”.
Ela o olha com ternura. Aproxima-se e o beija longamente. Suas línguas se entrelaçam. Ela sente o sabor do filtro do cigarro por entre seus dentes. Aperta-o contra o peito e seus seios revelam uma excitação sombria. I got you under my skin revela o fundo musical que não é mais controlado por Andy.
Ela o olha mais uma vez.
“Não chora mais não”. Ela disse com ternura inerente de ave maria.
“Agora entendo o que você quis me dizer durante todos esses anos”. “Eu entendo todas as suas linhas tortas e todos seus salmos”. “Nunca desejei ver você queimar, por nenhuma das coisas que aconteceram comigo”. “Todas elas foram escolhas que você me permitiu fazer e por isso eu te agradeço”. “Por me fazer pensar fora da roda de ratos”. “Dispensar todo esse cuidado”. “Na verdade eu te amo muito mais do que você imagina”. “Mas mesmo assim, você sempre será patético demais para mim”.
A baforada de Andy é cortada pela metade.
“Sempre será estúpida essa tua busca pela perfeição mental, que você tenta comprovar com seu grande laboratório”. “Se você nos criou cheios de contradições e defeitos, deveria ao menos assumir a culpa”. “Foi desleixado e ignorante da própria força”. “Não soube nunca o que fazer com todo esse poder que lhe foi dado de graça”. “Porque ninguém mais teve a coragem de te desafiar”. “Você não lutou por nada, só chegou na frente dos demais”. “Me diz então qual é o seu mérito?”. “Ser mais rápido em uma corrida de um só?”. “Vejo hipocrisia, não vitória”. “Vejo medo de se comprometer com o desconhecido”. “Vejo você, perdido dentro da sua própria grandeza impotente”. “Chupando seu pau e retirando mais e mais costelas para ter o prazer que sempre mereceu”. “Ou que na verdade, você acha que merece”.
“E é engraçado tudo isso, porque você me fez desse jeito, um nada”. “Sua imagem e semelhança”. “Fui a sua criação perfeita”. “Uma aberração em um corpo só”.
“Eu era menino e menina ao mesmo tempo”. “Nascido homem, tenho um pênis, mas meu corpo é de mulher”. “Minha sombra confundiu todos pelos quais me apaixonei”. “Todos que por mim passaram”. “Fui sim a sua mais bem sucedida experiência”. “Demorei a entender o que você queria de mim quando percebi que mesmo sendo um menino, sentia-me mulher”. “Adorava coisas do universo feminino e queria ser completa”. “Mas estava dentro desse corpo, então percebi toda a sua jogada”. “Me vi dentro da roda com os outros ratos e lutei com todas as minhas forças”. “Mudei a sua genética e moldei meu corpo para conter toda a minha alma feminina dentro dele”. “Implantes, cabelos, mas mesmo assim não entendia por que faltava sempre um pedaço”. “Resolvi então fazer o que você deveria ter feito antes de ter esses seus ataques”. “Olhei para o chão e me redimi”. “Percebi nitidamente o que eu deveria fazer e não poderia simplesmente aceitar o destino”. “Não posso contentar-me em apenas passar por este mundo, sem ao menos fazer algo que me leve de volta para o meu criador”. “Phoebeisntein precisava voltar para quem havia lhe dado vida”. “Mas de que maneira, se você é responsável por todo o universo e por todas as terras do nunca?”.
“E é por isso que hoje me encontro aqui dentro desse quadro com você Andy”. “Vim mostrar que você perdeu”. “Eu vou transcender toda essa carne podre cavernosa que me destes”. “Hoje você não pode mais fazer o que bem entender, porque eu tomo seu lugar no que diz respeito à onipresença”. “Estou aqui para te dizer que seu reinado de sarcasmo acabou”. “Porque o monstro que você construiu, tomou consciência de toda a verdade”. “Descobri quem era atrás da cortina e eu sei que tudo o que sou realmente não cabe dentro de um corpo”. “Seja ele de homem ou mulher”. “Eu preciso expandir-me por todo o mundo e mostrar ao universo a beleza de nos transformarmos naquilo que realmente somos”. “Aquilo que temos de mais maravilhoso e deixamos escapar, seja pelas colunas sociais ou pela nossa própria mortalidade”. “Hoje eu entendo que você não criou, apenas acendeu o fogo e deixou queimar humanidade”. “Por isso estou aqui pra te dizer que essa chama vai incendiar o mundo”. “Não haverá prece que impedirá o universo de queimar alto”. “Eu vou deixar todos saberem o quanto é um hipócrita lunático e nunca mais você vai colocar alguém dentro da gaiola de ratos”. “Porque hoje eu sou uma só com o universo”.  “Sou cristal e vou refletir toda a luz que mora dentro do meu corpo”. “Para poder iluminar todo esse povo que você cegou com seu livre arbítrio cínico”. “Essa manobra que reflete a maior ironia de todas”. “O livre escolher comandado por uma mente doentia como a sua”. “Vou te mostrar como é possível espalhar a essência”. “E deixar as pessoas verem que somos maiores, somos todos crias do oitavo dia”. “Merecemos viver sob a nova ordem livre”. “Viver sem amarras, em plenitude”. “Mais do que simples seres humanos”.
“Teu sarcasmo morre aqui”. “Vou drenar a vida de dentro desse corpo que nasceu aberração, destinada ao fracasso”. “Com flor e dois órgãos, que hoje polinizarão irreversivelmente teu labirinto”.
Phoebe abre os olhos e está fora do quadro. Sem pensar olha-o e suspira.
Em um só golpe arranca o membro masculino com a lâmina que brilhava em suas mãos. A faca golpeia seu sexo vigorosamente. O menino que um dia nascerá mulher não mais existe e a mulher que morava presa se vê livre. O sangue corre rápido como queda d'água, Phoebe cai.
Sente seu pulso fraco, sorri. Inundada pelo seu líquido mais precioso.
Uma lágrima salina escorre pela órbita esquerda. Joga a faca longe. Cai na sacada e seu sangue desce cambaleante pelas arestas. Phoebe não sente mais ódio, não sente mais raiva. Está sorrindo livre, passa a mão pela poça e cheira seu próprio sangue. Deleita-se com o doce e morno sabor exalado naquele momento. Escorre pelas suas mãos e ela o deixa ir. O vento entra pela sua sala e a faz levitar. De braços estendidos ela ilumina-se.
O sangue corre por todas as portas e começa a encher a sala. Phoebe sente toda a plenitude de sua menarca, enquanto o líquido atinge o teto. Explode pelas paredes do apartamento e sai ejaculado pela janela.
Forma-se um arco íris dentro de sua casa. Ela observa, enquanto as hemácias passam pelas ruas e nos jardins dos prédios vizinhos. E quando chegam ao solo, flores começam a brotar. Dentro das árvores orquídeas muticoloridas extravasam caules sólidos corroídos pelo tempo. Seu sangue torna-se parte do asfalto e dele nascem fontes, onde a vida se forma através de explosões. Corre livre pelas calçadas. Phoebe olha enquanto os homens respiram essa vida hematófaga que vulcanicamente esfacela o cotidiano. Eles então se sentem mais vivos, em comunhão com o mundo. Ela transcende a morte eminente, está tornando-se toda a vida. Libertando-se de tudo o que lhe foi imposto. Ela já não tem mais a dimensão da quantidade, apenas sabe que o mundo está colorindo-se de cor avermelhada e viva. Vê seu corpo tomar conta de todo o universo, e ao mesmo tempo, fazer dela aquilo que sempre quis ser. Uma linda rosa azul.
Os paramédicos arrombam a porta do apartamento em exatos trinta e três minutos depois e encontram seu corpo no chão mutilado. Sobre uma poça vermelha. Eles não sabem precisar o que é aquele ser estranho jogado no centro da sala. Se está vivo ou não. Carregam o corpo com cuidado e posicionam Phoebe na maca. Amarram firme.
Enquanto eles a levam da sala, a menina que acabara de nascer abre os olhos e suspira. Ao longe vê a sua flor azul florescer em um galho de árvore. Ela sorri e fecha os olhos. Andy acende mais um cigarro. Em sua mão direita vermelha está o telefone que ainda mostra o número 190 no painel. Ele ajeita a aba de seu boné do Mudhoney, levanta seus olhos em direção da rua onde a ambulância está. Na lateral esquerda de sua boca uma frase quase inaudível. “Sim meu maior amor, Phoebe. Você é a minha maior experiência”.
No terceiro dia, Phoebe abre os olhos. Aperta seu corpo todo e ele agora está completo. Sente o espaço ocupado outrora por um pequeno órgão sexual masculino e que agora está pronto como uma tela em branco. Ela sabe que é apenas uma questão de tempo, para a sua desejada vida como mulher completa começar. Livre estava finalmente.